Ocorrências
policiais da província – Parte II
* Por
Marcelo Sguassábia
Por Laudilene
Elizandra, da Reportagem Local
Um prato raso de fios
de ovos e uma porção de lasanha à bolonhesa por pouco não levam à morte dois
dos nossos mais respeitáveis munícipes – o Dr. Draconiano de Campos Pimentel,
chefe do Posto de Arrecadação Tributária local, e o conhecido “Ditinho
Puxa-Uma-Perna”, dono da fábrica de gatilhos.
Após chegarem às vias
de fato em plena Praça da Matriz, por motivos até aquele momento não
elucidados, as partes beligerantes dirigiram-se engalfinhadas à sede da
“Tribuna Varonil” e transformaram em ringue a redação deste matutino. Os
sopapos e insultos de baixo calão comeram soltos até a chegada o cabo Edélcio,
que convertido ao islamismo tentava apaziguar os ânimos segurando numa das mãos
o Corão (pela capa dura e espessura do volume, era quase um escudo à prova de
balas) e na outra um par de algemas em aço temperado de marca Alcatraz.
Acender velas e entoar
ladainhas talvez pouco valesse nessa hora de fúria cega e juras de morte, mas
ainda assim se tentou. Dona Benedita, cônjuge do Dr. Draconiano, armou um
altarzinho improvisado entre a mesa do editor adjunto e a do revisor. Terço à
mão, entoava em rodízio Ave-Marias e Salve-Rainhas, invocando a intercessão do
Santo Espírito ou de alguém em carne e osso, com osso e carne suficientes para
apartar os dois desafetos.
Visivelmente
consternada e com o raciocínio turvado pelas fortes emoções, Dona Benedita
posteriormente relatou à reportagem a causa da desavença.
Como é de conhecimento
geral, a indústria de “Puxa-Uma-Perna” andava tão claudicante quanto o seu
malfadado proprietário. De acordo com Dona Benedita, a crise no setor de armas
atravessa uma reação em cadeia. Do coldre ao cão, da alça de mira ao tambor –
passando por uma infinidade de projéteis de calibres variados - um fornecedor
vai transferindo o calote ao outro. O resultado são pistolas, rifles e
metralhadoras com canos mas sem gatilhos, com tambores em perfeito estado mas
sem balas que os alimentem. Dono de um estoque de 24,5 toneladas de gatilhos, e
mantendo o quadro de funcionários em férias coletivas desde julho do ano
passado, Ditinho não teve outra alternativa a não ser recorrer a subterfúgios
emergenciais de sobrevivência. Foi quando lhe ocorreu a ideia da rifa, pomo da
discórdia dos quase-óbitos. Ofereceu em permuta ao Buffet da Dinorah 750g de
gatilhos em troca das porções de fios de ovos e de lasanha para serem rifadas
junto aos moradores, à razão de 5 reais o número. Quando da divulgação do
resultado, na quinta-feira passada, “Ditinho Puxa-Uma-Perna” anunciou que o
contemplado era ele mesmo, que empenhara os últimos 5 reais que tinha no bolso
para fazer também sua fezinha.
“Não tenho culpa se
fiquei com o prêmio. Não existe no regulamento das rifas cláusula que impeça o
próprio rifador de adquirir um ou mais números para si próprio”, justificou-se
ele ao nosso jornal. Chamado de “cafajeste” e “ordinário” pelo coletor de
impostos, “Puxa-Uma-Perna” retrucou o insulto com uma risadinha sarcástica. Num
acesso de desatino, Dr. Draconiano sacou de sua garrucha, absolutamente íntegra
por ter sido fabricada antes da crise da indústria bélica. Ditinho teria visto
Nossa Senhora mais cedo não fosse o tambor descarregado da arma do Doutor. A
risadinha do rifador transformou-se em gargalhada, que acabou por contagiar
todas as testemunhas da cena. A humilhação fez com que o Dr. Draconiano
partisse para a luta corporal, única forma de reverter a peleja a seu favor.
O caso está nas mãos
do Juiz de Pequenas Causas, que deverá dar seu parecer quando da volta de suas
férias na Praia Grande. Mais notícias na próxima edição da “Tribuna Varonil”.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
Quem com riso fere, com riso será ferido. Estou ferida.
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