O santo e o mau português do Papa
* Por
Urariano Mota
O amigo leitor creia, por favor, que não é má vontade do colunista. Mas
depois de ver, ler e ouvir elogios ao português do Santo Papa Francisco, fui
observá-lo na televisão hoje à tarde e pude escutar palavras parecidas com o
som da língua portuguesa. Problema de dicção, ou dicción, pensei. Ia deixar pra
lá. No entanto, vi que a corda, a corrente engrossava, porque de mera impressão
simpática, começou a ganhar foros de verdade a impressão de que o Papa, ah, o
Papa, fala muito bem o português.
Então passei os olhos nos seus discursos no Brasil. No primeiro deles,
Ele começa com acerto a sua fala, com uma saudação que honra os novos tempos:
“Senhora presidenta, Ilustres autoridades, Irmãos e amigos!”.
Hosana. Viva. O gênero da nossa presidenta Dilma foi muito bem usado, até para
desespero dos gramáticos mais conservadores à moda FHC. Mas mais adiante,
danou-se. Em vários pontos do seu primeiro discurso, o Papa atravessa uma
indecisão entre repetir o Conselheiro Acácio ou cair na prisão da Casa Verde,
onde eram internados os loucos de O Alienista de Machado de Assis. Como neste
passo: “A juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo”. Bom,
se a questão é de idade, o Santo Papa deveria até ser um pouquinho mais
rigoroso, deixando a porta do futuro para os bebezinhos que agora nascem. Mas o
evento é a Jornada Mundial da Juventude, não é? Então vamos.
Eis o que o santo enviado sapeca no primeiro parágrafo da sua fala, em
um improviso por escrito:
“Quis Deus na sua amorosa providência que a primeira viagem internacional
do meu pontificado me consentisse voltar à amada América Latina, precisamente
ao Brasil, nação que se gloria de seus sólidos laços com a Sé Apostólica e dos
profundos sentimentos de fé e amizade que sempre a uniram de modo singular ao
sucessor de Pedro...”.
Ufa, que primeiro parágrafo, amigos. É como um trem que descarrila rumo
a lugar nenhum, num comboio de palavras que se precipitam para o nada. Meus
amigos, o Papa tem que mudar urgente de ghost writer. Ou, para manter a
respeitosa liturgia, arranjar uma outra alma que O salve. O início do seu
primeiro discurso é intragável. Mas a continuação foi pura conversa pra boi
dormir. Imagino que o magnífico padre Vieira deve ter ficado aos vômitos lá no
céu do pensamento, ao ouvir as palavras da Sua Santidade. Paciência, não
devemos esmorecer, vamos para outro discurso. Ouçamos o Papa:
“Esta minha visita outra coisa não quer senão continuar a missão
pastoral própria do bispo de Roma de confirmar os seus irmãos na fé em
Cristo...”
O que é isso? Releiam. Ele fala contra ou a favor da Santa visita? A
dupla de preposições do e de se perde entre adjetivos, numa frase
que está mais para latim de burocrata, pelo encadeado sem misericórdia ou
respiros de abençoadas pausas. Não, isto não é português:
“...em Cristo encontram as respostas para suas mais altas e comuns
aspirações e podem saciar a fome de verdade límpida e de amor autêntico que os
irmanem para além de toda diversidade... pois sabe que energia alguma pode ser
mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando
conquistados pela experiência da sua amizade.”
Ou aqui, se me perdoam a generosa transcrição:
“o jovem Francisco abandona riquezas e comodidades do mundo para
fazer-se pobre no meio dos pobres, entende que não são as coisas, o ter, os
ídolos do mundo a verdadeira riqueza e que estes não dão a verdadeira alegria,
mas sim seguir a Cristo e servir aos demais; mas talvez seja menos conhecido o
momento em que tudo isto se tornou concreto na sua vida: foi quando abraçou um
leproso....”
O Papa Francisco fala uma nova língua, cheia de lapsos. Quando há um
ponto, ele interrompe o fluxo do pensamento, em lugar de ser a conclusão de uma
frase. Olhem:
“Abraçar. Precisamos todos aprender a abraçar quem passa necessidade,
como são Francisco. Há tantas situações no Brasil e no mundo que reclamam
atenção, cuidado, amor, como a luta contra a dependência química.
Frequentemente, porém, nas nossas sociedades, o que prevalece é o egoísmo. São
tantos os ‘mercadores de morte’ que seguem a lógica do poder e do dinheiro a
todo custo!”.
O Papa desconhece o valor das conjunções, até mesmo a infernal regência
dos verbos:
“.... a igreja não está longe dos esforços que vocês fazem. Ela lhes
acompanha com carinho. O Senhor está ao lado de vocês e lhes conduz pela mão.”
Em resumo, jovens, não sigam o português do Papa. É fria. Esse Deus do
Papa não é brasileiro.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici e “Soledad no Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
O gestual dele foi impecável, e transmitiu muito bem sua intenção. Deve ter usado bastante deste artifício para evitar os já inevitáveis mal entendidos da língua. Ouvi pouco, e não tinha percebido tantos lapsos.
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