A poesia não morrerá jamais
“A poesia está morrendo”. Ouvi uma infinidade de vezes esta
tola e inverídica afirmação, que me irrita profundamente sempre que a ouço. E
ouço isso com uma freqüência absurda, entre tantas tolices que são ditas por aí,
por pessoas que até se consideram sábias, no mínimo eruditas. É verdade que é
melhor ouvir essa baboseira toda do que ser surdo. Ganhasse um real a cada vez
que já ouvi essa bobagem, dita, muitas vezes com ares professorais, e estaria,
sem qualquer exagero, multimilionário. Poetas magníficos, de todos os países e
épocas sim morreram. E morrem a todo o instante. É a lei da vida. Afinal, não
há nada mais democrático e certo do que a morte. Ninguém, absolutamente ninguém
escapa dessa fatalidade. O que está morrendo não é a poesia, é um modelo fracassado
de civilização. É um planeta singular e acolhedor que nós, humanos, estamos matando,
com a nossa estupidez. São sonhos e mais sonhos, até fáceis de concretizar, que
viram pó em conseqüência do nosso medo (ou preguiça. ou seja lá o que for) de
lutar por eles.
Desanimamos com espantosa facilidade e, invariavelmente,
culpamos terceiros por nossa inércia, raiz de nossos fracassos. Possivelmente,
os que “decretam” com tamanha arrogância a morte da poesia queiram se referir
ao fato dos poetas terem cada vez menos espaço no mercado editorial. Nisso sim
estão certos. Ou quase. Onde, contudo, a novidade? Isso sempre foi assim.
Aliás, em passado, não muito distante, as coisas eram muito piores. Os poetas
recorriam aos jornais, para mostrar suas composições. Machado de Assis chegou a
ironizar, em determinada crônica, o implacável assédio feito por eles às
redações dos principais periódicos do seu tempo. E não havia à disposição
desses autores os blogs, recurso atualmente bastante explorado por quem lida
com poesia. Aliás, a existência da internet não passava pela cabeça nem do mais
exagerado, do mais delirante, do mais crédulo (e louco?) dos sonhadores.
Engana-se o leitor que acha que os livros de poetas
consagrados, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana,
Vinícius de Moraes etc.etc.etc. tinham os originais disputados a tapa pelos
editores. Nada disso! Eles tinham que ralar, e muito para conseguir espaço. Nem
sempre e nem todos conseguiam. E várias das publicações deles, hoje clássicos
da literatura brasileira, levavam anos para esgotar reles edição de um mil
exemplares. Um amigo meu, que teve oportunidade de conviver com Drummond, contou-me
que o poeta de Itabira se queixou com ele, em certa ocasião, que um de seus
livros (não lembro qual) vendeu não mais que cinqüenta exemplares no primeiro
ano de lançamento. Hoje... é disputado a peso de ouro pelos leitores. Mas na
ocasião do lançamento, e nos cinco anos posteriores (tempo que levou para
esgotar uma edição) ameaçava se tornar um baita encalhe editorial. E estou me
referindo a Drummond. Imaginem o que ocorria (e ainda ocorre) com poetas
digamos “menores”, não tão conhecidos (e nem me refiro aos desconhecidos)!!!
Volta e meia sou cobrado, inclusive publicamente, para
lançar um livro meu de poesias (tenho três prontinhos, à disposição de quem
queira encarar essa aventura, esse risco comercial). Informo, aos que me cobram,
que tentei fazer isso e em mais de uma oportunidade. Em todas... me frustrei.
Literalmente, “bateram-me com a porta na cara”. Até que, no fim das contas,
desanimei. E olhem que sou teimoso pra chuchu, desses sujeitos tinhosos que
esgotam todas as possibilidades, por remotas que sejam. Ocorre que não tenho
todo o tempo do mundo ao meu dispor para correr atrás. Ciente que não sou
nenhum Drummond, ou Quintana, ou Vinícius, ou Bandeira, para citar apenas quatro
“monstros sagrados da poesia”, resolvi deixar de lado essa minha teimosia.
Cheguei a cogitar, até, em simplesmente destruir todos os poemas que compus e
nunca mais pensar nisso.
Em julho deste ano, um amigo do Facebbok sugeriu-me que postasse
minha produção nessa rede social. Relutei. Afinal, são poemas bem antigos,
alguns com mais de cinqüenta anos que, possivelmente, seriam ignorados pelos
leitores da presente geração. Contudo, ante a insistência dessa pessoa, que
prefiro não identificar, acedi, posto que com relutância. Desde então, venho
postando, diariamente, esses poemas, com aceitação até razoável. É verdade que
as “curtidas” são poucas e os comentários mais raros ainda. Já cogitei desistir
de vez dessa exposição. Mas daí me lembrei que também “curto” pouca coisa do
que leio, embora aprecie tantos e tantos textos, que leio com atenção e deleite.
E deixo de fazer isso não por arrogância (como muitos chegaram a me acusar),
mas por pura “distração”. Suponho que o mesmo ocorra com muitos, que elogiam
meus poemas por vários veículos, sobretudo por e-mails e outros meios
tradicionais, mas que nunca “curtiram” nenhum deles.
Essa queixa da falta de comentários às obras divulgadas e a
impressão (que se transforma em certeza, porém enganadora) não é nova e muito
menos exclusivamente minha. Querem um exemplo? Pablo Neruda, hoje praticamente unanimidade
entre os amantes da poesia, ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura, fez, antes
de morrer, este pungente desabafo: “Fui o mais abandonado dos poetas e minha
poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. Mas sempre tive confiança no homem.
Não perdi jamais a esperança”. Estava errado, claro, em ser considerar absolutamente
abandonado, o que nunca foi, como eu
espero estar equivocado em relação à aceitação da minha produção poética.
Quanto à propalada “morte da poesia” tenho uma infinidade de argumentos para
provar o contrário, que me proponho a expor oportunamente. Essa pioneira da comunicação
está longe, muito distante, de estar moribunda, à beira da extinção. Até
porque, como afirmou o diretor cinematográfico norte-americano Paul Schrader, “a
arte é sempre maior que a vida”. Sobrevive a quem a pratica. Por isso, tenho
absoluta convicção que a poesia não morrerá jamais!!!
Boa leitura!
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Morre não, ainda que a Terra se extinga, o verso permanecerá reverberando pelos confins do universo.
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