Premonição
* Por Pedro J. Bondaczuk
Conto
Era uma doce velhinha que, mesmo aos sessenta anos, tinha
uma suave e comovente beleza. Nem os sofrimentos (e duros tempos de privações)
conseguiram comprometer essa característica natural, que a fazia notada onde
quer que estivesse. Os desgastes naturais da vida, em vez de enfeiarem-na, só
realçaram a suavidade dos seus traços eslavos, dando-lhes um toque peculiar de
dignidade, aquele que determinados anciãos refletem em sua fragilidade. Frágil,
sim, mas não fraca.
Lembro-me nitidamente de tudo o que lhe diz respeito, principalmente
de sua voz mansa, cheia de amor, característica sublime e mágica de quem era
duplamente mãe (porquanto era avó), que vezes sem conta, num passado já tão
remoto, acalmou meus inexplicáveis e infantis temores. Era como se tudo o que
dissesse soasse como a música de Orfeu. E soava. Tinha o poder de acalmar e de
adormecer a fera que se escondia em meu inconsciente.
Suas mãos, firmes e ágeis, apesar da idade, estavam sempre
prontas a socorrer, a ajudar, a acudir, a fazer coisas, a acariciar, a realizar
qualquer trabalho, por árduo que fosse, desde que redundasse no conforto e na
segurança dos que amava. Era dessas mãos abençoadas e providenciais, das quais
o mundo anda tão carente.
Seus olhos, cansados pelas incontáveis noites insones em que
passou entretida na costura, para que os filhos pudessem ter sempre algo novo e
elegante para vestir e assim se sentirem notados, importantes, amados e
admirados até, tinham uma suave coloração esverdeada, da cor da esperança, de
que, aliás, nunca abriu mão. Escondiam, em seu interior, mistérios orientais de
grandeza e beleza. Refletiam, sobretudo, bondade. Apesar de algumas sombras,
mostravam inusitada vivacidade, a de quem ama a vida e que, por isso, quer
captar do mundo todas as imagens possíveis, mesmo as que não forem agradáveis à
vista.
Mal sabia, essa doce velhinha, dos infortúnios que os
acontecimentos posteriores iriam lhe reservar, nas três derradeiras décadas da
existência. Desconhecia a mágoa que teria que suportar, de precisar dividir-se,
de ter que partilhar pensamentos e emoções por dois hemisférios da Terra, duas
civilizações diferentes, dois países heterogêneos, cada qual com seus costumes,
tradições e peculiaridades.
Por uma contingência familiar que fugia de seu controle, teve
que regressar à sua Rússia natal, deixando para trás filhos e netos, mesmo que
revendo e tornando a conviver com parentes que julgava que nunca mais veria.
Nos trinta e um anos seguintes, essa doce velhinha, tão meiga e amorosa, teve
que se contentar, apenas, com raras fotografias que recebia dos entes queridos
que ficaram tão distantes, com esparsas e cada vez mais raras cartas e,
sobretudo, com algo que ninguém, jamais, poderia lhe tirar: as lembranças que
trazia vivas na memória e que tornavam a saudade presença constante e cada vez
mais pungente.
No final de um outono europeu, quando as árvores começavam a
perder as folhas e a natureza a vestir-se de “gris”, precedendo outro duro
inverno russo, seus olhos, agora opacos, apagaram-se, de vez, para a luz do
dia. Suas mãos, já trêmulas e inseguras, quedaram, finalmente, inertes, elas
que tanto haviam feito pelas pessoas que amou. Sua voz, mansa, mansa, foi se
esvaindo, tornando-se murmúrio, declinando para sussurro, até parecer simples
sopro inaudível. Mas seguiu abençoando filhos e netos tão distantes, do outro
lado do mundo, até se apagar e silenciar.
Na noite em que ela se foi, minha filha mais velha, sua
bisneta que ela não conheceu a não ser por fotografia, observou uma determinada
estrela, que seria capaz de jurar que não estava ali na noite anterior. Era
extraordinariamente brilhante, a reluzir na direção do Norte. Não sei explicar
por que, mas pensei, de imediato, nessa velhinha tão suave, tão amorosa e tão
querida, que há já trinta e um anos habitava apenas em minha memória, como se
me acompanhasse onde quer que eu fosse e me protegesse de alguma maneira contra
os perigos e agruras da vida. Creio que protegia de fato. Que relação essa
criatura benfazeja tinha com a estrela? Eu não sabia explicar. Mas intuía que
tinha alguma.
Subitamente, ouvi uma voz bem pertinho de mim, próxima ao
meu ouvido, que não era a de minha filha, que permanecia em silêncio a olhar
para o céu. “Mas como?”, perguntei-me perplexo e assustado, temendo estar sofrendo
algum delírio, justo eu que nunca fui dado a nenhum tipo de fantasia. E a voz
era mansa, mansa, como a que ouvia amiúde, há muitos e muitos anos, quando
triste ou com medo de seres imaginários, que poucos anos depois me convenci que
não existiam. E ela disse-me, somente: “Deus o abençoe! Adeus!”.
Tive, naquele instante, horrível sensação de irreparável
perda, embora, objetivamente, não houvesse absolutamente nada que sequer
sugerisse essa possibilidade. Lembro-me como se fosse hoje: era a noite de 31
de outubro de 1984. Duas quentes lágrimas escaparam dos meus olhos e rolaram-me
pela face até a boca. E eram ácidas, salgadas, amargas e doridas. Eram lágrimas
de despedida.
Poucos dias depois, recebi carta dos parentes da Rússia
dando conta do falecimento da minha avó. E não me surpreendi quando soube a
data da sua morte. Ela aconteceu exatamente em 31 de outubro de 1984. Não sei
explicar racionalmente como, mas estou seguro, seguríssimo que, de alguma
forma, ela voltou para me dizer adeus e dar-me sua última bênção de avó. Querem
saber? Às favas com a racionalidade!
Nota:
Esta é uma obra de ficção. Qualquer
semelhança com fatos ou pessoas é mera coincidência.
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
É velho quem tenha dez anos a mais do que a gente. Aos 61 anos me sinto velha, mas não velhinha ou anciã, ainda que venha, devido a LER (de tanto escrever),perdendo a funcionalidade do meu braço esquerdo (sou canhota). Assustei-me ao constatar a sua visão dos 60 anos.
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