Tranco
fantasmas no meu corpo
* Por
José Geraldo Neres
Os
minutos saem de minha pele, se perdem pela casa. Vozes no meu corpo:
passam por uma encruzilhada de caminhos, movem-se, movem-se. Ela não
conhece o tempo. O espelho não se lembra de sua face. Caminha. Sem
testemunhas. Caminha. Não sabe misturar o barro, procurar nomes e
milagres. Hoje ele mudará de pele e dormirá sozinho.
A
morte caminha nos olhos dos Outros, dizem que seus olhos são paredes
brancas. De herança ganhei um relógio, não de metal, mas de carne.
Pedi paciência e ele responde: a ferida está aberta, caminhe. Os
dois ponteiros gostam de serpentes. Caminhe. Ela nunca me desafia —
a morte —, arrasta um colar de nomes, gosta da inocência destes
olhos cegos, nunca repete um nome.
Á
quarta parede a se formar dentro do meu corpo. Imagem dentro da
imagem dentro do relógio. A casa, diante do espelho, sorri.
Realiza
um estranho ritual, retira do espelho palavras e mais palavras. Tenta
compor nomes. Horas e horas passa frente ao espelho. Sequer um
pequeno nome ela consegue formar, continua o ritual, palavras e mais
palavras. A ferida está aberta. Eles nunca caminham de mãos dadas.
*
José Geraldo Neres é produtor cultural, poeta/escritor, roteirista,
co-fundador do Grupo Palavreiros (escritores/poetas sediados em
Diadema/SP), ex-estudante de dramaturgia, atual Coordenador de
Comunicações e Web-Master do site PALAVREIROS. Co-editor da Revista
Eletrônica "Poética Social". Autor de "Pássaros de
Papel".
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