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Os barulhentos seres humanos
* Seu Pedro
Ainda pequeno fui ensinado por um professor – isto no tempo em que havia professores dedicados a nos ensinar além do que havia no livro – que no meio-ambiente os sons são inevitáveis, até porque existem animais que se guiam pelos ruídos, até por barulhos criados por eles próprios. O homem também. Eu, dentro de uma densa floresta, saberei que estou próximo a uma bela cachoeira por ouvir o som das águas descendo pelas encostas, e “estourando” na queda livre sobre outras águas que caíram antes.
Estou dizendo de som e não de barulho. Há uma diferença, embora entrem pelo mesmo buraco do ouvido. Sobre o segundo, ainda tonto de sono, passadas as quatro horas de um dia domingo, dia de descansar, na madorna, sonhei que estava visitando o Rio de Janeiro e sendo recepcionado por alta música e uma troca de tiros entre policiais e bandidos! Apalpei meu corpo. E, além de não ter nele alojada nenhuma bala perdida, estava vestido com o pijama surrado do noite a noite.
Já acordado, percebi que os pipocos continuavam, e que vinham dos foguetes de um grupo que trazia consigo a banda tocando dobrados e amassados. No interior, banda de músicas é chamada de “furiosa”. Mas furioso estava eu. Talvez por isto eu tenha sonhado que estava sendo tão bem recebido na minha ex-Cidade Maravilhosa, que entrego à saudade. Ali vivi as maravilhosas adolescência e juventude.
Mas lá estava eu com cara de pinico amassado, esperando a banda passar e, pela janela, olhando uma dezena de outras caras sonolentas fazendo alvorada para a festa da santa, que só começaria à noite. Perecem-me que os foguetes são espocados nessas caminhadas da madruga para encobrir o som de trombone dos humanos que, vez ou outra, fazem “pruummm”. E eu só gostaria de, naquele momento, continuar dormindo. Mas com tanto barulho era impossível.
Que diferença um foguetório faz? A minha fé não aumenta e nem diminui. O que nos faz crescer no cristianismo é o respeito pelo próximo, inclusive de deixá-lo dormir. Mas assim como para certos animais é preciso que haja o barulho, que lhes dê a idéia do caminho certo, para certos homens não seria diferente. Eles precisam alvorecer com barulho, fazerem bastante gritaria nos leilões das festas, para que tenham a idéia de que acharam o caminho, para eles em um céu bem distante.
(*) Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.
* Seu Pedro
Ainda pequeno fui ensinado por um professor – isto no tempo em que havia professores dedicados a nos ensinar além do que havia no livro – que no meio-ambiente os sons são inevitáveis, até porque existem animais que se guiam pelos ruídos, até por barulhos criados por eles próprios. O homem também. Eu, dentro de uma densa floresta, saberei que estou próximo a uma bela cachoeira por ouvir o som das águas descendo pelas encostas, e “estourando” na queda livre sobre outras águas que caíram antes.
Estou dizendo de som e não de barulho. Há uma diferença, embora entrem pelo mesmo buraco do ouvido. Sobre o segundo, ainda tonto de sono, passadas as quatro horas de um dia domingo, dia de descansar, na madorna, sonhei que estava visitando o Rio de Janeiro e sendo recepcionado por alta música e uma troca de tiros entre policiais e bandidos! Apalpei meu corpo. E, além de não ter nele alojada nenhuma bala perdida, estava vestido com o pijama surrado do noite a noite.
Já acordado, percebi que os pipocos continuavam, e que vinham dos foguetes de um grupo que trazia consigo a banda tocando dobrados e amassados. No interior, banda de músicas é chamada de “furiosa”. Mas furioso estava eu. Talvez por isto eu tenha sonhado que estava sendo tão bem recebido na minha ex-Cidade Maravilhosa, que entrego à saudade. Ali vivi as maravilhosas adolescência e juventude.
Mas lá estava eu com cara de pinico amassado, esperando a banda passar e, pela janela, olhando uma dezena de outras caras sonolentas fazendo alvorada para a festa da santa, que só começaria à noite. Perecem-me que os foguetes são espocados nessas caminhadas da madruga para encobrir o som de trombone dos humanos que, vez ou outra, fazem “pruummm”. E eu só gostaria de, naquele momento, continuar dormindo. Mas com tanto barulho era impossível.
Que diferença um foguetório faz? A minha fé não aumenta e nem diminui. O que nos faz crescer no cristianismo é o respeito pelo próximo, inclusive de deixá-lo dormir. Mas assim como para certos animais é preciso que haja o barulho, que lhes dê a idéia do caminho certo, para certos homens não seria diferente. Eles precisam alvorecer com barulho, fazerem bastante gritaria nos leilões das festas, para que tenham a idéia de que acharam o caminho, para eles em um céu bem distante.
(*) Seu Pedro é o jornalista Pedro Diedrichs, editor do jornal Vanguarda, de Guanambi, Bahia.
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