Louvor à
fidelidade
O maior prêmio que um jornalista, ao
cabo de sua carreira, pode aspirar, quando tem consciência de haver realizado
um trabalho honesto, competente e construtivo, fugindo da tentação do exagero,
do sensacionalismo e da exploração barata das fraquezas alheias apenas por uma
forte manchete que aumente a venda de jornais ou por uma boa
"tirada", mesmo que venha a ferir a honra ou destruir a reputação de
alguém, é a fidelidade manifestada pelos seus leitores. E sequer importa a
quantidade deles, desde que sinceros, atentos e, sobretudo, críticos.
Não é uma polpuda conta bancária que
importa a quem faz do jornalismo missão de vida e não mera profissão. Nem a
prestação de serviços aos maiores grupos jornalísticos do País, ou quiçá do
Exterior, ocupando pomposos cargos de chefia e ostentando o tão almejado
"poder", invariavelmente transitório e sumamente enganador. É
possível realizar um trabalho de primeiríssima linha também na chamada
"imprensa nanica", nos jornais de bairros, de empresas ou de
sindicatos, desde que se tenha talento, criatividade, cultura e, sobretudo,
bons propósitos, e conquistar, dessa forma, cativos e fiéis leitores.
Essa desejada fidelidade, todavia, não
se obtém com dois, quatro, dez ou cem textos, por mais excelentes e especiais
que sejam, mesmo que beirem à perfeição. É questão de tempo, paciência e
aplicação. É conseguida, somente, com
grandeza de alma, com espírito altruísta e
compreensivo, com genuína bondade e com profundo e sincero amor pelos
semelhantes. E, claro, com anos e mais anos de trabalho constante, persistente,
responsável e dedicado.
O tribuno e filósofo romano Cícero
escreveu a esse respeito: "Haverá alguma coisa mais doce do que ter alguém
com quem possas falar de todas as tuas coisas, como se falasses contigo
mesmo?". No meu caso, como não sou orador, e nem dado a fazer confidências
pessoais, o texto foi, é e será, enquanto eu viver, meu grande e sublime
instrumento de comunicação com os semelhantes.
Ao longo de uma carreira acidentada,
caracterizada por altos e baixos, submetido ao julgamento diário de chefes
raramente complacentes e compreensivos (na maioria das vezes, severos além da
conta, com o único objetivo de imporem uma autoridade que sequer possuíam,
posto que imposta pela força e não pela ascendência moral ou intelectual),
tive, como contrapartida, um raro privilégio, buscado pela maioria, senão pela
totalidade dos jornalistas, e conseguida por pouquíssimos: a credibilidade
junto aos leitores. Fui prestigiado com a aceitação crítica das minhas idéias,
que muitas vezes mereceram, é verdade, reparos e restrições, mas cuja
honestidade e sinceridade jamais foram questionadas por ninguém, nem pelos meus
mais ferrenhos adversários ou esquivos rivais. E consegui conquistar,
sobretudo, fidelidade.
Refiro-me, especificamente, ao que
chamo carinhosamente de "meu público", que são aqueles que me vêm
acompanhando, assiduamente, nestes tantos anos em que tenho o privilégio e a
honra de ocupar vários espaços nobres nos meios de comunicação. Nestes quase cinqüenta anos em que pude manifestar
minhas alegrias, tristezas, idiossincrasias e indignações, sempre contei com
pessoas amigas, muitas (a maioria) sem nunca me terem visto uma única vez
sequer, me conhecido pessoalmente ou falado, em qualquer ocasião, comigo, que
me elogiaram, criticaram, ensinaram, aprenderam e me manifestaram, senão de
viva voz, pelo menos por cartas e, sobretudo por e-mails, sua generosa e
compreensiva apreciação do meu trabalho. E isso não há dinheiro, não há poder e
não há prestígio que paguem!
Nunca
tive a pretensão de ser o dono da verdade (ninguém é) ou de buscar a fama fácil
e enganadora, tendo o jornalismo por instrumento. O que sempre pretendi, e pelo
retorno obtido penso haver conseguido, foi travar um bate-papo descontraído,
informal e sincero, sequer escondendo minhas carências ou fraquezas, mas,
sobretudo, construtivo, com os meus queridos e preciosos leitores. Mesmo
havendo conquistado, nos dois jornais diários de Campinas, prestígio e
respeitabilidade como comentarista político (em especial de política
internacional, função que exerci, diariamente, por onze anos consecutivos),
optei, há já bastante tempo, por outro gênero, mais ameno, porém não menos
profundo: a crônica.
E agi assim não por menosprezar a
cultura, a inteligência ou o grau de informação dos leitores. Pelo contrário.
Foi por respeito. Foi por gratidão. Foi por estima. Afinal, ao contrário do que
a maioria esmagadora dos jornalistas tenta passar, nas entrelinhas dos seus
textos, a realidade, embora dura, horrenda e cruel, não se constitui, apenas,
de desgraças, lamúrias, ácidas críticas, crimes hediondos, profundas degradações e asquerosa corrupção.
Há que se ressaltar, sempre que possível e oportuno, o lado bom, nobre e
construtivo do ser humano, até para que se possa despertar nas pessoas o desejo
de emulação, de imitação e de multiplicação dos valores marcantes e
indestrutíveis do homem.
Tive, tenho e sempre terei por lema,
nos próximos anos (se Deus permitir-me essa ventura de contar com muitos) de contato
com meus fiéis e queridos leitores, uma sábia e inspirada constatação do
Monsenhor Augusto Dalvit, que diz: "Comunicar não é apenas exprimir idéias
ou manifestar sentimentos. No seu mais profundo significado, é doação de si mesmo,
por amor". Muito obrigado a você, que me acompanha há tanto tempo, pelo
prestígio e pela irrestrita fidelidade manifestados nestes anos todos de
profícua troca de energia! A você, meu leal e incógnito companheiro, me dôo, a cada texto que escrevo, com
profundo e infinito amor!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Quem escreve nem sabe bem porque faz isso, mas é uma espécie de obrigação sem a qual a vida perde muito do seu sentido. Como leitora frequente, digo presente. Eu estou aqui.
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