O futebol é uma caixinha
* Por
Abílio Pacheco
A frase completa é “o
futebol é uma caixinha de surpresas”. A frase já era clichê na década de 90
quando eu assistia futebol italiano nos domingos pela manhã junto com meu
padrasto, e mamãe ficava impaciente pois a gente deveria era ir para a escola
bíblica dominical. A frase, entretanto, é velha e “foi inventada pelo
comentarista Benjamim Wright, pai do ex-árbitro José Roberto Wright” segundo o
livro Guia dos curiosos. Para hoje a gente precisa completar a frase de outro
jeito.
* * *
Ontem – para desopilar
– parei tudo para tomar duas cervejas e assistir Flamengo e Corinthians pela
32ª rodada do Brasileirão. Confusões e mais confusões. E o gol do Flamengo foi
visto como ilegal até pelos flamenguistas que lotavam a sala de estar da casa
do meu irmão. Eu já vinha ruminando há dias uma explicação sobre o futebol e o
Brasil. Afinal, deve haver explicações para que o futebol seja tão relevante na
vida nacional a ponto de afirmarem que é uma marca de nossa identidade. Somos
“O país do Futebol”. Por quê?
Vou esboçar uma
resposta arriscada, sem base livresca e por isso mesmo meio irresponsável. Quem
quiser uma base acadêmica para o assunto, vai ler “Veneno remédio: o futebol e
o Brasil”, de José Miguel Wisnik [São Paulo: Companhia das Letras, 2008]. Aqui
vou na base do achismo mesmo.
O brasileiro se
identifica com o futebol por um enorme motivo que vou fatiar em dois: não é um
esporte justo, pois o placar não condiz com a qualidade do futebol do time
vencedor e porque a arbitragem…
Em qualquer esporte,
principalmente coletivo, a possibilidade de uma equipe jogar pior e vencer é
mínima. Não é uma equipe mais fraca vencer. Isso é possível em qualquer
esporte. Um dia mais “iluminado” e de repente o Íbis vence o Santa Cruz, ou o
Águia derrota o Fluminense. Não é isso a que me refiro! Digo é qualidade do
jogo jogando. Ao contrário do vôlei, por exemplo, em que a estatística dos
fundamentos reflete o resultado da partida, no futebol, uma equipe pode ter
menos pose de bola, mais passes errados, menos tomadas de bolas, menos chutes a
gol, menos escanteios, menos cobranças de laterais e até menos pênaltis e ganhar
o jogo. No futebol, as estatísticas de todos os fundamentos podem apontar para
a superioridade de uma equipe, mas se isso não se converter em mais gols, nada
feito. Podem alimentar semanas de discussão, mas o melhor time nem sempre
vence. Aquela máxima esportiva “que vença o melhor” simplesmente não vale para
o futebol.
Outro motivo – talvez
o principal – para que o brasileiro goste tanto de futebol são os erros de
arbitragem (alguns nem parecem ser erros). Enquanto em outros esportes
coletivos ou envolvendo bola (novamente o voleibol é um exemplo nesta
comparação) o recurso eletrônico ou vídeo-tape (ou sei-lá como chamem) é usado,
no futebol vale a decisão individual e muitas vezes personalíssima do juiz ou
árbitro. E uma das piores coisas que tem neste esporte é o tal impedimento. (Na
minha opinião não deveria existir essa regra. Em outro post eu explico) Ontem,
o lance que mais irritou os torcedores do Corinthians (e de quem torcia pelo
time paulista como eu) foi o lance do primeiro gol do Flamengo. O lance é
exatamente igual (veja na imagem) ao que causou tanta polêmica na 30ª rodada do
Brasileirão e que fez o Fluminense ir perder tempo no STJD. Os erros de
arbitragem têm sido tão constantes, tão vergonhosos e tão determinantes para os
resultados das partidas que parece que um time para garantir mesmo a vitória
por um gol de diferença precisa ter um lastro grande, ou seja, futebol e boa
pontaria para ganhar com uns três ou quatro de vantagem.
Claro que essas
injustiças não são exclusividade do futebol. Podem acontecer em outros
esportes. Erros de arbitragem podem ocorrer até com vídeo-tape, pois vai que a
tal interpretação seja duvidosa. As decisões por arbitragem em artes marciais
(boxe e judô, por exemplo) não são raras. O problema é que no futebol – e você
com certeza já ouviu dizer isto: – os erros fazem parte do jogo. Quando o erro
é a favor do meu time, eu ignoro e capitalizo. Lembro não sei quando que isso
também ocorreu ao revés. Quando é contra, aí a gente faz um barulhão. Em geral,
é assim. No fim, é engolir em seco. Nem digo ao Corinthians que peça o advogado
do Fluminense emprestado, porque é certo que não vai dar em nada.
De injustiça em
injustiça, o brasileiro vai levando. É na política, é na polícia, é nas
escolas, é nas igrejas, é nas ruas… e vai tirando a mão da minha bandeira… pois
o futebol é uma caixinha de… (completa aí).
Ps: Ah, você deve
estar pensando: com mais pênaltis a favor é impossível perder uma partida. Pois
perde. Em 1999, a Argentina teve três pênaltis a seu favor e perdeu para a
Colômbia por três a zero. Martin Palermo perdeu os três pênaltis.
Marabá, 24 de outubro
de 2016.
*
Professor universitário de literatura (UFPA-Bragança). Autor do romance “Em
Despropósito (mixórdia)”, do livro de poemas “Canto Peregrino a Jerusalém
celeste”, ambos pela Editora LiteraCidade. Atualmente cursa o doutorado em
Literatura (THL-UNICAMP) e é Assistente Editorial (freelancer).
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