No dia do professor, todo prefeito é Wandernilson
* Por
José Ribamar Bessa Freire
O assalto vai acontecer daqui a pouco, alguns parágrafos abaixo. Ele é
tão inevitável como a chegada do dia e da noite. E vai acontecer, com certeza,
porque a onda de assaltos já faz parte da rotina do ônibus da Linha 388
Carioca-Santa Cruz, da Viação Algarve, que atravessa diariamente, em frequentes
viagens, a Zona Oeste do Rio, num trajeto de mais de 40 kms. Os assaltos,
absolutamente previsíveis, acontecem um dia sim e outro também. O inusitado,
porém, é que, desta vez, um aluno vai assaltar sua professora. Aproveito o Dia
do Professor para contar tudo.
Por enquanto, acompanhemos Alice, 55 anos, até o terminal. São três da
tarde, ela embarca no ônibus, como faz habitualmente e, naquela hora, consegue
assento num banco de trás. O busão percorre ruas do centro, sacolejando, cata
um passageiro aqui, outro ali e, quase lotado, entra na Avenida Brasil. Na Zona
Portuária, no ponto do Cemitério do Caju, sobem dois jovens menores de idade,
um com corte moicano no cabelo, o outro, sem os dentes superiores, com a "comissão
de frente" avariada.
Na parada seguinte, em Manguinhos, entram mais pessoas, entre elas um
rapaz com tênis, bermuda cáqui, camisa xadrez e boné azul cuja aba dobrada para
baixo meio-que esconde seu rosto. Na altura do Hospital de Bonsucesso, ele assume
o comando da operação, aponta a arma para o motorista - uma pistola calibre 40
- e anuncia o assalto com o ônibus em movimento, enquanto lá atrás o Moicano
ameaça o cobrador com outra arma. Está tudo ensaiado, sincronizado.
A uva do Ivo
Momentos de pânico. Uma gordinha sentada na janela começa a gritar,
acordando seu vizinho que cochilava. O assaltante De Boné, lá na frente, sem
tirar o olho do motorista, ordena que o Desdentado, no meio do ônibus, dê uma
porrada na gordinha, que leva um tabefe e engole o choro. Ele avisa que se
reagirem joga gasolina no ônibus, toca fogo e mata todo mundo.
- "Essa voz eu conheço" - pensa Alice, aterrorizada,
diminuindo de tamanho como se tivesse caído na toca do coelho. Os assaltantes
estão nervosos, um deles com a arma engatilhada, faz pressão, ameaça,
barbariza. Enquanto a gordinha disfarça o soluço contido, o Desdentado desliza
pelo corredor do ônibus com uma sacola, prospecta bolsas e mochilas dos
passageiros recolhendo pertences: dinheiro, celulares, smart phone, relógios,
aliança, cordão, todo tipo de joia e até um notebook.
- Atira naquele que esconder alguma coisa - ordena o De Boné e, uma vez mais, Alice desconfia
que aquela voz lhe era familiar.
O ônibus segue acelerado, sem parar. Deixa para trás Penha, Irajá,
Parada de Lucas e Vigário Geral, ultrapassa o Trevo das Margaridas, Coelho
Neto, Guadalupe e Ricardo de Albuquerque. A viagem dura uma eternidade. Quando
avalia que não há nada mais a roubar, De Boné levanta a aba e dá ordem pro
motorista parar próximo ao Morro do Mata Quatro. É aí que Alice, vendo a cara
do assaltante, dá um grito lancinante, que ecoa dentro do ônibus e se propaga
pela Avenida Brasil, do Caju até Itaguaí:
- Wanderniiiiiiilson!
O Ivo, enfim, viu a uva! A professora, agora aposentada, reconhece seu
ex-aluno do turno da noite, que havia aprendido a ler com ela numa classe de
alfabetização da Escola Municipal Nova Holanda, no Complexo da Maré, o maior
agrupamento de favelas do Rio, localizado na Zona Norte. Seu grito é lido pelo
ex-aluno como uma censura, como se ela dissesse: - Não, não pode ser! Você não,
Wanderniiiilson! Qualquer outro, mas você não! Não diga que meu trabalho foi
inútil, Wanderniiiiilson!
Na troca de olhares, Wandernilson reconhece a mestra, provavelmente a
única pessoa, além da mãe, que o chamava pelo nome de batismo e que lhe havia
dado, com as letras, alguma migalha de atenção e de afeto. Ela conservava a
moral e a autoridade de mãe, que uma boa professora sempre tem, capaz de
derrotar as armas. ‘Pereba’, assim ele era conhecido, envergonhado, ordenou aos
seus parceiros:
- Sujou! Sujou! Devolve tudo.
Escola do Amanhã
O ônibus prossegue sua viagem, passando por Deodoro e Magalhães Bastos,
enquanto os assaltantes vão devolvendo os pertences subtraídos, numa operação demorada
que exige a identificação de cada passageiro:
- De quem é esse relógio? Quantos reais a senhora tinha? E esse
celular?
Concluída a restituição, Wandernilson, o Pereba, bastante constrangido,
pede desculpas à sua mestra e - alô, alô, professora, aquele abraço! - desce na
altura de Realengo, provavelmente para atacar outro ônibus. Os passageiros,
alguns dos quais já haviam sido assaltados várias vezes, aplaudem a mestra.
Alice, mesmo aposentada, atuou no projeto Escola do Amanhã, cujo
objetivo é reduzir a evasão das escolas da rede municipal localizadas em áreas
de extrema violência. Acompanhou ainda o funcionamento da biblioteca popular
Lima Barreto, em Nova Holanda, na Maré, que abriu um espaço dedicado às
crianças, como se estivesse no País das Maravilhas. Por isso, decidiu cursar
Biblioteconomia na UNIRIO, onde foi minha aluna de Comunicação, quando narrou
em sala de aula esse fato.
As manifestações de professores, as condicões de trabalho e os salários
aviltantes da categoria me fazem pensar que todo prefeito é Wandernilson. É e
não é. É porque ao longo do mandato, prefeitos e governadores assaltam seus
ex-mestres. Mas não é, porque quando em suas assembleias os professores gritam:
- Wandernilson! - o poder público raramente volta atrás, não manifesta o
mesmo respeito que o assaltante demonstrou à sua professora. Neste caso, o
assalto continua, porque falta aos poderosos a grandeza de um Wandernilson. São
mesquinhos.
Lembrei-me da Alice - embora agorinha não tenho mais a certeza de que se
chamava Alice - quando vi a foto da professora de matemática Virginia Azambuja
que protestava contra o prefeito do Rio Eduardo Paes nesta quinta-feira, ao
lado de milhares de colegas. Na barreira policial, ela encontrou seu ex-aluno,
o PM Ronny Pessanha. Os dois se abraçaram. Que esse abraço se traduza em mais
diálogo.
P.S.1 Wandernilson é com W e não com V - me advertiu Alice, quando
relatei aqui o fato pela primeira vez, sem tantos detalhes. (Odeio a escola - http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=116).
Fica aqui a correção.
P.S.2 - Alguns estão vivos, outros já se foram. Orígenes Martins, Carlos
Eduardo Gonçalves, Mercedes Ponce de León, José Braga, Hilda Tribuzzi, Isis
Falcone, Garcitylzo Silva e tantos outros professores do curso pedagógico do
velho IEA - Instituto de Educação do Amazonas, o Wandernilson aqui vos agradece
por tudo neste Dia do Professor. Eu podia estar roubando, eu podia estar
matando, mas estou aqui fazendo malabarismo com palavras, graças a vocês, que
me transmitiram o amor pela sala de aula.
*
Jornalista e historiador
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