Obrigação de criar
A
melhor definição que já ouvi a respeito de quem vive de fazer arte
– não importa se pintura, música, escultura ou literatura – é
a de que “o artista é o sujeito que tem a obrigação de criar”.
Não me peçam para explicar isso racionalmente, porquanto não sei.
Só sei (e por “sentir” isso, por exclusiva intuição) que se
trata de realidade. E quem o obriga a ser criativo e a produzir,
produzir e produzir, sem cessar, sem se importar com resultados
práticos, notadamente os pecuniários? Boa pergunta. Da minha parte,
sinto-me, de fato, obrigado a tal, em todos os momentos do dia e
todos os dias da minha vida. Só não sei determinar, ou identificar,
ou perceber por quem.
Fazer
arte, quero deixar bem claro, me dá prazer. Não entendo o talento
que tenho como sendo “maldição”, como muitos artistas
consideram. Na maior parte do tempo, criar me dá imensa e
incomparável satisfação. Mas nunca o tempo todo. Considero-me
pessoa normal (está bem, sou um tanto excêntrico, admito), e gosto
das mesmas coisas que você gosta, cético leitor.
Contudo,
uma voz interior me compele a criar, criar e criar, a produzir, e
produzir, e produzir mesmo quando não me sinto disposto a tal, ou
quando tenho outros afazeres e compromissos (sociais, por exemplo),
que não tenham nada a ver com arte. Nesses momentos – embora, não
raro, produza até mais e melhor do que quando o faço com satisfação
– me sinto tentado a concordar com Thomas Mann, que escreveu, no
livro “Os famintos e outras histórias”: “Ah!, só uma vez,
por uma única noite como aquela, não ser artista, ser apenas homem!
Escapar uma só vez da maldição que ressoava em seu ouvido,
dizendo: ‘Você não tem o direito de viver, precisa criar! Não
deve amar, mas saber!’”
Minha
compulsão não chega a tanto... mas quase. Não raro, nas minhas
horas de lazer – quando estou num teatro, por exemplo, assistindo a
uma boa peça ou me deliciando com os acordes de magnífica orquestra
sinfônica; ou num estádio de futebol vendo a minha Ponte Preta
jogar; ou num cinema, apreciando a um bom filme ou mesmo em casa,
fazendo amor – uma voz, monótona, incômoda, recorrente e
impositiva, parece me lembrar a todo o instante: “Você não tem o
direito de viver, precisa criar!”. E lá vou eu escrever,
apaixonada e furiosamente, textos e mais textos, que possivelmente
não serão lidos por ninguém ou, se forem, o serão por pessoas
interessadas, apenas, em encontrar defeitos na escrita e contradições
nas idéias. E, no entanto... persisto, persisto e persisto por dias,
meses, décadas, pela vida afora. Por que? Boa pergunta: por que?
Ocorre
que para fazer arte com competência (já não digo com perfeição,
pois esta nos é interdita), é necessário muito exercício prévio,
longo aprendizado, horas e mais horas de paciente e meticulosa
observação. Só o talento não basta para produzir obras que valham
a pena. É preciso aliar à sensibilidade e vocação, a técnica, a
forma, o “como fazer”. E isso não nasce conosco e nem acontece
espontaneamente, por acaso, sem que precisemos nos esforçar às
vezes ao limite das nossas forças.
O
editor-chefe da revista “Skeptic”, Michael Shermer, afirma que,
para podermos nos considerar artistas razoavelmente bons, devemos
passar, no mínimo, por 10 mil horas de preparação. Declarou, em
entrevista publicada no suplemento “Mais!”, do jornal Folha de S.
Paulo, de 14 de setembro de 2001: “O que é preciso para ser um
gênio criativo e alcançar o topo de sua área? Primeiro de tudo, há
uma regra das 10 mil horas mínimas. Se você quer dominar um esporte
ou uma habilidade, isso vem com 60 horas por semana durante três
anos e meio. Isso é verdade em todas as profissões. Não significa
que você vai conseguir. Boa biologia e genes ajudam. Mas olhe
Mozart. Ele não surgiu do nada como algumas pessoas pensam. Ele teve
o pai e o treinamento e fez as 10 mil horas aos 6 anos. Devoção
precoce ajuda o gênio a sair”.
“E
a inspiração, não conta?”, perguntará o leitor, que produz,
eventualmente, alguma espécie de arte e, por isso, já se julga
“artista”, mesmo não sendo. Bem, não gosto dessa palavra, que
induz muita gente a equívocos, principalmente ao de achar que se
pode produzir uma obra de arte consistente e duradoura “apenas”
porque num determinado momento se tem uma centelha de criatividade.
Evidentemente, não se pode. A esse propósito, penso como o eminente
folclorista potiguar, Luís da Câmara Cascudo, um dos homens mais
lúcidos e cultos que este país já produziu: “Não sei o que é
inspiração. É a mesma coisa que amor, que simpatia. O que é
simpatia? Por que é que você simpatiza uma pessoa e antipatiza
outra? Qual é o órgão que funciona? É um mistério”. E é
mesmo.
Mas
qual é a definição desse momento mágico do verdadeiro artista, na
concepção de Cascudo (e na minha)? “Inspiração é o estado de
gravidez em hora do parto. Você quer dizer a um sujeito que não
acredita em fecundação? O que é obscuro é o processo de
fecundação. As coisas obscuras é que engravidam você para você
escrever. Que não é o último caso. É uma soma emocional que se
capitaliza em você. Felizmente, eu nunca aprendi gramática, que é
inutilizadora de grandes talentos, exceção feita apenas a Machado
de Assis, que era nato. No dia em que ele viu uma gramática, se
assombrou”.
É
certo que não me sinto e nem me considero “amaldiçoado” por
este talento inato que possuo, mas que requer permanente
aprimoramento, que é a facilidade de escrever. Sinto-me, todavia, de
certa forma escravizado a ele, dada esta voz misteriosa que me
exorta, compele, espicaça e obriga a criar, criar, criar, mesmo
quando me sinto vazio e não tenho, como agora, nada a dizer.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Imagino se tivesse o que dizer. Quanto escreveria hoje? Ainda que normalidade não exista, eu não o classificaria como alguém que produz de forma "normal". Há alguma compulsão nisso.
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