Alberto
e Ayrton
* Por
Marcelo Sguassábia
-
Santos Dumont! O senhor é o Santos Dumont, né?
- Em carne e osso. Quer dizer, sem carne e sem osso. Você quem é?
- Senna. O Ayrton, sabe?
- Sena? O rio da minha lindíssima Paris?
- Não, não. O rei de Mônaco. Béco, para os íntimos. O piloto, tricampeão da Fórmula 1. O namorado da Adriane Galisteu...
- Agora, puxando pela memória, acho que já ouvi falar de você, sim. Faz pouco tempo que desencarnou, não é?
- Vinte e três anos... o senhor chama isso pouco tempo?
- Ah, foi outro dia mesmo. Pra quem já está aqui desde 1932, você nem gelou a carcaça, meu rapaz. Lembro da minha hora como se fosse hoje. Estava no Guarujá, chateado com o que andavam fazendo com a minha invenção, e resolvi que não queria mais ficar lá embaixo. Aliás, sempre me senti mais à vontade aqui em cima.
- Em carne e osso. Quer dizer, sem carne e sem osso. Você quem é?
- Senna. O Ayrton, sabe?
- Sena? O rio da minha lindíssima Paris?
- Não, não. O rei de Mônaco. Béco, para os íntimos. O piloto, tricampeão da Fórmula 1. O namorado da Adriane Galisteu...
- Agora, puxando pela memória, acho que já ouvi falar de você, sim. Faz pouco tempo que desencarnou, não é?
- Vinte e três anos... o senhor chama isso pouco tempo?
- Ah, foi outro dia mesmo. Pra quem já está aqui desde 1932, você nem gelou a carcaça, meu rapaz. Lembro da minha hora como se fosse hoje. Estava no Guarujá, chateado com o que andavam fazendo com a minha invenção, e resolvi que não queria mais ficar lá embaixo. Aliás, sempre me senti mais à vontade aqui em cima.
- Pois
é. Se naquele dia fatídico já existisse um cockpit feito com
material de caixa preta, talvez eu estivesse salvo. Difícil me
acostumar com a ideia, vim pra cá cedo demais.
- Deixa
de se lamentar, isso só piora as coisas. Mas me diz, como é que me
reconheceu por essas bandas?
- O
chapéu, o terno, o bigode... como não poderia deixar de ser, é
claro que o senhor é nome de aeroporto no Brasil. Um dos maiores que
temos por lá.
- Sim.
Mas o senhor é mais herói que eu, e é nome de estrada também.
Duas, por sinal. Além de escolas, ruas, praças. Tem até uma cidade
chamada Santos Dumont.
- É,
onde eu nasci. Chamava-se Palmyra, depois rebatizaram pra me
homenagear. Fiquei sabendo por alguns irmãos espirituais.
-
Meu caro Ayrton, não é só você que guarda mágoa desse país
ingrato. Outro dia mesmo estavam jogando truco por aqui o Duque de
Caxias, o Dom Pedro I e o Tiradentes, amaldiçoando as últimas
gatunagens de Brasília. Diziam que se soubessem que ia dar no que
deu, não teriam movido uma palha.
- Sabe
de uma coisa, meu jovem? Me dá nos nervos ficar a eternidade toda
vendo esses anjos, com essas caras gordas e barrocas, batendo asinha
pra lá e pra cá, sem rota de voo definida. A coisa aqui ainda está
nesse tempo, de asinha nas costas. Até mesmo o avião, se você for
ver, já é algo bem ultrapassado. Inventei essa traquitana em 1906.
Tudo bem que o 14-bis era feito de seda e bambu e que a tecnologia
aeronáutica evoluiu muito daí pra frente, mas é arcaico demais
como meio de locomoção. Não sei se sabia, mas eu, o Einstein e o
Steve Jobs estamos concluindo um protótipo de transporte na
velocidade da luz.
- Temos
que destruir tudo, pra não correr o risco de sobrar algum corrupto
vivo. Sabemos que nessa operação-limpeza vamos matar um monte de
pessoas inocentes, mas os bons viriam para o céu de qualquer jeito.
E vão dar graças ao Pai por se livrarem daquele inferno.
- Pra
dar tudo certo, vamos precisar de um piloto experiente e habilidoso.
É aí que você pode ajudar. Afinal, velocidade é o seu negócio.
Ainda que a velocidade, no caso, seja a da luz.
- Nossa,
deve ser demais essa sensação. E eu achando, lá embaixo, que 350
por hora era o máximo da adrenalina.
- Deixa
eu amadurecer a ideia, a gente vai se falando. Me dá seu chapéu de
lembrança do nosso encontro?
*
Marcelo Sguassábia
é redator publicitário. Blogs:
WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e
WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Ah, que delícia de diálogo! Jamais eu teria imaginado isso daí: criação e originalidade na justa medida do riso.
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