Manifesto
dos mortos em defesa da UERJ
* Por
José Ribamar Bessa Freire
“Se
o mundo vier a desaparecer, mas uma só universidade for poupada, a
partir exclusivamente
dela poderemos reconstruir uma grande parte do saber atual”.
(Theodor
Berchem, 1990)
Aos
24 dias do mês de junho de 2017, às 7h00, foi aberta no Auditório
das Almas Imortais, sob a presidência de Dirce Côrtes Riedel,
professora de Literatura Brasileira, a assembleia geral dos docentes
que, em vida, ajudaram a construir a Universidade do Estado do Rio de
Janeiro e hoje habitam a Morada do Além. Da pauta constou um único
ponto: a situação da UERJ, que atravessa a maior crise de sua
história com salários e bolsas atrasados, bandejão fechado,
laboratórios e equipamentos sucateados, condições de estudo
deterioradas, verbas de projetos de pesquisa bloqueadas, serviços de
limpeza, manutenção e segurança bastante precários. “A Uerj,
definitivamente, não está normal” – declarou a presidente.
Anísio
Teixeira, o primeiro orador inscrito, lembrou a aula inaugural
ministrada em 1952 na então Universidade do Distrito Federal (UDF),
transformada depois em Universidade do Estado da Guanabara (UEG) e
finalmente na UERJ, que hoje conta com 42 mil alunos, 2.600
professores e 5.800 servidores técnico-administrativos, num total de
mais de 50 mil pessoas, avaliada pelos órgãos credenciados como a
5ª melhor do país e a 11ª da América Latina.
Num
aparte, Tereza Barbieri chamou a atenção para o lugar da Uerj
no ranking de
universidades, que não é fake como
o clima de Tubiacanga, mas resultado de aplicação de critérios
objetivos e mensuráveis. Acrescentou que hoje a Uerj possui cursos
qualificados de graduação e pós-graduação em todos os campos do
saber e que a semente plantada na Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras do Instituto La Fayette, em 1942, frutificou.
Em
seguida, Wilson Choeri registrou a construção do campus
universitário inaugurado em 1976, numa área de 150.000 m², no
bairro do Maracanã, Zona Norte do Rio, no terreno ocupado pela
“Favela do Esqueleto”. Trata-se de um conjunto de 12 andares e 5
edifícios de apoio, pavilhão de vários pavimentos, Concha
Acústica, Auditório Central, Capela Ecumênica, e Restaurante
Universitário. São 300 salas de aula, 12 bibliotecas, 24 auditórios
e 111 laboratórios – disse.
A
palavra foi concedida ao ex-diretor da Faculdade de Ciências
Médicas, Américo Piquet Carneiro, que ressaltou o papel
desempenhado pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto na formação
de profissionais da área de saúde e, especialmente, no atendimento
à população carente. O hospital realiza cirurgias em mais de 60
especialidades, com procedimentos sofisticados: cirurgias cardíacas,
transplantes de rim e de coração.
-
A Policlínica que hoje leva meu nome – disse Piquet Carneiro – é
o maior posto de assistência médica da América Latina, com suas 23
especialidades médicas, atendendo em média 30 mil pacientes por
mês.
-
Esse patrimônio histórico, cultural e educacional pertence ao povo
do Rio de Janeiro e não pode ser jogado na lata do lixo – aparteou
Alexandre Adler, que exibiu carta recebida do mundo dos vivos dando
conta da existência do Centro Universitário do Controle do Câncer,
inaugurado em 2002. Foi apoiado por Antônio Augusto Quadra, que na
ocasião mencionou a existência de inúmeros cursos de pós-graduação
na área e de 53 programas de Residência Médica. Informou ainda que
a Faculdade de Odontologia realiza 3.000 atendimentos odontológicos
por semana, com mais de 25.000 pacientes inscritos.
Outros
professores, funcionários e alunos que deixaram o mundo dos vivos
deram depoimentos, cada um avaliando a contribuição dada no seu
campo de saber, na formação de milhares de profissionais que atuam
no Brasil e no exterior, na criação de novos conhecimentos, no
ensino ministrado em vários municípios onde a Uerj instalou campi:
além do Rio, Duque de Caxias, São Gonçalo, Ilha Grande, Nova
Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e Resende.
-
Hoje acordei pra luta – anunciou Hélio Barreto, que comunicou
haver recebido de Ricardo Zentgraf, da Eduerj, através das nuvens, o
livro eletrônico gratuito organizado por Phellipe Marcel, Iuri Pavan
e Mauro Siqueira com depoimentos de acadêmicos e funcionários,
inclusive de outras universidades, em defesa da Uerj. Barreto se
definiu como politicamente conservador, mas ao concluir sua fala, deu
um abraço no estudante de medicina Luiz Paulo Cruz Nunes,
assassinado em 1968 pela polícia, que invadiu o Hospital
Universitário para reprimir os estudantes. “Agora A UERJ NOS UNE”
– declarou.
Na
sequência, José Flávio Pessoa de Barros deu informe sobre
correspondência enviada pelo médico Emílio Mira y Lopez, que
coordenou recentemente um ato no hall dos elevadores organizado pelo
Programa de Estudos e Pesquisas das Religiões (PROEPER), quando a
Uerj foi abençoada e todas as energias para ela convergiram.
Um
burburinho percorreu o Auditório das Almas. A professora Teresinha
Valladares, conhecida como “La Pasionária”, fez um discurso
inflamado, defendeu uma “Uerj sem muros” e exigiu a presença na
próxima assembleia, a ser realizada naquele auditório, dos
responsáveis pelo sangramento da instituição, nominando Sérgio
Cabral, Eduardo Cunha, Luis F. Pezão, Jorge Picciani, Rodrigo Maia,
Moreira Franco e Michel Temer.
-
Nós exigimos a presença deles aqui, onde serão abrigados no
Presídio do Além Bangu. Quanto mais rápido tomem o caminho do
Além, sem passagem de volta, melhor. Que fiquem aqui e prestem
contas de seus atos – discursou Valladares sobre aplausos gerais. A
convocação dos citados foi aprovada por unanimidade para que sejam
julgados como réus nos bancos do STJF – Supremo Tribunal do Juízo
Final, onde o negócio é pra valer, sem o lero-lero de nenhum Gilmar
Mendes.
-
Que os sangradores da Uerj venham para cá, mas que a universidade
permaneça lá no mundo dos vivos – disse o ex-diretor da Faculdade
de Direito, Isaac Benjó, que cobrou uma liminar cautelar para o
pagamento do 13º. salário do ano passado, os salários atrasados e
as bolsas dos alunos para evitar danos irreparáveis. – “Periculum
in mora”
- declarou o jurista, o que foi traduzido como “É
ai que mora o perigo”,
pelo ex-professor de latim da Universidade do Amazonas, Agenor
Ferreira Lima – o Agenorum.
A
professora Creusa Capalbo, a última a chegar, lembrou que os
signatários do manifesto, quando atuavam no plano da vida material,
pertenciam a diferentes campos do saber, tinham interesses acadêmicos
e políticos discrepantes e visões discordantes sobre o modelo de
universidade a construir e sobre o que era melhor para o Brasil. “O
conhecimento é filho do embate de ideias e não da simpatia” -
disse. As divergências continuam no mundo fluídico, mas os
participantes se uniram para declarar o apoio aos vivos, que lutam
para impedir a morte e o sepultamento da Universidade.
O
professor Jader Benuzzi Martins, físico e matemático de renome,
recém chegado no último 3 de junho, fez questão de citar Theodor
Berchem, ex-reitor da Universidade de Wurzburg, na Alemanha, na
conferência de abertura do IX Congresso Geral da Associação
Internacional de Universidades, realizada na Finlândia, em agosto de
1990, com a presença de centenas de reitores do mundo inteiro, entre
os quais Ivo Barbieri.
-
Se o Rio de Janeiro acabar, mas a UERJ se salvar – disse Jader - é
possível reconstruir o Rio com os profissionais formados por nossa
universidade, com o saber existente nos livros da Rede Sirius de
bibliotecas e no cérebro de nossos pesquisadores e alunos.
No
final, foi aprovado um manifesto, convocando os presentes a apoiarem,
do lugar onde estão, a greve geral do dia 30 de junho, sexta-feira,
e marcha em defesa da UERJ que será realizada no dia 7 de julho,
quarta-feira.
A
palavra foi franqueada aos patriarcas da educação presentes, entre
os quais Maria Yedda Linhares e Tom Jobim agraciados em 1990 com
Medalha da UERJ, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Sobral Pinto, Sérgio
Arouca, Betinho, Henfil, Paulo Autran, Mário Lago, Milton Santos,
Hélio Pelegrino e gente do mundo das letras, das artes e da cultura
popular, com destaque para Noel Rosa, Garrincha e Didi, vestidos com
a camisa da Uerj, assim como integrantes da Estação Primeira de
Mangueira, Cartola e Carlos Cachaça. Assinaram o livro de presença
Machado de Assis, Lima Barreto, Nelson Rodrigues e tantos outros.
Não podia faltar, é claro, o cacique Verá Mirim, da aldeia
Sapukai, de Angra dos Reis, que em vida participou de inúmeras
atividades na UERJ.
A
assembleia foi encerrada ao meio-dia – hora do Além - e o
Taquiprati, psicografou a presente ata, cuja versão impressa será
publicada em Manaus, no Diário do Amazonas, domingo, 25 de junho de
2017 e vai por mim assinada e pelos participantes presentes.
P.S.
Assinaram o manifesto, entre outros: Anísio Teixeira, Dirce Cortes
Riedel, Américo Piquet Carneiro, Jayme Landmann, Italo Suassuna,
Alexandre Adler, Antônio Augusto Quadra, Thomaz da Rocha Lagoa,
Rolando Monteiro, Fernando Bevilacqua Tereza Barbieri, Teresinha
Valladares, Roberto Lyra, Simão Isaac Benjó, Edina Mambrini,
Charley Fayal de Lyra, Jader Benuzzi, Rolando Monteiro, Wilson
Choeri, Hélio Barreto, Roberto Alcântara, Humberto Peixoto, Creusa
Capalbo, José Flávio Pessoa de Barros.
Nenhum comentário:
Postar um comentário