Desacordo português
* Por
Woden Madruga
João Pereira Coutinho é um jornalista e escritor
português que escreve, semana sim semana não, na Folha de S. Paulo. Tem espaço
reservado também no Correio da Manhã, de Lisboa, um dos mais importantes
jornais de Portugal. Tenho-o entre os meus cronistas preferidos. Escreve sobre
tudo. Ou quase. De Shakespeare a futebol passando por Woody Allen, Saramago,
Nelson Rodrigues, Darcy Ribeiro, Elias Canetti, Mário de Andrade, Lula. Na
pauta: literatura, cinema, política, gastronomia. As coisas que acontecem no mundo
vistas pela sua ótica crítica, polêmica às vezes, e com pitadas de fina ironia.
Aqui e acolá, sarcástico. Leitura agradável, do saber e do sabor de ser bom
jornalista. Algumas de suas crônicas estão reunidas no livro Av. Paulista, publicado pela Editora
Record, em 2009, ocupando um lugarzinho bem à vista na minha estante.
Esta semana, foi terça-feira, ele escreveu sobre
o complicadíssimo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, invenção de
acadêmicos que não pegou, tantas vezes adiada a sua aplicação. Era para entrar
em vigor em todos os países de língua portuguesa em 2009. Não foi. Pegue
adiamentos. Portugal não quer nem ouvir falar desse acordo. Basta ler os seus jornais ou
os livros de seus escritores. Lá vale a ortografia antiga, como deveria valer
aqui também. Por estes brasis já tem até dicionários com a nova ortografia. Mas a sua obrigatoriedade
foi adiada mais uma vez. Tem um decreto assinado pela presidente Dilma,
transferindo a coisa para 2016.
Bom, o assunto foi o tema da última coluna de João
Pereira Coutinho, cujo título já diz tudo. Ou quase: O aborto ortográfico. Deveria ser lido por todos
aqueles que gostam e são fiéis ao falar de nossa gente. Transcreverei algumas
passagens do artigo, que começa assim:
- O acordo ortográfico é conhecido em Portugal
como um aborto ortográfico. Difícil discordar dos meus compatriotas. Basta
olhar em volta. Imprensa. Televisões. Documentos oficiais. Correspondência
privada.
- Antes do acordo, havia um razoável consenso
sobre a forma de escrever português. Depois do acordo, surgiram três escolas de pensamento. Existem
aqueles que respeitam o novo acordo. Existem aqueles que não respeitam o novo
acordo e permanecem fiéis à antiga ortografia.
- E depois existem aqueles que estão de acordo
com o acordo e em desacordo com o acordo, escrevendo a mesma palavra de duas
formas distintas, consoante o estado de espírito e às vezes na mesma página.
- Disse três escolas? Peço desculpas. Pensando
melhor, existem quatro. Nos últimos tempos, tenho notado que também existem
portugueses que escrevem de acordo com um acordo imaginário, que obviamente só
existe na cabeça deles.
Adiante, João Pereira Coutinho ressalta:
- Felizmente, não estou sozinho nestas
observações: Pedro Correia acaba de publicar em Portugal Vogais e Consoantes
Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico (Guerra & Paz, 159 págs).
Atenção, editores brasileiros: o livro é imperdível.
E por aí vai o JPC. Seu artigo merece ser lido
por inteiro. Precisa ser lido. É uma crítica perfeita a essa imposição e
empostação acadêmica, empurrada pela goela abaixo dos patrícios brasileiros,
portugueses, angolanos, cabo-verdenses, moçambicanos. Mais a gente de
Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, todos falando e escrevendo seu
português com sotaques e cacoetes legítimos e deliciosos. Às vezes, engraçados.
Carlos Peixoto, diretor de redação de TN, acaba
de chegar de uma viagem por Portugal, o que ele faz quase todos os anos.
Gentilíssimo, me trouxe de Lisboa o último livro de Antonio Tabucchi (aliás, edição
póstuma), escritor italiano que traduziu Fernando Pessoa, levando a sua poesia
para a Itália. Título do livro Viagens e outras viagens, com o selo da Editora D.Quixote, tradução de Maria da Piedade Ferreira,
a companheira do escritor.
Pois bem, já que estamos papeando sobre acordos,
desacordos e abortos ortográficos, vale destacar aqui, a ressalva que a D.
Quixote faz na ficha catalográfica do livro: Por vontade expressa dos
herdeiros do autor, a tradução respeita a ortografia anterior ao actual acordo.
Aliás, nessas viagens de Antonio Tabucchi pelo
mundo há uns desvios e paragens pelo Brasil. Como diria aquele meu amigo
paraibano, de Cuité, pense num livro gostoso de ler, este do Tabucchi.
@@@
NOTAS DO EDITOR:
Coloquei o mapa como provocação. Sou pelo
acordo. Admiro e sou amigo de Woden Madruga, que considero o maior cronista do
Brasil da atualidade. Outro grande jornalista que é contra: Moacir Japiassu,
que escreveu os principais romances sobre as “revoluções” brasileiras no século
passado: a de 30, Concerto para Paixão e Desatino; e a de 64, Quando
Alegre Partiste.
Curiosamente, Woden, que tem mais de meio século
de crônicas diárias, teima em não publicar nenhum livro.
* Jornalista e colunista do jornal Tribuna do Norte
de Natal/RN
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