Triste surpresa
A
vida, a todo o momento, nos surpreende, ora de forma positiva, ora
negativa, ora, não raro, trágica até. Acontecimentos inesperados
nos ocorrem, sem que tenhamos a menor condição de prevê-los, e
mudam, da noite para o dia, nossa situação (reitero, para melhor ou
para pior).
Podemos,
por exemplo, ganhar na loteria, ou na megassena, ou em outro sorteio
qualquer alguns milhões de reais e com os palpites mais improváveis,
após termos jogado por anos e passado raspando o grande prêmio em
“n” ocasiões. É sempre uma possibilidade. Só não tem nenhuma
chance, óbvio, quem nunca joga.
Outra
possibilidade positiva é o surgimento de alguma ótima oportunidade
profissional (uma inesperada promoção, por exemplo) que nos chegue
no lugar certo e no momento oportuno, modificando, subitamente, nossa
situação para melhor. Quando acontece, é outra surpresa
gratificante. Só não teremos a menor chance disso acontecer se
estivermos, claro, desempregados, ou se, mesmo tendo emprego, nos
sentirmos desmotivados ou formos despreparados para as funções que
nos competirem exercer.
Podemos,
igualmente, ser surpreendidos no amor. A mulher dos nossos sonhos –
aquela que tínhamos a certeza que seria a única que poderia nos
fazer felizes, mas que parecia tão inacessível e distante – pode,
subitamente, mudar de ideia.
De
uma hora para outra, há uma chance, mesmo que remota, dela se dar
conta de que somos seu parceiro ideal. E, para a nossa surpresa, e
mais do que isso, nosso pasmo e estupefação, pode facilitar a
conquista, ou, quem sabe, nos conquistar, enchendo-nos, dessa forma,
de esperança e de felicidade.
Pode
acontecer? Claro, mesmo que pareça improvável e que a chance a
nosso favor seja de uma em um bilhão. Afinal, ocorrência
inesperada, como esta, já aconteceu inúmeras vezes, e com diversas
pessoas. Não deixa, pois, de ser, também, uma possibilidade para
nós.
Temo,
todavia, baseado na observação e na experiência que os muitos anos
de vida me conferem, que as surpresas negativas são mais freqüentes
e em muito maior número do que as favoráveis.
Podemos,
por exemplo, nos equivocar na escolha de um sócio, que nos aplique
um súbito e decisivo golpe e arruíne nosso negócio, que parecia
tão próspero e promissor, deixando-nos dívidas e mais dívidas e
uma montanha do tamanho da Cordilheira dos Andes de contas a pagar. E
justo no momento em que não tenhamos recursos sequer para a
manutenção pessoal.
Isso
acontece, e a todo o momento, e não temos a mínima condição de
evitar, embora quem esteja de fora ache que sim. É aquela história:
pimenta nos olhos dos outros... Afinal, nenhum pilantra mau-caráter
traz essa característica de malandragem estampada na testa. Da
prosperidade à ruína, portanto, há apenas a distância de um
passo, um simples e corriqueiro passo, embora custemos a acreditar.
Outra
triste surpresa, que pode nos abalroar subitamente e fazer ruir nosso
mundo, refere-se à vida conjugal. A mulher dos nossos sonhos, por
exemplo, aquela à qual confiamos nossa vida, que julgávamos
incorruptível, leal e rigorosamente fiel, pode estar nos traindo com
quem julgávamos o “melhor amigo” sem que tenhamos a mínima
suspeita.
Podemos
fazer um papel ridículo por meses, anos e até décadas, sem que
venhamos a desconfiar. Lá um belo dia, sem aviso ou previsão, no
entanto, podemos flagrar, acidentalmente, o casal infiel na cama,
mantendo relações sexuais, numa incontestável comprovação
pessoal do delito, em que não reste o mais leve resquício de
dúvida.
Aliás,
esta é a mais amarga e, todavia, a mais comum das surpresas. Ocorre
milhares, talvez milhões de vezes por dia, em várias partes do
mundo. Mas quando somos nós os surpreendidos... Perdemos a cabeça e
a compostura. Daí haver tantas tragédias conjugais recheando o
noticiário policial dos meios de comunicação.
Somos
surpreendidos, positiva ou negativamente, em geral por outras pessoas
ou pelas circunstâncias. Mas as melhores e piores surpresas são as
proporcionadas por nossa própria natureza. Podemos, de uma hora para
outra, por exemplo, descobrir em nós algum talento que nunca antes
suspeitávamos. Podemos detectar em nosso interior muito mais força,
vigor e resistência do que supúnhamos.
Mas
podemos, igualmente, prospectar taras incontroláveis, tendências
perigosas, para nós e os que nos cercam, que façam de nós monstros
em potencial. Podemos, por outro lado, subitamente, descobrir que
temos alguma doença incurável, que nos limite a vida a alguns
meses, quando não a semanas.
Nada
disso, porém, é mais tristemente surpreendente do que isso que
Machado de Assis constatou e revelou em um de seus romances, pela
boca de um de seus personagens: “A velhice ridícula é a mais
triste e derradeira surpresa da natureza humana”. E é
circunstância para lá de comum, mas para a qual nunca estamos
prevenidos.
Perder
a dignidade, não importa em que situação ou por qual motivo, após
uma vida inteira de disciplina, de trabalho, de sacrifícios e de
abnegação, é simplesmente trágico e injusto! Ficar na dependência
alheia, até para os mais comezinhos atos de sobrevivência, como
comer, se vestir, se limpar etc., é dolorosíssimo para quem é
vítima disso, além de ser sumamente constrangedor para os que o
cercam. E, dependendo das circunstâncias, não há, sequer, a mais
remota forma de prevenção contra tamanho constrangimento e tão
triste surpresa da natureza humana.
Boa
leitura.
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Esse final matou a pau, e a todos.
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