De volta para o passado
* Por
Clóvis Campêlo
Não tenho pretensões
de ser nenhum novo Dom Casmurro. A minha mulher não se chama Capitolina. E nem,
ao menos, tenho algum amigo chamado Esequiel. Nem mesmo ando mais de trem. Na
cidade moderna em que vivo, esse foi substituído pelo metrô. Mas, nem de metrô
eu ando. Tenho meu próprio automóvel, conseguido pela ascensão da classe média
nos últimos governos populistas. Vivo, portanto, a solidão coletiva e diária de
me locomover escutando alguma rádio que toque música popular brasileira ou o
bom rock'n'roll. Poemas, só escuto os de Carlos Drummond de Andrade, gravados
em um compact disc que me foi presenteado por um amigo de longas datas. Meto-o
no equipamento de som do carro, e escuto sempre o poeta mineiro com sua voz
aparentemente frágil e cansada. Aliás, cansadíssima!
Mas, assim como o
famoso personagem machadiano, surgiu-me, na etapa final da vida, a necessidade
de reconstituir, ao menos fisicamente, um cenário que me fora adequado no
início. O desenho, fazia muito tempo, estava gravado na minha cabeça teimosa.
Aliás, teimosíssima (como podem reparar, também curto os superlativos!).
Do portão que vinha da
rua até o pequeno terraço de entrada, havia uma curta calçada. Do terraço,
alcançava-se a porta da sala, em duas abas e ao lado de uma janela, também com
duas abas, que se abriam para o terraço. Os quartos eram em número de três, do
mesmo lado da casa. Os dois últimos tinham as suas janelas voltadas para o
oitão lateral. Era lá que o sol nascia. O primeiro, porém, abria a janela para
o poente e era estucado, o que o tornava insuportavelmente quente à noite
quando as portas da casa se fechavam para o sono dos justos e dos injustos
também. Nesse, ninguém queria se acomodar. Era para lá que fugíamos, eu e meu
irmão, nas noites quentes de verão para desfrutar do corpo de Creusa, a
doméstica que nos iniciara sexualmente. Meus pais nunca desconfiaram de nada.
Tudo confabulava ao nosso favor naqueles tempos ideais.
Entre a sala e a
cozinha, havia uma pequena passagem que também dava acesso ao banheiro único da
casa. Por seu lado a cozinha abria-se em um terraço interno, mandado construir
depois por meu pai, onde ficava a lavanderia e os tonéis com a água que chegava
à noite nas torneiras mais baixas. Ainda não haviam construído a Barragem de
Tapacurá e os banhos de chuveiro eram um sonho quase inalcançável.
O quintal era um caso
especial. Na parte da frente, havia um jardim com canteiros em forma de
losangos, onde plantávamos rosas de todas as cores. Na parte lateral estavam as
fruteiras, onde canários, curiós e papa-capins se abrigavam e proliferavam
incansáveis. Não havia verão que desse conta daquela capacidade de propagação.
Era a preservação das espécies.
Na parte traseira do
quintal, meu pai plantara bananeiras de várias espécies e alguns pés de mamão
caiano. Ali, era o lugar dos sanhaçus, guriatãs e concrizes, passarinhos de
molhado, como se dizia, comedores de frutas e de cantos maviosos.
Recompondo a casa
antiga do Pina, termino assim essa crônica. Se fui descritivo, quando me queria
irônico e memorialista, talvez até mesmo introspectivo, culpa a minha
incapacidade literária de copiar o grande mestre, mesmo que em um pequeno e
insignificante texto.
Talvez, como ele,
termine me convencendo que ria bem melhor tentar escrever sobre as histórias
dos antigos subúrbios.
Recife, outubro 2016
* Poeta, jornalista e radialista.
Nenhum comentário:
Postar um comentário