Cidades decadentes
Você
já notou como “as cidades do Novo Mundo passam diretamente à
decrepitude, sem se deterem no antigo”? Essa observação, aliás,
não é minha, mas do antropólogo, etnólogo e filósofo Claude
Lévi-Strauss. A constatação está no seu célebre livro “Tristes
Trópicos”, best-seller mundial e que merece ser lido por todos.
Conscientemente, nunca pensei nisso, embora inconscientemente talvez
a ideia me tivesse passado pela cabeça.
Notem
que Strauss não se referiu a nenhuma cidade brasileira em
particular, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto
Alegre, Recife, Salvador e até mesmo Brasília, que mal completou 57
anos, já apresenta, em algumas regiões específicas, sinais de
decrepitude. E sequer passou pelo “antigo”. Ainda não houve
tempo.
Essa
decadência, sem que se passe sequer pela antiguidade conservada como
patrimônio histórico, pode ser observada, também, em Buenos Aires,
Montevidéu, Assunção, Caracas, Bogotá e qualquer outra metrópole
latino-americana ou mesmo das três Américas. Falta-nos, ainda, o
sentido da tradição, que deve caminhar sempre paralela à
modernidade. Afinal, quem não tem passado... dificilmente terá um
futuro.
Nesse
caso, Strauss observou as cidades (provavelmente tomou por base São
Paulo, onde residiu e lecionou) não somente com o olhar objetivo do
cientista, mas com a subjetividade característica do escritor. E
expressou sua conclusão com clareza e exatidão, como compete a quem
pretende fazer literatura de primeira ordem.
Claro
que não pretendo fazer nenhum estudo antropológico a respeito (até
porque não tenho formação acadêmica para tal) e este texto sequer
tem a menor pretensão de ser um ensaio, mas mera provocação.
Peço
licença, porém, para transcrever outro trecho de Lévi-Strauss,
este um tanto mais extenso, que nos chama a atenção para outro
aspecto da urbanização que raramente notamos (se é que o fazemos).
“A
vida urbana apresenta um estranho contraste. Embora represente a
forma mais completa e requintada de civilização, em virtude da
concentração humana excepcional que realiza em espaço reduzido e
da duração de seu ciclo, precipita no cadinho atitudes
inconscientes, cada uma delas infinitesimal mas que, devido ao número
de indivíduos que as manifestam do mesmo modo e em grau idêntico,
se tornam capazes de engendrar grandes efeitos. Como exemplo, o
crescimento das cidades de leste para oeste e a polarização do luxo
e da miséria segundo este eixo, mas que torna incompreensível se
não reconhecermos esse privilégio – ou essa servidão – das
cidades que consiste, à maneira dum microscópio e, graças ao
aumento que lhe é peculiar, em fazer surgir na lâmina da
consciência coletiva o borbulhar microbiano das nossas ancestrais,
mas sempre vivas superstições. Tratar-se-ia, de resto, de
superstições?”
Neste
trecho, quem falou foi o cientista, não tanto o escritor, apesar da
riqueza e da variedade das metáforas de que Strauss se vale. O
fenômeno da urbanização não é novo. Pelo contrário, já é
bastante antigo. As primeiras cidades, na Índia, na China e no
Egito, têm, pelo menos, cinco milênios.
Ocorre
que até não faz muito tempo – no século XIX, por exemplo –
apenas 15% da população mundial, se tanto, habitava em cidades.
Hoje, há uma brutal concentração nessas “arapucas” de cimento
e asfalto. Cerca de 80% dos 7,6 bilhões de habitantes da Terra
concentram-se nas cidades. É pertinente, pois, e oportuno, que
estudemos esse fenômeno e tratemos dele cada vez com mais argúcia e
fidelidade.
Surge-nos
outra questão: pode o cientista de formação se aventurar,
impunemente, no mundo das letras e produzir literatura de primeira
linha, como qualquer bom escritor? Teoricamente, sim. Usualmente,
não. O escritor e o cientista são condicionados a raciocinar de
formas opostas. O primeiro, enfatiza a subjetividade. O segundo é,
essencialmente, objetivo.
O
escritor, por seu turno, quase sempre que se aventura a escrever
sobre ciência, se enrola todo, confunde suas leis e conceitos
básicos e não faz nem uma coisa e nem outra. Ou seja, nem texto
científico e nem literatura. Afinal, ciência não é, a rigor, a
sua “praia”.
Há,
todavia, exceções, e de parte a parte. Uma delas é “Tristes
Trópicos”, considerado um dos principais livros do século XX. A
obra é tão rica, no aspecto literário, que chegou a haver proposta
para que concorresse ao Prêmio Goncourt. Todavia, os responsáveis
por essa premiação, a contragosto, tiveram que recusar a
postulação. O motivo é que não se tratava de romance. E o prêmio
é destinado exclusivamente a ficcionistas.
No
livro, Lévi-Strauss relata uma viagem que empreendeu ao Brasil nos
anos 30. Embora se tratasse, como ressaltei, de austero e discreto
cientista, o autor decidiu produzir obra diferente da que se poderia
esperar dele: pessoal, audaciosa e espontânea, quase que uma
crônica, apesar da sua extensão, ou seja, das suas 500 páginas.
Strauss
traça, em “Tristes Trópicos”, a trajetória das relações
entre o velho e o novo mundo. Analisa o lugar do homem na natureza,
além do sentido da civilização e do progresso. O livro foi
recebido com entusiasmo pela comunidade literária, mas com
indisfarçável mau humor pela confraria dos cientistas.
A
ensaísta Catherine Clément assim se referiu à obra: “Insólitas,
desconcertantes, desvairadas, saltando épocas, os anos, as estações,
palpitantes, as fulgurações de ‘Tristes Trópicos’ são do tipo
que traçam caminhos na noite. E isso ainda perdura”.
Se
você, amável leitor, ainda não leu esse livro, leia. Certamente
não irá se arrepender. E verá que, sem perder a objetividade
característica da sua disciplina, o cientista pode, sim, produzir
excelente obra literária, repleta de emoção e verdade, quando se
propõe a tanto.
Strauss,
entre outras coisas, faz observações curiosas, mas todas
pertinentes, sobre sociedades indígenas brasileiras. Mas não só
isso. Praticamente disseca nossos costumes, tradições, crenças,
cultura, e nossa peculiar maneira de ser, tudo entremeado de
reflexões filosóficas a respeito de inúmeros temas, entre os quais
as concepções de progresso e de civilização. Por tudo isso,
“Tristes Trópicos” é um livro imperdível que, embora de
conteúdo científico, é genuína e excelente literatura.
Boa
leitura!
O
Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
A rigidez em caracterizar/catalogar qualquer escrito vem do academicismo exacerbado pelo mau-humor. Ainda bem que os escritores não ouvem, senão perderíamos todos nós.
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