A morte do ribeirão
* Por
Urda Alice Klueger
Tudo era úmido, fresco
e verde, lá naqueles dias da minha primeira infância. E no meio daquele grande
frescor verde, ele corria como uma dádiva de cristal, serpeando pelo fundo do
Vale que ele próprio escavara ao longo de tempos imemoriais, e onde agora
ficava a rua, as poucas casas, os muitos pastos. Os adultos já deveriam saber
de alguma poluição, pois minha mãe sempre dizia para não beber daquela água, o
que fazia, claro, que a cada vez que eu me visse sozinha, fosse correndo beber
exatamente daquela água que era tão boa, tão fresca, tão cristalina!
Havia peixinhos
nadando para cima e para baixo por todo ele, pequenas piavas cujas barrigas
prateadas brilhavam quando o sol sobre elas incidia, e grandes cascudos que
viviam em tocas, e que meu pai pegava com uma fisga nas suas tardes de folga,
além de outros peixes que o nosso vizinho Osnir acabava pescando, como uma
assustadora “ingüila”, que metia medo em todos nós, e que hoje sei que o nome
certo era enguia.
Aquela coisa de
cristal que navegava por meio de pastos atraía muitos insetos, também. E, nas
tardes de Primavera, interessantíssimos bichinhos que a gente chamava de
“helicópteros”, e que hoje eu penso que se tratava de louva-a-deus, e grilos, e
outros grandes insetos de asas transparentes enchiam o ar por ali, e muitos
deles, decerto, acabaram pousando no rumorejo brilhante daquela água encantada,
e viraram comida dos muitos peixes que havia. E quando era dia de festa, como
dia de aniversário e Primeira Comunhão, o pai da gente comprava gasosa e
cerveja para o almoço, e naquele tempo de antes da chegada da geladeira, as
garrafas eram colocadas dentro do ribeirão de manhã, para que seus conteúdos
ficassem bem fresquinhos para o almoço. E a mãe da gente pegava baldes d’água
dali para encher o cocho de lavar roupa, e a tia Fanny, mais adiante, fazia a
mesma coisa.
E quando chovia muito,
ele simplesmente transbordava. Qual era o problema dele transbordar? Havia
pastos e pastos por todos os lados onde ele podia se espraiar, e se havia uma
coisa boa na vida de uma criança, era andar por dentro dos pastos alagados,
molhando-se o mais que podia, mesmo sabendo que levaria uma bronca ao chegar em
casa. A gente não corria o risco de cair na corrente principal, lá onde era
perigosa quando ele estava cheio, porque ela era toda demarcada por touças de
inhame que se aproveitavam da umidade perene para vicejarem com o maior garbo.
E passada a chuva o ele se encolhia, voltava ao seu leito, e a vida voltava a
correr normalmente.
Estou falando do
Ribeirão da Rua Antonio Zendron, em Blumenau. Ele era assim como estava
contando, e foi assustador o que aconteceu com ele. Nestas ultimas quatro
décadas, gente e mais gente foi morar onde antes eram os pastos; condomínios
surgiram e casas pipocaram, e ele deixou de ter para onde transbordar nos dias
de chuva, e também perdeu as suas curvas, os seus inhames, os seus peixes.
Chegou um momento em que ninguém mais queria saber dele, que se tornou um
ribeirão odiado. E então retificaram-no de fora a fora, e prenderam-no num
grande túnel de concreto. Nesta semana, estive lá espiando o que aconteceu. Fui
ver sua desembocadura, que é o que ainda pode ser visto, e lá no fim do túnel
de concreto escuro, saía uma água sofrida, humilhada, cheia de garrafas,
pedaços de plástico e outros lixos. Escuras algas que antes não existiam quase
engolem o pouco de água que sobrou – decerto nasceram ali para devorar alguma
coisa da grande poluição que corre por aquele canal. Até uma rua passa por cima
do canal escuro – é como se o ribeirão nunca tivesse existido.
Cadê as libélulas, os
cascudos, as piavas com as barrigas prateadas brilhando ao sol, e a água limpa
para as mães da gente lavarem roupa? Não estão mais lá, com certeza. Mas eu me
lembro como era, ah! Como me lembro!
Blumenau, 10 de
Outubro de 2003
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e seis livros, entre os
quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
Doe ler, quanto mais lembrar desse doce sonho da infância. Aqui no norte de Minas a gente também tinha esses rios pequenos que chamávamos de riachos, e quando nos referíamos ao caminho deles, dizíamos que "serpenteavam", e seus peixinhos eram "piabas". Nosso Brasil é grande, Urda, de muitas linguagens, e todas têm seu lugar, mas a nossa chamada "civilização" está a cada dia mais faminta em sua crueldade e destruição. Já não cabem mais os grandes rios Doce ou São Francisco, sumindo, e os pequenos já se foram. Só nos resta chorar e olhar as fotos, caso existem ou recorrer às imagens gravadas na memória.
ResponderExcluirDoi...existam
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