“Felizes para sempre” uma ova!
* Por
Marcelo Sguassábia
O sujeito dá vida à
gente, cria aquela história maravilhosa, diz que todos viveram felizes para
sempre, põe um ponto final e se arranca. Nunca mais volta para ver o que
aconteceu depois às suas indefesas criaturas, no mundo do faz-de-conta. Ora,
quem põe filho no mundo tem responsabilidades a honrar. Como é que pode um
autor se comprometer com a posteridade e colocar sua credibilidade em jogo,
fadando seus personagens a um destino cor-de-rosa sem dar a eles meios para
isso? Felizes para sempre, essa é boa...
Vejamos o drama do
Prático, o porquinho precavido que construiu a casa de tijolos. Como o conto de
fadas tinha que terminar logo, o suíno se viu forçado a correr com a obra e uma
semana depois a casinha tinha infiltração, três grandes rachaduras que iam do
chão ao teto e um fiscal da prefeitura todo dia batendo na porta, atormentando
o proprietário por causa do Habite-se. Tão logo tomou conhecimento do
infortúnio, o lobo voltou à casa e nem precisou soprar para que viesse abaixo.
Em dois minutos já estava com os três leitões debaixo do braço. Pôs Cícero para
engordar no chiqueiro, Heitor foi alocado nos afazeres domésticos da casa
avarandada do malvado e Prático foi obrigado a travestir-se de veado e ganhar a
vida com ofícios pouco familiares, entregando ao lobo todo o michê do dia. O
curioso é que perante a opinião publica o lobo ainda posa de benfeitor, por ter
tirado os porquinhos da indigência e dado a eles um abrigo digno. Dizem
inclusive que fundou uma ONG, chamada “Lobo Bom”, que se dedica a difundir
pelos reinos mais distantes os ideais da filantropia e da solidariedade.
Mas é preciso admitir
que sorte pior teve a Cinderela. Antes que a tinta do original da história
secasse sobre o pergaminho, começou o calvário da heroína. Horas após o
suntuoso casório, quando o príncipe foi dar um cata na moça pra fazer neném, o
salto do sapatinho de cristal esquerdo espatifou-se a caminho da cama, depois
de patinar num resto de brigadeiro jogado ao chão por um convidado mais porco que
Heitor, Prático e Cícero juntos. Além do cristal do sapato, quebrou-se também o
fêmur da delicada Cinderela.
A forçada quarentena da
moça, devido à cirurgia para colocação de 16 pinos na perna, obrigou o fogoso
príncipe a aplacar os hormônios junto a um sem número de donzelas do reino. Sem
sex-appeal aos olhos do marido, Cinderela passou a ajudar as faxineiras reais
na varrição e no enceramento do salão de baile. Hoje faz doces para fora, com a
abóbora que sobrou da carruagem. Tenta com seu advogado tornar sem efeito a
autuação da vigilância sanitária, que após análise bacteriológica julgou a
referida abóbora imprópria para consumo. Enquanto aguarda decisão judicial,
diversifica sua produção com outras qualidades de doces. Só não aceita
encomendas para brigadeiros, por motivos óbvios.
Estes são apenas dois
exemplos, dentre muitos que poderia citar, da orfandade a que nós, personagens,
estamos submetidos. Abrace, leitor amigo, a nossa causa. Não caia no conto de
fadas!
Assinado,
O Patinho Feio, que
voltou a ser feio após 14 gloriosos dias com jeitão de cisne.
*
Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Gostei muito das suas viagens às histórias infantis, assim como das suas livres alterações/interpretações. Como falei anteriormente, a minha mãe se realizou em todos os quesitos femininos, exceto no amor. Ela sempre duvidou do "felizes para sempre". Muito boa, a ponto de a gente falar: conta outra! Parabéns, Marcelo Pirajá Sguassábia!
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