Caldeirão cultural na “rocinha iluminada”
* Por
Mara Narciso
Foi-se o tempo em que gente enchia a boca para
se vangloriar de que a cidade tinha um monte de moradores. Bom seria se este
número parasse de crescer e que tivéssemos tempo para resolver nossos
problemas. No último censo, o de 2010, Montes Claros tinha 361 mil habitantes e
neste ano passamos a considerar que devemos ter uns 400 mil. As dificuldades
para dar emprego, comida, água, esgoto, retirar lixo, ter médico, exames e
remédio, escola e rua para circular esse tanto de gente, se ampliaram proporcionalmente
aos que nasceram e aos que chegaram aqui. Tempos atrás, uma senhora de Belo
Horizonte se referiu a nossa cidade como uma “rocinha iluminada”, mal
iluminada, eu completaria. Desde então, mudamos muito e os problemas cresceram
com a cidade.
Nem sempre se perde com
o aumento da população. Há alguns ganhos com a chegada de novos costumes.
Muitos são os acréscimos de bem viver. Há quem se lembre de quando começou o
hábito de se comer saladas de legumes na cidade, e não é coisa muito antiga,
umas quatro gerações, talvez. Foi-nos trazida por um estrangeiro da Bulgária.
Então, que sejam bem-vindos os bons forasteiros.
Por ser fim de mês, era
de se esperar que o nosso micro shopping, já criticado por chegantes, o Montes
Claros Shopping, estivesse vazio. Não estava. Lojas desertas e corredores
cheios. Gente passeando, tomando sorvete, olhando as vitrines, diversão
disponível para todos. De repente uma mudança de ritmo no corredor. Uma mulher
que faz o tipo “grande e gostosa” estava passando, ou melhor, desfilando com
seu vestido curto e colado e seus atributos exageradamente avantajados pelo
bisturi, e atraiu olhares e desejos. Os seios eram da dimensão de duas bolas de
basquete, e a retaguarda, outra enormidade. Não era bela, nem estava bem vestida,
mas isso pouco importava. Alguns homens e umas poucas mulheres pararam para
vê-la passar em seu desfile vespertino de sábado, em meio ao notável
burburinho. Acabada a passagem, tudo de acalmou.
As máquinas são a
sensação, mas pessoas, algumas pessoas, ainda são atrações em lugares nos quais
gente procura ser vista e ver. Tinha muita gente, de todo tipo físico e social,
mas, o que é normal ninguém ou apenas uns poucos olham. Havia algumas
liquidações, mas a maioria das lojas mostrava a coleção primavera-verão. Lá
fora, o calor de quase todos os dias, e dentro dos estabelecimentos, frio de
cair neve devido ao ar-condicionado a toda, o que é previsível por aqui.
Circula pra lá, circula
pra cá, e logo uma parada para tomar café. Combinação de café expresso com um
mini brigadeiro e água mineral com gás.
De repente, outra onda de movimentação, inquietude, mais agitação. Lá
vem outra mulher diferente do habitual. Chega pelo pátio externo. Está só,
coberta de preto dos pés à cabeça, onde ostenta talvez um niqab, véu longo de
cetim com uma máscara solta que recobre a face: imagem incomum por estas
plagas. De costas e discreta, não me virei para olhá-la, mas, pela confusão
instalada, vi que não foi uma passagem vã. Pensei que ela estaria chamando mais
atenção do que se desfilasse por ali uma brasileira em trajes de banho. Nítido
exagero dos meus pensamentos. Alguém insatisfeito com a invasão alienígena
mencionou que no Brasil é proibido andar mascarado, pois poderá ser considerado
um ativista black-bloc, e ser abordado pela polícia. Falou baixinho, ao pé do
ouvido, sem agressividade.
Nas duas situações,
mulher exuberante e mulher coberta, houve uma atenção exaltada dos presentes,
com amplo exagero dado pela diferença das que passavam, em relação às demais. A
mulher contida e escondida chamou mais a atenção do que a voluptuosa e exposta.
Não se ouviu gracinhas e nem desrespeito em nenhum dos casos, porém, o que é
diferente é notado como diferente mesmo. Estamos globalizados, conectados e
informados, mas a nossa cidade tem muito a evoluir para achar comuns as
diversas manifestações culturais. Inclusive as do vestir. Isso vale para todos
nós.
*Médica endocrinologista,
jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto
Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Muito bom, Mara. Não só Montes Claros, mas o Brasil todo ainda tem que aprender a "mexer" esse caldeirão cultural... Abraços.
ResponderExcluirEm Montes Claros, a 420 km de Belo Horizonte, há médicos cubanos do "Mais Médicos", mesmo tendo 3 faculdades de Medicina por aqui, e muitos médicos recém-formados, sem oportunidade. Temos também trabalhadores provenientes do Haiti, pós -terremoto. Citei os estrangeiros, não como forma de discriminação, mas para mostrar que em nosso "fim-de-mundo" tem gente de muitas nacionalidades. Alguns reclamam, mas aparentemente há espaço para todos. Obrigada pelo comentário, Marcelo. Precisamos abrir em definitivo as nossas cabeças.
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