Meta infinita
As
pessoas (todas, sem exceção) vivem estabelecendo metas – de
curtíssimo, curto, médio, longo e longuíssimo prazo – para suas
vidas, a maioria imediatas, algumas tantas mediatas, mas que contam,
sempre, atingir. Ninguém estipula objetivos apenas por diversão,
como mero exercício de imaginação.
É
verdade que alguns deles são de tal sorte impossíveis de serem
atingidos, que descambam para o delírio, para o absurdo, para o
surreal. Ainda assim, são alvos que mobilizam pessoas e lhes dão
motivação (e, não raro, profundas frustrações).
Eu,
você, o Zezinho, a Joana, o Joaquim, enfim todos nós temos metas
estabelecidas, a maioria tão trivial que sequer classificamos como
tal, outras tantas magníficas e, quem sabe, transcendentais
(potencialmente factíveis ou não). Faz parte da vida.
O
indigente, faminto, tem como meta prioritária e urgente, por
exemplo, assegurar a refeição do dia. É movido pela necessidade e
pelo instinto de sobrevivência. Por isso, seu próximo alvo é, se
possível, garantir, também, a comida dos próximos dias, o que,
para ele, já é um objetivo um tanto mais complicado do que o
primeiro.
No
íntimo, mesmo que não revele para ninguém (por não ter quem se
importe com sua situação e que se disponha a ouvir suas
revelações), objetiva mudar de vida: ter um emprego, uma casa mesmo
que das mais rústicas, uma companheira, família e outras tantas
coisas, comuns e triviais para a maioria de nós, mas que para ele
são um sonho ambicioso e ousado, quase irrealizável.
O
político, por sua vez, tem, como meta imediata, eleger-se. Mas
acalenta uma infinidade de outras, mediatas, como se destacar nessa
atividade, galgar posições no partido, fazer parte do governo,
governar uma cidade, Estado ou país, enriquecer, conquistar
prestígio e poder, e vai por aí afora.
Se
tiver vocação para a vida pública, contar com apoios, for
simpático e convincente, poderá atingir todos esses objetivos, ou
pelo menos os principais. A maioria não os atinge nunca. Como se vê,
as metas que estabelecemos raramente dependem exclusivamente de nós.
Daí sermos vítimas constantes de tantas decepções e frustrações.
Nem sempre (ou quase nunca) o mundo conspira a nosso favor. Via de
regra, o que acontece é exatamente o oposto.
A
meta de um time de futebol, por sua vez, é fazer o maior número
possível de gols (não por acaso os dois travessões pelos quais
seus atacantes têm que fazer a bola passar têm esse nome), não
levar nenhum e, dessa forma, vencer o adversário da vez. Este é o
objetivo imediato. Mas a coisa não para por aí.
Os
mediatos são: ganhar, se possível, todos os jogos dos demais
competidores, quando não, pelo menos a maioria deles; somar a maior
quantidade de pontos positivos que puderem e conquistarem o título
de campeões da competição em que estiverem envolvidos.
Estas,
na verdade, são suas metas, digamos, menos ousadas. As mais (em
alguns casos, delirantes, face à importância e a competência da
equipe) é a conquista do campeonato mundial. São poucos,
pouquíssimos os que logram alcançar a glória e o sucesso.
Se,
individualmente, cada um de nós tem seu conjunto de metas –
dependendo das necessidades e da imaginação de cada um – com os
povos não é diferente. São o que chamamos, eufemisticamente, de
“ideais”. E estes vão dos mais mesquinhos – como a conquista
territorial alheia e o temor dos vizinhos por sua força e poder –
aos mais grandiosos e altruísticos, como a igualdade, fraternidade,
solidariedade, justiça e liberdade. Ascendem, quem sabe, aos
milhões.
Nenhum
povo, ou nação, alcançou todas ou mesmo algumas dessas metas, em
qualquer tempo que fosse. Nem mesmo por curtos períodos. Falar em
igualdade de direitos e deveres, por exemplo, não passa de
monumental hipocrisia. Tanta, que dispensa comentários.
Fraternidade
pode existir em algum período, posto que mero arremedo dela, mas,
mesmo assim, é raridade. O mesmo ocorre com as demais virtudes que,
no fundo, não passam de meras palavras pomposas, mas despidas de
conteúdo. Todavia, não deixam de ser metas, que deveriam ser
imediatas, urgentes, urgentíssimas, mas se limitam a ser mediatas,
remotas, remotíssimas.
Nem
todos os povos tiveram, de fato, esses objetivos (embora jurassem por
todas as juras que sim). Ainda hoje, princípios de conduta, tão
simples na essência, soam como se fossem meras e delirantes utopias.
Caso viessem a se concretizar, e se manter, logicamente, na sucessão
de gerações, seriam alvos finitos, posto que atingidos. Todavia, a
maior meta, tanto individual quanto coletiva, do mundo, não é
nenhum desses valores citados (deveriam ser todos). É o amor, finito
enquanto sentimento, infinito enquanto ideal.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Fechou belissimamente.
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