quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Problemas de primeiro mundo

* Por Fernando Yanmar Narciso

Quais seriam as reivindicações, os anseios de uma pessoa que nasceu com o boi na sombra? Quem assiste a novelas sabe que “Os Ricos Também Choram”- Piada fraca... Nessas famílias bem-nascidas é quase obrigatório existir um filho alcoólatra, ou viciado em crack, ou que sofra de depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, ou, caso o autor esteja muito desesperado por idéias, que faz sexo com a própria mãe. Nem mesmo os moradores da favela ou do viaduto têm tantos problemas quanto essa gente. O consenso geral é que um sujeito rico, famoso e importante não teria motivos para se deprimir nem reclamar da vida.

Mas em vez de uma família, imagine um país rico, na verdade o mais rico de todos. O maior lançador de fenômenos culturais, tendências e tecnologia do mundo, onde aparentemente ao abrir uma torneira, ela jorra espumante Crystal e diamantes em vez de água. Nessas condições, com o que um país assim poderia se preocupar? Com a vida dos outros, é lógico! Foi o puritanismo hipócrita de certos abastados que não têm o que fazer o que ocasionou no surgimento da patrulha da correção política. Do alto da torre de marfim, são capazes de fazer qualquer coisa para transformar o mundo no lugar perfeito para eles, e a patuléia que aprenda a lidar com isso.

Merthiolate já não arde mais. Isso é tudo o que precisamos saber sobre o mundo de hoje. É só uma coisa de minha cabeça ou os meus, os nossos filhos irão crescer na geração mais neutralizada de todos os tempos? Vivi na última era em que valeu a pena ser criança. Tivemos muita liberdade, ainda tínhamos o direito de sermos responsáveis por nossas próprias decisões. Ainda dava pra juntar a turma pra jogar bola na rua ou amarrar camisas na cabeça e bancar o esquadrão ninja do bairro, pulando de árvore em árvore. Bons tempos eram aqueles... Mas agora as crianças não têm mais permissão pra brincar na rua, o perigo parece nos rondar em cada esquina. Brincar com os amigos, só na varanda ou na calçada, onde os pais conseguem enxergá-los. Para ir um pouco mais longe, só de carro e pra lugares relativamente controlados, como a escola e o Shopping Center. Aos pequenos, restaram apenas a TV, o videogame, o computador e seus periféricos para se divertir.

Lembram- se de quando cada canal de TV aberta tinha sua programação infantil? Eram travadas verdadeiras guerras por IBOPE nas manhãs pelos apresentadores com suas gincanas, encenações, sorteios e desenhos animados. Fosse Serginho Mallandro, Bozo, Xuxa ou até Daniel Azulay, ninguém ficava na mão. Mas algum expert em audiência teve a brilhante revelação que a maioria das crianças de hoje passa o dia todo trancafiada na escola, logo, não faria mais sentido manter uma programação matutina voltada ao público infantil. Resultado: o único canal aberto a resistir bravamente a essa tendência é o SBT, que inclusive já estuda uma forma de substituir suas sessões de desenhos e brincadeiras por mais um programa nos moldes do talk-show de Fátima Bernardes. Dizem que outro motivo dessa escassez de programas infantis deve-se ao crescimento dos canais infanto-juvenis da TV por assinatura. E, como “estamos carecas de saber”, todo mundo hoje tem TV a cabo, não é verdade?

Já repararam como são cada vez mais raros comerciais voltados às crianças? Procurem no Youtube por intervalos comerciais de décadas passadas, era assombrosa a oferta de brinquedos, balas, biscoitos, refrigerantes, sorvetes... Agora, se algum publicitário PENSAR na palavra “açúcar”, corre o risco de ser mandado para Guantánamo. Se nas últimas décadas, brinquedos tão comuns e politicamente incorretos como revolvinhos de espoleta e arco-e-flecha com ventosas foram banidos do comércio, agora até as arminhas Nerf, que disparam projéteis de espuma e em nada se assemelham a armas reais, foram proibidas no país. Os moleques vão chegar ao Serviço Militar sem nem saber o que é um gatilho.

Lá pelos idos da década de 60, quando os desenhos animados clássicos começaram a passar na TV, as emissoras passaram a cortar os desenhos clássicos que iam ao ar, para suprimir imagens que audiências podem considerar ofensivas, como personagens se transformando momentaneamente em caricaturas exageradas de negros, índios e asiáticos. Há, inclusive, uma lista extensa de curtas-metragens que foram apagados dos registros oficiais da Warner, tamanho o conteúdo ofensivo deles. Os censores parecem ter se esquecido que, na era de ouro da animação, desenhos não eram considerados uma arte pensada em crianças, eram recheados com sadismo, violência, explosões, conotação sexual e tudo mais que a mente derretida por ópio dos grandes animadores da época permitisse. O próprio Mickey Mouse sempre foi uma caricatura de um negro do vaudeville.

Pois a censura continua rendendo frutos, só que aqui no Brasil. Logo o Cartoon Network, que costumava passar a imagem de um canal infantil de vanguarda, depois de duas décadas de existência começou a se tornar mais careta. Já não passavam Pernalonga e Patolino no horário nobre há muitos anos, tendo sido rebaixados ao morto horário das madrugadas, quando ninguém deveria estar vendo desenhos. E, semana passada, resolveram apagar de seus arquivos quase 30 episódios clássicos de Tom & Jerry, que eles consideram brutais demais para nossas pobres e desprotegidas criancinhas... Por outro lado, se forem animes cheios de lutas, violência e gente desmembrada, tá liberado, né, CN? Santa incoerência, Batman!

Qual parte de“ISSO É UM DESENHO ANIMADO!” essa gente não consegue entender? Eles por acaso pensam que assistir o Patolino largar uma viga na cabeça de outro animal antropomórfico pode nos transformar em assassinos? Passei toda minha vida assistindo Pica-pau, Tom & Jerry, Popeye, Papa-léguas, Pernalonga e não me tornei um psicopata quando adulto. Dá pra aliviar um pouco a barra pros pequenos, coxinhas desocupados? Senão, correm o risco de nem saberem trocar a resistência do chuveiro quando crescerem!

*Designer e escritor. Sites:


Um comentário:

  1. A sociedade está amarrada em seus equívocos e já nem sabe mais o que pode e o que não pode na TV para crianças.

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