Na noite crescida, a coruja (4)
* Por
Marco Albertim
Em pé, no pardo-escuro sob o telhado da casa
de farinha, os homens não tiveram como evitar a cisma nos olhos dos três
capatazes sentados no batente estreito da casa. Afora o relho nos pulsos, os
três não precisaram erguer para trás a aba estreita do chapéu de vaqueiro, para
ajuizar a reação dos camponeses com a repentina presença deles. A mulher
sentada ao lado do homem que a trouxera, penteara os cabelos; compusera-se para
dar conta da graça mantida a custo com pó de arroz, e ainda gozando da mercê do
capataz. Joaquim e Tonico, por serem os
mais moços, ficaram do lado, recuados. O mais velho, com a mansidão que
desentranhara os segredos da velha com os netos, estreitou os olhos e coçou a
cabeça erguendo o chapéu de feltro. Não pareceu inconveniente inquirir os
motivos das visitas. As barracas assentadas no vale, àquela altura no escuro
quase inteiro da tarde finda, aguçavam-lhes o sentido de donos da terra.
Mas...
- Vocês vão ter que sair daqui - disse-lhes o
troncudo, por certo o chefe.
- Qual é sua graça? - devolveu com mansidão na voz, o mais velho dos ocupantes,
já desatento ao modo como deixara o chapéu na cabeça.
- Jesus.
- O meu é Valdevino. O senhor é homem do campo
como eu sou. Sabe que nesse pedaço de
terra a lavoura cresce sem ajuda de adubo. Não tem nada plantado nela a não ser
o que a natureza trouxe com o rebolo do vento. Nós tamos aqui pra plantar e
colher o que a terra não recusa.
- Não pode.
- Não pode é a gente ficar com a mão calosa e
proibida de lavrar a terra. O senhor é o dono do Engenho Bento Velho?
- Não. Trabalho para o dono.
Os outros dois
assentiram com a cabeça. Nenhum dos três cruzara as pernas ao sentar. A tensão
pressentida predispusera-os a apoiar o torso no assento do tronco de coqueiro,
mas com os joelhos curvados prontos para
o finca-pé, em caso de atracação. A mulher, junto de Jesus, perdera o
acanhamento; cruzara as pernas e olhava os interlocutores do parelho sem
desviar os olhos inchados de curiosidade.
- Nós não vamos sair
daqui, Seu Jesus. Se chover mais, melhor ainda. Os brotos de arroz vão dançar com os pingos da água.
Daqui de cima, vamos espreitar com a trempa de fogo acesa.
- Tô vendo que o senhor não é fácil de
conversar. Mas eu tenho um patrão. Faço o que ele manda.
- O senhor tem obrigação com o patrão. A terra
é generosa com quem dela cuida.
A noite cobrira toda a
fundura do vale. Os homens acenderam os gravetos secos na trempa. O café ferveu
no bule de ágata. O odor insinuou-se no vale, misturando-se ao cheiro frio,
brejoso, dos cogumelos de copa branca, marrom, na beira do riacho. A chirriada
dos grilos, aqui e ali, o rouquejo de um sapo e a terra recendendo a vísceras à
mostra de bichos mortos, adensavam ainda mais a tensão entre os homens. Nada
lhes distraiu nos urdumes.
Valdevino serviu-se de
café e ofereceu aos recém-chegados. A
mulher levantou-se e trouxe da cozinha da casa, três canecos de ágata já
com café coado pela velha que se
mantinha na cozinha, junto com os netos. Longo silêncio se abateu no ar meio
pestilento da noite. Nas rodovias ao lado e em frente, o trânsito de veículos
tornou-se ralo. Um candeeiro com lume mortiço foi aceso na bandeja do forno da
casa de farinha.
Súbito, o frio da noite
crescida foi riscado pelo crujido rascante de uma coruja. Na cozinha, a velha
teve um estremeção. Logo apareceu na porta da casa, olhou para cima e viu a
coruja pousada na primeira telha da cumeeira.
- Veio me chamar,
maldiçoada! - a voz da velha cresceu, presciente.
A coruja voou para
longe. A conferência muda entre capatazes e camponeses foi agourada. A velha
entrou na casa com sua mortalha, seguida pela filha. Os capatazes montaram nos
cavalos. Os camponeses, arranchados no chão batido da casa de farinha,
convieram que as cartas do baralho lhes trariam outra fortuna.
*Jornalista e escritor.
Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife.
Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do
concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em
concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite,
integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”.
Tem três livros de contos e um romance.
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