

Crisálida
* Por Mara Narciso
Não tenho de mim uma imagem magra. Todas as minhas fotografias mostram-me muitos quilos além do razoável. Fui uma menina adotada por uma família classe média, e assim, desconhecendo a minha linhagem biológica, não sei a proporção de importância da genética e do ambiente na gênese da minha gordura.
Fui uma criança comum, e nenhum fato foi indicativo de causa do meu ganho de peso desmesurado, em comparação com a minha pouca estatura de um metro e quarenta e cinco. Mas os efeitos do excesso de peso sempre foram marcantes e desagradáveis para mim.
O meu porte físico não me impediu de casar-me com um homem alto, de um metro e oitenta, e ter com ele uma filha, hoje com doze anos. Depois da gravidez, decidi que deveria perder peso, pois estava com inimagináveis setenta quilos, mas frustrei-me em todas as minhas tentativas. No entanto, era impossível viver gorda, e o corpo amplo, desajeitado, e sem cintura, dentro das roupas deselegantes era motivo de intenso sofrimento para mim. Olhava aquele rosto redondo, com dupla papada e entristecia-me a ponto de chorar. Era chocante, eu tão jovem, e com o corpo daquela maneira, desarmonioso e desproporcional. A minha barriga mole e a cintura inexistente, não eram minhas. Eram emprestadas temporariamente. Não aceitava aquele estado de coisas, mas não conseguia forças para olhar a comida e não comer. Aquela dominação maligna era mais forte do que eu. Fraquejava, comia, engordava e sofria: um ciclo destrutivo.
Frequentei consultórios médicos de endocrinologistas e suas dietas-padrão que eu não conseguia cumprir, e me arrebentava de culpa. Fui a nutricionistas com suas dietas personalizadas, mas impossíveis de obedecer, pois algumas eram caras, e exigiam alimentos que não eram rotina na minha vida. Lutava uns dias com a balança, a fome e a culpa, e suspirava fundo de alívio, quando, enfim, decidia desistir, afinal eu era uma gorda incorrigível, e ser magra era impossível para mim.
Praticar um esporte, ginástica ou caminhada eram desafios que eu inventava diariamente, mas desistia na seqüência, e ainda falava para mim mesma que estava fazendo algo, mesmo sabendo que o meu rol de intenções, nunca passava de um mero rol, e nunca era uma firme decisão.
Uma vez me enchi de coragem, e pela milésima vez, fui a uma endocrinologista. Estava certa de que não mais inventaria punir-me fazendo dietas inúteis, e radicais, com toda a carga de sofrimento e frustração que essas tentativas me traziam. Mas na minha cabeça era apenas mais uma tentativa. Com meu discurso pronto, já estava preparada para uma nova falha, e mais uma desistência. Já fui logo falando, que o meu problema era que eu não conseguia emagrecer de jeito nenhum. Fui solicitada para mudar a fala e passar a dizer que “até o momento eu não vinha conseguindo perder peso, porque não tive persistência, mas a partir de hoje tudo será diferente”. Embora um simples jogo de palavras, senti-me motivada, e sem saber bem o porquê, comecei a dieta. Já tinha dado alguns passos, desde o momento em que me conscientizei da necessidade de mudança de comportamento em relação à comida. Esta ocupava o centro da minha vida. Fui lentamente colocando o verbo comer nas beiradas do meu dia, e não no ponto central que ele ocupava antes. Fácil? Nem sombra disso.
Todos os meses ia à médica me pesar, recebendo a cobrança e o estímulo. Percebi que a conversa e a prestação de contas começavam a dar certo. A fome que eu tinha de suportar, mesmo com o uso de medicação leve, que aumenta a saciedade, doía muito. O estômago roncava tanto no começo, que eu acordava durante a noite. Tomava água e voltava a dormir. Estava impressionada com a minha coragem e perseverança, pois que, noutras fases da minha vida, não consegui levar adiante.
Iniciei a perda de peso, e fui sumindo, numa sensação estranha de desaparecimento. Era como se uma pessoa estivesse deixando de existir para que outra nascesse. As roupas iam folgando, e eu mandava apertar. Novamente frouxas e eu mandava reapertá-las. O mais impressionante para mim nessa fase foi como a disciplina conseguia domar o meu sofrimento de ficar sem comer, controlando a fome com tudo que eu tinha dificuldade em ingerir antes, pois nem dava confiança para esses alimentos noutros tempos de obesidade.
Mantinha minhas visitas ao consultório médico, com trocas de idéias e de experiências. Ouvia e também falava bastante. E assim, pouco a pouco, como num parto, vi sumir a mulher de cintura grossa, larga e com um corpo sem formato, com uma tremenda barriga, e surgir uma mulher de corpo normal, que aos poucos foi ficando menos pesada, até tornar-se magra. Estranhíssimos sentimentos de dificuldade de identificação assaltaram-me. Eu já tinha perdido 25 quilos em cinco meses, e ainda sonhava comigo gorda. Olhava no espelho e não me via magra. As pessoas não paravam de se admirar vendo-me assim, pela primeira vez uma mulher, e não primeiramente uma mulher gorda.
O mundo é cruel com os gordos, e não adianta dizer o contrário: a sociedade trata mal quem foge dos padrões. Notei que passaram a me olhar de outro modo, com mais respeito e consideração. Enfim, eu era uma pessoa digna de ser ouvida. Exagero? Bem se vê que você nunca foi gordo.
Sair de dentro daquela capa de gordura, daquela carapaça formada a partir do meu inicialmente hábito, e depois vício, e por fim, desculpa alimentar, foi um processo de muita dor. Emagrecer dói muito, e causa insegurança e medo ver o resultado. Senti-me como uma borboleta saindo da crisálida, tendo de esperar as asas secarem, se abrirem, até estar apta a voar ao sol. Uma grande transformação. Tudo mudou na minha vida. E não foi assim, automaticamente para melhor. Eu ainda estava tonta com a mudança. Precisava de tempo para acostumar-me.
Adiei o quanto pude os exercícios físicos. Tinha milhões de desculpas para não tirar o pé do chão. Para quê, já que tinha emagrecido sem ginástica? Mas a médica insistia que eu deveria fazer a musculação para enrijecer os músculos e evitar o efeito sanfona. Que eu deveria me prometer prêmios para a chegada, exceto comida, para conseguir uma melhor motivação e não parar com tudo. Comprei roupas e sapatos novos, fiz um tratamento nos cabelos, e comecei a caminhar, depois caminhar e correr alternadamente. Parece bobagem, mas tudo foi usado para me motivar.
Estou magra, com 45 quilos, há doze meses. Faço controle de peso uma vez por semana e a cada mês ainda vou ao consultório. Na última vez que fui, contei um fato até certo ponto irônico. Eu corria na avenida, e um homem, que fazia caminhada, passou por mim, e me encarando, falou:
-- Pára de correr! Você não precisa disso não. O seu corpinho é lindo, princesa!
* Médica endocrinologista há 29 anos, acadêmica do 6° Período de Jornalismo e autora do livro “Segurando a hiperatividade”
* Por Mara Narciso
Não tenho de mim uma imagem magra. Todas as minhas fotografias mostram-me muitos quilos além do razoável. Fui uma menina adotada por uma família classe média, e assim, desconhecendo a minha linhagem biológica, não sei a proporção de importância da genética e do ambiente na gênese da minha gordura.
Fui uma criança comum, e nenhum fato foi indicativo de causa do meu ganho de peso desmesurado, em comparação com a minha pouca estatura de um metro e quarenta e cinco. Mas os efeitos do excesso de peso sempre foram marcantes e desagradáveis para mim.
O meu porte físico não me impediu de casar-me com um homem alto, de um metro e oitenta, e ter com ele uma filha, hoje com doze anos. Depois da gravidez, decidi que deveria perder peso, pois estava com inimagináveis setenta quilos, mas frustrei-me em todas as minhas tentativas. No entanto, era impossível viver gorda, e o corpo amplo, desajeitado, e sem cintura, dentro das roupas deselegantes era motivo de intenso sofrimento para mim. Olhava aquele rosto redondo, com dupla papada e entristecia-me a ponto de chorar. Era chocante, eu tão jovem, e com o corpo daquela maneira, desarmonioso e desproporcional. A minha barriga mole e a cintura inexistente, não eram minhas. Eram emprestadas temporariamente. Não aceitava aquele estado de coisas, mas não conseguia forças para olhar a comida e não comer. Aquela dominação maligna era mais forte do que eu. Fraquejava, comia, engordava e sofria: um ciclo destrutivo.
Frequentei consultórios médicos de endocrinologistas e suas dietas-padrão que eu não conseguia cumprir, e me arrebentava de culpa. Fui a nutricionistas com suas dietas personalizadas, mas impossíveis de obedecer, pois algumas eram caras, e exigiam alimentos que não eram rotina na minha vida. Lutava uns dias com a balança, a fome e a culpa, e suspirava fundo de alívio, quando, enfim, decidia desistir, afinal eu era uma gorda incorrigível, e ser magra era impossível para mim.
Praticar um esporte, ginástica ou caminhada eram desafios que eu inventava diariamente, mas desistia na seqüência, e ainda falava para mim mesma que estava fazendo algo, mesmo sabendo que o meu rol de intenções, nunca passava de um mero rol, e nunca era uma firme decisão.
Uma vez me enchi de coragem, e pela milésima vez, fui a uma endocrinologista. Estava certa de que não mais inventaria punir-me fazendo dietas inúteis, e radicais, com toda a carga de sofrimento e frustração que essas tentativas me traziam. Mas na minha cabeça era apenas mais uma tentativa. Com meu discurso pronto, já estava preparada para uma nova falha, e mais uma desistência. Já fui logo falando, que o meu problema era que eu não conseguia emagrecer de jeito nenhum. Fui solicitada para mudar a fala e passar a dizer que “até o momento eu não vinha conseguindo perder peso, porque não tive persistência, mas a partir de hoje tudo será diferente”. Embora um simples jogo de palavras, senti-me motivada, e sem saber bem o porquê, comecei a dieta. Já tinha dado alguns passos, desde o momento em que me conscientizei da necessidade de mudança de comportamento em relação à comida. Esta ocupava o centro da minha vida. Fui lentamente colocando o verbo comer nas beiradas do meu dia, e não no ponto central que ele ocupava antes. Fácil? Nem sombra disso.
Todos os meses ia à médica me pesar, recebendo a cobrança e o estímulo. Percebi que a conversa e a prestação de contas começavam a dar certo. A fome que eu tinha de suportar, mesmo com o uso de medicação leve, que aumenta a saciedade, doía muito. O estômago roncava tanto no começo, que eu acordava durante a noite. Tomava água e voltava a dormir. Estava impressionada com a minha coragem e perseverança, pois que, noutras fases da minha vida, não consegui levar adiante.
Iniciei a perda de peso, e fui sumindo, numa sensação estranha de desaparecimento. Era como se uma pessoa estivesse deixando de existir para que outra nascesse. As roupas iam folgando, e eu mandava apertar. Novamente frouxas e eu mandava reapertá-las. O mais impressionante para mim nessa fase foi como a disciplina conseguia domar o meu sofrimento de ficar sem comer, controlando a fome com tudo que eu tinha dificuldade em ingerir antes, pois nem dava confiança para esses alimentos noutros tempos de obesidade.
Mantinha minhas visitas ao consultório médico, com trocas de idéias e de experiências. Ouvia e também falava bastante. E assim, pouco a pouco, como num parto, vi sumir a mulher de cintura grossa, larga e com um corpo sem formato, com uma tremenda barriga, e surgir uma mulher de corpo normal, que aos poucos foi ficando menos pesada, até tornar-se magra. Estranhíssimos sentimentos de dificuldade de identificação assaltaram-me. Eu já tinha perdido 25 quilos em cinco meses, e ainda sonhava comigo gorda. Olhava no espelho e não me via magra. As pessoas não paravam de se admirar vendo-me assim, pela primeira vez uma mulher, e não primeiramente uma mulher gorda.
O mundo é cruel com os gordos, e não adianta dizer o contrário: a sociedade trata mal quem foge dos padrões. Notei que passaram a me olhar de outro modo, com mais respeito e consideração. Enfim, eu era uma pessoa digna de ser ouvida. Exagero? Bem se vê que você nunca foi gordo.
Sair de dentro daquela capa de gordura, daquela carapaça formada a partir do meu inicialmente hábito, e depois vício, e por fim, desculpa alimentar, foi um processo de muita dor. Emagrecer dói muito, e causa insegurança e medo ver o resultado. Senti-me como uma borboleta saindo da crisálida, tendo de esperar as asas secarem, se abrirem, até estar apta a voar ao sol. Uma grande transformação. Tudo mudou na minha vida. E não foi assim, automaticamente para melhor. Eu ainda estava tonta com a mudança. Precisava de tempo para acostumar-me.
Adiei o quanto pude os exercícios físicos. Tinha milhões de desculpas para não tirar o pé do chão. Para quê, já que tinha emagrecido sem ginástica? Mas a médica insistia que eu deveria fazer a musculação para enrijecer os músculos e evitar o efeito sanfona. Que eu deveria me prometer prêmios para a chegada, exceto comida, para conseguir uma melhor motivação e não parar com tudo. Comprei roupas e sapatos novos, fiz um tratamento nos cabelos, e comecei a caminhar, depois caminhar e correr alternadamente. Parece bobagem, mas tudo foi usado para me motivar.
Estou magra, com 45 quilos, há doze meses. Faço controle de peso uma vez por semana e a cada mês ainda vou ao consultório. Na última vez que fui, contei um fato até certo ponto irônico. Eu corria na avenida, e um homem, que fazia caminhada, passou por mim, e me encarando, falou:
-- Pára de correr! Você não precisa disso não. O seu corpinho é lindo, princesa!
* Médica endocrinologista há 29 anos, acadêmica do 6° Período de Jornalismo e autora do livro “Segurando a hiperatividade”

O mundo paranóico de hoje procura inimigos aos quais culpar pela sua incapacidade de fazer a intolerância vigorar plena como governo, de fato. Um mundinho burro e careta que incensa BBBs de ocasião, mas ignora (pq nem de longe supõe) a brava luta e heróica vitória dos que batem a obesidade. Isso deveria ocupar as manchetes dos jornais, mas a verdade é que as grandes notícias reboam apenas nos discretos salões das nossas almas. Parabéns, Mara!
ResponderExcluirVencer a obesidade é façanha digna de grandes barulhos. Quem a vence torna-se capaz de aprender alemão num ano, ou seja, capacita-se a todo e qualquer desafio. Daí a minha valorização ao fato.
ResponderExcluirObrigada Daniel.