Nosso lado Wong
* Por Pedro J. Bondaczuk
O homem – embora busque, no correr de sua curta
vida, estabelecer uma diferenciação em relação aos semelhantes, para marcar sua
presença como ímpar e para impor seu "eu" – não tem, a rigor,
individualidade. Pode parecer paradoxal, quando se sabe que nenhum indivíduo é
exatamente igual a outro, nem mesmo os chamados gêmeos univitelinos. As
diferenças, contudo, são incidentais. Estão em detalhes: físicos, psicológicos
ou morais, entre outros. Cada pessoa é uma reprodução, em termos de raciocínio,
de percepção do mundo e de reação a estímulos, dos ancestrais. Agregada à nossa
memória individual temos a coletiva. Possuímos desejos, sensações e emoções que
milhares, quiçá milhões já tiveram algum dia, em algum lugar.
Todos temos, dentro de nós, convivendo (nem sempre
harmoniosamente) múltiplas personalidades, cada qual diferente da auto-imagem
que procuramos passar ao próximo no convívio social. Há nas artes, e mais
especificamente em literatura, o caso do escritor Fernando Pessoa, que levou ao
extremo essa multiplicidade, com seus heterônimos. Propôs-se a ser
"vários", com estilos, temas e até nomes diferentes, ao ponto de no
início da carreira ser confundido com muitas pessoas. Não se concebia que uma
obra tão heterogênea saísse de uma única cabeça. Mas saiu.
Mário Quintana, no livro "Sapato florido",
aborda esse tema de forma saborosa em um texto intitulado "O estranho caso
de mister Wong". Escreve: "Além do controlado Dr. Jekyll e do
desrrecalcado Mister Hyde (em referência ao personagem de dupla personalidade
de Robert Louis Stevenson em "O médico e o monstro"), há também um
chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por
exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll,
muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca o olho e a alma no
decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a
contar carecas na platéia...Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo,
agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!"
Sequer é necessária a exortação. Todos damos espaço,
em vários momentos de cada dia, ao inconseqüente chinês que trazemos dentro de
nós, sem que nos apercebamos ou admitamos. A maior parte do nosso lazer no que
consiste? E as coleções, seja lá do que for (caixas de fósforo, maços de
cigarros vazios, selos, latas de cerveja etc.), não significam o nosso Mister
Wong em ação? Em um engarrafamento de trânsito, rotina em qualquer grande
cidade, enquanto o Dr. Jekyll procura estudar caminhos alternativos, e Mister
Hyde tem ímpetos de passar por cima do "flanelinha" que lhe lambuza o
pára-brisas, o distraído chinês conta as placas dos carros vindos de outras
localidades. Não é uma ação boa e nem ruim. É inócua. É gratuita. É
desnecessária. É inconseqüente.
Mesmo que não nos apercebamos, é esse o nosso lado
mais apreciado pelos que nos cercam, que inconscientemente se identificam como
também sendo os seus. No entanto, por vaidade, presunção ou tolice, procuramos
escondê-lo ou pelo menos disfarçá-lo ou inibi-lo. Somos, sobretudo, ambíguos.
No fundo sabemos que nossa aparente seriedade nos confere um aspecto ridículo.
No entanto, teimamos em conservá-la como fachada. Gilberto de Mello Kujawski,
em um artigo publicado no "Caderno de Sábado" do "Jornal da
Tarde", escreveu a respeito: "A condição humana se edifica sob o
signo da ambigüidade. O homem não tem identidade. Mas seria caso de indagar se
a ambigüidade não representa no homem o que ele tem de divino. Porque os
deuses, tampouco, têm identidade".
Somos pessoas do nosso tempo e de nossa comunidade.
Podemos adquirir até relativa notoriedade, não importa por qual razão, em nosso
âmbito restrito. No plano mundial, pouquíssimos conseguem. Destes, menos ainda
logram sobreviver a, digamos, uma década após sua morte. Aparência não conta,
já que muda de um ano para o outro, quando não diariamente. Nome? Menos ainda.
Não serve para caracterizar uma identidade. Somos incapazes de saber, entre
nossos parentes próximos (e mais ainda remotos), quantos indivíduos se chamaram
exatamente como nós. E até entre os que não possuem o mínimo parentesco. No
Brasil há uma infinidade de pessoas com o nome José da Silva, entre outros. Na
impossibilidade de estabelecer uma genuína identidade, que tal cultivarmos
nosso lado moleque, nem bom e nem mau, mas só gratuito: o nosso Mister Wong?!
* Jornalista,
radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual
Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do
Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova
utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Nos momentos de espera ou de stresse, treino não pensar em nada. Costumam me acalmar.
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