Desarmonia lexical
* Por Cecília França
Vilma vira o filho pela última
vez há exatos oito meses e mal podia esperar por notícias dele, que parecia ter
esquecido o telefone de casa. Era quarta-feira, aniversário de 60 anos
dela, a professora mais condecorada e tradicional da cidade. O grito
da filha mais nova ecoou pela sala, enquanto ela batia o próprio
bolo, para noticiar que Marcinho havia escrito um e-mail. Vilma punha as
mãos no computador apenas para limpá-lo – e raramente, por medo de soltar algum
fio que não deveria –, não tinha idéia de que aquela palavra estrangeira,
gritada pela menina, significava nada mais que uma carta que podia ser lida na
tela do computador.
Já acomodada ao lado da filha –
que aguardava um tal de “download” para mostrar as fotos enviadas pelo irmão –
Vilma pôs-se a ler o que esperava ser uma carta, mas não passava de um bilhete.
No entanto, ao tentar fazê-lo, acreditou que a filha havia se enganado quanto à
autoria do e-mail, pois desconsiderava a hipótese de aquilo estar escrito em português. Disse
isso com tanta simplicidade que a filha demorou quase cinco minutos para
enxugar as lágrimas e explicar à mãe que aquela era a linguagem usada pelos
jovens para se comunicar na Internet.
Esforçou-se, gaguejando em voz
alta e estimulando outro minuto de risada histérica da filha, para entender o
que Marcinho queria dizer. mae naum
iscrevi antes pq to no maior love cuma gatinha aki. axo q nos somos almas
gemias pq temos quase sempre o msm gosto. eu e ela puts tem td a ve... axo q vo
fika ate ano que vem aki. bjooooos em vc na carol e no pai. Não pôde
conceber aquilo.
O que estava exposto na tela era
inaceitável para qualquer pessoa minimamente conhecedora – e admiradora – da
língua portuguesa. Sentiu-se agredida pela falta de cultura e amor à tradição
que contaminara seu filho e que arriscava a comunicação entre eles. Nas fotos –
que finalmente abriram, após longos minutos de “download” – Marcinho aparecia feliz, abraçado a uma moça
que ela nunca vira e não lhe aparentava ser confiável.
Instintivamente, depositou
naquela figura desconhecida a culpa pelo que ela considerava a desculturação
instantânea de seu filho. Como podiam eles sorrir se não conseguiam sequer
escrever uma única palavra da língua materna sem cometer erros imperdoáveis?
Não, definitivamente não criara o filho para aquele tipo de vida. Pediu para
que Carol a ajudasse a responder o tal do “e-mail” para Marcinho com apenas uma
– e decisiva – frase: Retroceda
exclusivamente após reaver a sapiência sobre seu léxico, deixando-a
imediatamente sozinha para que a decifrasse.
*Jornalista
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