Primeira
lição
* Por
Ornela França
Atrás
de quem estaria aquele 'a' com de cor forte e densidade neutra? Atrás
de quem? A certeza é que ele não parava de dançar na folha rosa e
eu me diverti. Olhei calmamente aquela criatura que por nome de vogal
podemos identificar, depois de encaixar os óculos onde são
realmente úteis e, dessa maneira, pude ver que não era apenas um.
Lá estavam os dois 'as' que naquela situação, em minúsculas,
parecia um só.
Só
então pude ver que os gêmeos dançantes estavam abraçados pelo 'n'
da minha mãe. O que esse ‘n’ fazia ali? Antes era apenas um ‘a’
dançante. A música parou, ou pelo menos, o ‘a’ acomodou-se
junto daquele ‘n’. De certa fora o ‘n’ era a desculpa para
separar e unir os dois ‘as’.
Separando-os
dava a possibilidade de formar novas palavras, unindo-se descobri
aquele nome cheio de poesia e música. Era sim o nome dela. ana, em
fôrma e caixa baixa, me mostrando pela primeira vez atrás de lentes
oculares um nome maternal e divertido.
Descobri
sim como era que chamavam minha mãe, nasal e carinhosamente. Assim
ganhei o meu primeiro palíndromo. Ana de qualquer maneira foi o
início de tudo, justo quando abri os olhos para ver o mundo.
Palindromicamente falando, ana nasceu depois das lentes dos novos
óculos que ganhei. E nem parece que perdi tanto pois ainda lembro
daquele ‘a’ se mexendo e remexendo na folha rosa com letra mini,
querendo dizer que não queria ficar só por ali. Meu ‘a’
aquietou-se depois disso, mas disse que não quer ficar só por aqui.
Não custa se enrolar com outras letras para me divertir novamente.
Vai lá, ‘a’.
*
Jornalista
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