A epopéia cinematográfica de um paraibano
* Por
Vitor Orlando Gagliardo
José Francisco está
nervoso. Já não tem mais unhas para roer. Seu coração bate mais forte a cada
segundo.
- Será que esse ônibus
não vai sair?
O dia mal começou e
José já acordou com o coração acelerado.
- Hoje é o grande dia!
Após 17 anos, ele
conseguiu juntar dinheiro, pela primeira vez tirou férias e decidiu voltar à sua
terra natal: Patos, interior da Paraíba. A distância entre João Pessoa e Patos
é de 301 km .
José chegou ao Rio de
Janeiro aos 18 anos na caçamba de um caminhão que carregava bananas. Comeu
tantas na viagem que nunca mais chegou perto de uma. Foram mais ou menos 43
horas se alimentando apenas dessa fruta.
Assim como tantos
outros que chegam diariamente ao Rio, ele veio tentar uma vida melhor.
Conseguiu rapidamente um emprego de faxineiro em um condomínio na Tijuca, zona
norte da cidade. Com três anos foi promovido a porteiro.
Era diferente dos
demais porteiros da rua. Enquanto todos se reuniam nos finais de semana para a
pelada no Aterro do Flamengo, no botequim do Seu Manoel ou uma ida a Vila
Mimosa, ele preferia ficar em casa assistindo televisão, em especial, aos
filmes ou ir ao cinema.
Neste ponto deu sorte.
Foi em uma sala de cinema, em uma das inúmeras sessões no Odeon, que conheceu
Rosa. Foi amor à primeira vista.
Em menos de um ano já
moravam juntos e com dois tiveram o primeiro filho, chamado Alfredo.
A escolha do nome não
foi à toa. José elegera como seu filme predileto o clássico italiano Cinema
Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Achava a música de Ennio Morricone belíssima.
Já tinha visto esse filme mais de dez vezes. Sempre chorava na cena do incêndio
no cinema.
Por esses gostos
considerados extravagantes era motivo, por vezes, de chacota dos amigos. Não gostava
de futebol e de forró e muito menos dos filmes do Arnold Schwarzenegger. Esse,
então, demorou mais de um mês para conseguir falar errado o nome.
Mas agora tudo parecia
passado. José estava entretido com a viagem para Patos. Estava com saudade de
sua mãe, D. Angélica e das irmãs, Clotilde e Elisa. Sabia que era tio, mas
nunca tinha visto os sobrinhos.
Rosa não pôde ir e
ficou em casa com Alfredo.
José levava em sua
mala, além de algumas roupas, muitos dvd’s. Em uma conversa por telefone, Elisa
disse que jamais tinha ouvido falar em tal tecnologia.
Após 43 horas
intermináveis, José finalmente conseguiu chegar em Patos. Elisa estava
esperando-o. Como em toda família do interior, a recepção foi a mais calorosa
possível. Assim que chegou na casa de D. Angélica correu em direção à mãe e
deu-lhe um abraço forte e longo para recompensar os 17 anos distantes.
Um dos fatores que mais
chamaram a atenção do José foi a falta de estrutura da comunidade carente. Pelo
menos no Rio, até o mais pobre tinha pelo menos o aparelho de dvd.
Seus familiares ficaram
encantados com aquela tecnologia. Desfilando conhecimento, José começou a
programar sessões diárias no quintal de casa de sua mãe. Desde o primeiro dia,
o sucesso de público foi imediato.
Como não podia deixar
de ser, o primeiro filme da lista foi Cinema Paradiso. José passou ainda O
Carteiro e o Poeta, Forrest Gump, A Procura da Felicidade, Central do Brasil e
tantos outros.
José Francisco voltou
para casa com o ânimo renovado. Analfabeto, decidiu voltar a estudar. Seu
grande incentivador é o professor John Keating, interpretado por Robin Williams
no filme Sociedade dos Poetas Mortos. Seu grande objetivo é conseguir aprender
a pensar por si mesmo e a levar esta mensagem ao maior número de pessoas.
*
Jornalista
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