quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Cara,  cadê meu enredo?

* Por Fernando Yanmar Narciso

Todos já nos cansamos de ouvir desde que a TV foi inventada que, no fundo, novela é tudo igual. Basta mudar os nomes dos personagens, algumas localidades e motivações e já temos um produto com cheirinho de novo para oferecer à audiência, que mesmo cientes da previsibilidade dos desenrolares da trama, permanecerá disposto a ficar sentado na frente da tela por sete ou oito meses até que os antagonistas recebam seus cascudos finais e o casal principal viva feliz para sempre... Ou até que saiam os papeis do divórcio.

Mas será que “novela é tudo igual” mesmo? Para tentar comprovar ou derrubar essa famosa tese, resolvi criar minha própria “pseudo-sinopse” experimental, misturando nesse artigo trechos de várias novelas famosas, fora de ordem cronológica e contexto, mudando apenas nomes de personagens e localidades, como expliquei acima, e tentando dar alguma coerência à calamidade. Leiam atentamente e me digam no final se não ficou aquela sensação de dejá- vu...

UMA FÁBULA MUITO COMPLICADA

Nossa, por assim dizer, novela tem início na década de 1970. Heroína Araújo, uma moça de família humilde, está de casamento marcado com o jogador profissional de bilhar Mocinho de Freitas, que por sua vez mantém um caso às escondidas com Traíra, irmã caçula de Heroína. O que ele sequer desconfia é que, uma noite após sua consagração como maior campeão de bilhar do país, vencendo o lendário jogador Ruy Chapéu numa partida acirradíssima, ele acaba engravidando as duas numa comemoração regada a álcool, drogas e Os Mutantes na vitrola. Passam-se alguns meses e a barriga das duas cresce, com Traíra tendo sido expulsa de casa por ter inventado a história que foi o dono do botequim quem a engravidou. O pai das duas, Cegueta, vai tirar satisfações com o homem e acaba matando ele a tijoladas na frente de todo o bairro, indo parar na cadeia, como qualquer injustiçado de novela.

Na noite do casamento, Traíra, aparentemente arrependida por ter enganado a própria irmã por tantos anos, resolve contar aos dois que também está grávida de Mocinho, em plena hora do “sim”. Num ataque de histeria, Heroína pisoteia o buquê, rasga o vestido com os dentes e se engalfinha com a irmã no altar diante de todos os convidados. Depois de ser contida pelo ex-noivo e pela mãe, Heroína, desvairada, vai embora da igreja e nunca mais é vista. Como você já deve ter manjado, era tudo um plano de traíra, que é completamente obcecada por Mocinho e não podia suportar a idéia de ver seu amado se casando com outra. Andando sem rumo pelas ruas do Rio, Heroína acaba sendo adotada por uma família de mendigos que vivem embaixo de um viaduto. Passam-se os meses e ambas as crianças nascem: Traíra, já casada com Mocinho, dá a luz a Murilo José, enquanto Heroína, agora usando o pseudônimo Maria Vendeta, dá a luz de maneira sofrida debaixo da ponte a Justinho, jurando algum dia colocar tudo em pratos limpos com a irmã, o ex-noivo e o resto da família.

Passam-se dez anos. Vendeta/Heroína conseguiu ascender miraculosamente por seus próprios méritos, retirando sua família adotiva das ruas e construindo com ela um inovador serviço de lava-rápido nos semáforos, tirando muitos outros jovens de rua do mau caminho. Porém, apesar do nome, Justinho de justo não tem nada. Posa de jovem de boa índole para a mãe, mas é o rei do bullying no colégio e nos negócios da mãe em segredo.

Traíra, por sua vez, não teve melhor sorte. Um ano após se casar com um relutante Mocinho, seus problemas de hérnia de disco o forçaram a abandonar a carreira de jogador de bilhar, e ainda hoje eles vivem com a família Araújo no Morro do Turano, tentando tirar seu sustento de bicos e um ou outro negócio moralmente questionável. Murilinho, apesar de ser um menino do bem, não serve para muita coisa além de jogar Atari na casa do vizinho, ler revistinhas do Zé Carioca e torcer pro Flamengo. Depois de liberado de sua estadia na prisão, Cegueta adoeceu de gota e não serve pra muita coisa em casa... Além de parecer irresistível aos olhos de Fulaninha, a vizinha do lado... E para Carlinhos Epaminondas, filho adolescente dela. Dona Romaria, mãe das irmãs, é forçada a tentar sustentar o bando de vagabundos da família sozinha, trabalhando como quituteira de dia e como cafetina à noite.

Os destinos de Maria Vendeta e Traíra voltam a se cruzar quando, num dia que mãe e filho estavam num banco, ocorreu de o mesmo ser assaltado pela irmã maldosa, seu marido e seus comparsas! (Lógica de novela, não façam perguntas) Traíra só percebe com quem voltou a lidar quando faz todos no banco de reféns e seus olhares se encontram no meio da multidão. Em mais uma hilariante conveniência, a bandida percebe que o seu filho e o da irmã são praticamente gêmeos, e começa a pensar numa forma de se aproveitar dessa descoberta. Enquanto as irmãs discutiam acaloradamente diante de todos, infelizmente a bomba que Mocinho planejava usar para abrir o cofre sofre um curto-circuito e causa um enorme incêndio no prédio!

Quase todas as vítimas saem gravemente feridas do incidente, e as irmãs acabam sendo internadas- adivinhem só!- no mesmo quarto do hospital, onde passam o dia se destruindo verbalmente e irritando todo mundo no pavilhão. Já recuperadas, voltam aos seus afazeres. Traíra volta à vida de crimes decidida a sequestrar o filho de Heroína e colocar Murilinho no lugar dele, como se isso fosse de algum modo arruinar a vida da irmã e, de acordo com o maniqueísmo folhetinesco, ela julgasse que Justinho fosse tão careta quanto a mãe. E só pra variar, quando já podia andar novamente, Mocinho aproveita um dia que sua mulher estava sedada para contar para Heroína que tinha se arrependido amargamente por tê-la traído e se casado com Traíra, deixando no ar que ainda é apaixonado pela ex.

E, só pra variar, todos os grandes, médios e pequenos conflitos da trama serão resolvidos de maneira quase mágica e absolutamente atropelada nas últimas duas semanas no ar. Sucesso garantido!

*Designer e escritor. Sites:


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