Domínio da razão
O acúmulo de conhecimentos e
informações, ou seja, o mero saber, não implica, necessariamente, em sabedoria. Esta
caracteriza-se, entre outras coisas, pelo uso que fazemos desse acervo de
dados, acumulado desde os primórdios da civilização, e que é o patrimônio comum
de toda a humanidade. O sábio é o que multiplica esse conhecimento e o utiliza
de forma a enriquecer a espécie.
Conheço pessoas que sequer sabem ler,
mas que são fontes inesgotáveis de bom-senso e de sabedoria. Em contrapartida,
sei de inúmeros doutores, com uma infinidade de diplomas, que são arrogantes e
obtusos e não enxergam um palmo à frente do nariz no que diz respeito à ciência
do bem-viver.
As boas idéias, aquelas que são
embriões das grandes obras e que, não raro, até revolucionam o mundo, surgem de
repente, quando menos esperamos, como que por acaso. Devemos estar atentos, e,
sobretudo, preparados, para não deixar escapar essas preciosas oportunidades,
que raramente voltam a aparecer.
Alguns chamam esses momentos especiais
de “inspirações”, que de nada valem, frise-se, se não vierem acompanhados de
ações, de esforços, de atos concretos e competentes. Ou seja, de
“transpiração”. Somos condicionados, desde crianças, a sermos competitivos,
como se a vida fosse um jogo. Não é!
Não raro, testamos nossos limites e
tentamos ir além deles, para superar supostos competidores. Colocamos à nossa
frente objetivos que, quase sempre, são inalcançáveis, e nos frustramos quando
não os atingimos. Queremos ser mais, ter mais, fazer mais do que os outros,
quando a vida não é isso. Precisamos é conhecer e desenvolver nossas
capacidades e viver, sem nos preocuparmos se o vizinho conquistou ou não mais
coisas do que nós.
Todos temos, em determinados momentos
de nossas vidas, com intensidades variáveis, “lampejos” de sabedoria. Contudo,
por negligência, falta de autoconfiança e/ou até mesmo distração, perdemos a
oportunidade de nos tornarmos verdadeiramente sábios e de compartilharmos essa
desejável condição com o mundo.
Não raro achamos que o conhecimento das
coisas e das pessoas vem sempre completo, acabado, prontinho para ser
usufruído. Engano! Compete-nos expandi-los, aperfeiçoá-los, burilá-los,
dar-lhes a nossa indispensável contribuição, com a marca da nossa personalidade.
Esse detalhamento é o que nos compete fazer, mediante muito estudo, meditação,
observação e autodisciplina. O resultado desse esforço, porém, é mais do que
compensador.
Há uma lenda, muito antiga, que diz que
os primeiros seres humanos tinham asas, a exemplo dos anjos, dos quais seriam
uma subespécie. Podiam voar livremente, no céu azul, como os pássaros,
cortando, ágeis e graciosos, o espaço. Todavia, ao se corromperem, sofreram
profunda metamorfose e se transformaram nos pobres e rústicos bípedes, que hoje
são.
No entanto, contamos, ainda, com um
instrumento muito mais ágil e perfeito do que as asas primitivas que,
supostamente, perdemos. É ele que nos
permite nos transportar, em frações de infinitésimos de segundos, para outros
mundos, constelações e galáxias, aos confins do universo, onde instrumento
humano algum jamais alcançou. E qual é esse miraculoso meio? Claro, é a
imaginação!
Temos o poder, através dela, de criar
novos mundos, para nós e para os que nos cercam, na impossibilidade de modificar
o que aí está. Mas, para que isso valha a pena, é indispensável que sejamos (e
que nos sintamos) felizes. Caso contrário, só conseguiremos criar “infernos” de
ressentimentos, desesperança, angústias e dores (reais e/ou imaginárias).
A principal característica de quem é
dotado de verdadeira grandeza não é, como muitos (erroneamente) pensam, a
arrogância, a prepotência e a soberba. É a humildade. É o conhecimento das
próprias limitações. É a correta avaliação do real alcance de suas capacidades,
sem sobreestimá-las e nem subestimá-las. É o profundo e irrestrito respeito
pelos carentes, pelos fracos e pelos néscios, consciente que se tem muito o que
aprender com eles. É respeitar idéias e opiniões alheias, sem abrir mão das
próprias convicções. É nunca se achar “iluminado”, mesmo que o seja. É
compartilhar experiências e conhecimentos com todos os que estiverem dispostos
a essa partilha. Ser “grande”, portanto, significa ser íntegro, ser solidário
e, sobretudo, saber respeitar todo e qualquer semelhante, sem preconceitos e
discriminações.
Entendemos o conceito de “civilização”
a partir de pressupostos equivocados. Consideramos “civilizados” os que têm
acesso a uma boa moradia (com toda a parafernália que a vida moderna
proporciona), a um carro potente e de preferência do ano, a uma boa
universidade, às informações fartas e múltiplas etc.
Mesmo que não digamos, somos tentados a
achar que quem não conta com essas facilidades é bárbaro, inculto e vive na
“idade da pedra lascada”. Mas os verdadeiros princípios de civilização não
estão ligados a bens e/ou facilidades materiais. São o respeito irrestrito ao
próximo, a solidariedade, a justiça e a bondade, entre outras virtudes.
Não foi sem razão, pois, que o escultor
francês Auguste Rodin, criador da célebre escultura “O Pensador”, constatou: “A
civilização não é, em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha
lava”. Pelo menos esta, que aí está, é (infelizmente) apenas isso e nada mais.
Nosso grande desafio é o de mudar esse simulacro de civilização. Que tal
tentar? Quem se habilita?
Boa leitura!
O Editor.
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