Os bichos que eu tive
* Por Risomar Fasanaro
Gosto muito dos animais, e os
cachorros foram durante muito tempo os animais domésticos de que mais gostei.
Quando éramos crianças: Paulo, Rômulo, Mércia e eu tivemos nosso primeiro
cachorro. Não-se-diz era um cachorro preto, enorme e... Bem, não
tenho tanta certeza, porque éramos tão pequenos que ele era maior que todos
nós. Além de grande, era dócil. Dócil e
feliz. Estava sempre abanando o rabo em volta da gente. Apanhando alguma coisa e nos trazendo pra agradar.
Era todo preto e quando saíamos
pela Vila Militar em Socorro, onde morávamos, era comum as pessoas nos
pararem só pra perguntar: “como é o nome desse cachorro?” e quando
inocentemente respondíamos, elas riam e diziam: “mas digam, quero saber... “ E
a gente insistia no “Não–se-diz”.
Engraçado: não me lembro como ele
morreu. Provavelmente mamãe mandou enterrá-lo em algum lugar escondido da
gente. Ela achava que crianças deveriam ser poupadas das tristezas. Mas
não adiantou, porque a tristeza em nossa casa se instalou de tal forma,
que uma noite um primo nosso chegou do Recife com uma caixa de
sapatos, colocou-a no centro da sala, no chão, chamou todos nós e nos mandou
abrir.
Quando um de nós tirou a tampa da
caixa, a sala se encheu de exclamações: “que lindo! que bonitinho!”, mas a
expressão mais repetida foi: “é meu”, “é meu” , “é meu”, “é meu” –
isso mesmo: quatro crianças sem-cachorro, ensaiando o que hoje tantos adultos
fazem quando não têm algo: se apropriaram daquele bichinho de pêlo marrom. E
durante treze anos, o amamos tanto que logo, logo, ninguém se
intitulava dono dele. Isso foi muito antes de a
dona Zílbia Gasparetto escrever
seu famoso livro “Ninguém é de Ninguém”. E um de nós, não me lembro
quem, deu a ele o nome de Pulique. Nunca soube de onde se tirou nome tão
estranho.
Mas ao lado de Pulique, que era
pastor alemão, tivemos vários outros cachorros, sempre vira-latas, sempre
abandonados. Um dos que mais gostei foi Baião que andava todo se
rebolando. Outro foi o de uma vizinha que foi atropelado. Quando voltava da
escola, vi o cão ferido, com as patas traseiras quebradas, jogado à beira da
estrada.
Corri até à vizinha e ela disse
que não iria buscá-lo, que podia deixá-lo morrer. Perguntamos se ela nos daria
o cachorro, se fôssemos buscá-lo, e ela deu, então levamos um cobertor velho e
o trouxemos para casa naquela maca improvisada.
Minha mãe preparou uma mistura de
breu, clara de ovo e farinha de trigo. Colocou
aquela mistura em um pano e
“engessou” os quadris do Baião. Assim ele ficou em um caixote durante dias e
dias até que percebêssemos que o (im)paciente já estava pronto para
novas aventuras.
Aquele cachorro foi minha paixão
durante muito tempo, mas um dia morreu, e para ele fizemos um enterro digno.
Aliás, todos nossos cães eram enterrados com nossa presença, nossas lágrimas e
algumas poucas flores que conseguíamos naquela terra tão seca.
Pulique o mais querido, que até
trouxemos para São Paulo quando viemos, além de toda a cerimônia de
sepultamento, foi fotografado durante todo o enterro, pelo meu irmão Rômulo.
Temos até hoje essas fotos. Além dos cachorros, havia no imenso quintal
galinhas, perus, patos, gansos, coelhos e dois jabutis: o maior era
Burocracia em. homenagem à Mafalda, a Quino, seu criador, e o
menor se chamava Democracia, em homenagem a Garrastazu Mèdici, pois isso foi na
época da ditadura.
Quem pensar que os animais não
têm espírito, nem sentimentos, nunca prestou atenção a eles. Quando Baião
morreu, ficamos muito tristes, e um mês após sua morte, uma noite minha
irmã e eu íamos à casa de uma amiga nossa quando vimos Baião atravessando a
rua. Na metade do caminho desapareceu. Sumiu no ar. Quem quiser, duvide.
Aconteceu conosco. Uma agarrou a mão da outra e correu de volta pra casa,
morrendo de medo e contando o que vira. Impossível ser ilusão, algo visto por
duas pessoas ao mesmo tempo.
Democracia e Burocracia formavam
um casal apaixonadíssimo. Viviam transando e não se importavam que todos
ouvissem os sons que emitiam quando estavam se amando. Um dia Democracia
amanheceu morta e era de doer,
testemunhar a tristeza, a dor de Burocracia. Ela ia lá perto da
companheira, cheirava, cheirava, e as lágrimas corriam, formando aquelas marcas
molhadas na carinha seca.
Quando retiramos Democracia para
enterrá-la, Burocracia entrou em profunda depressão. Vivia com a carinha
escondida sob o casco, e só a expunha quando por insistência nossa ela comia
algum pedaço de banana. Penalizada com aquela tristeza, doei-a a uma
veterinária que tinha um sítio onde havia outros jabutis para lhe fazerem
companhia.
Aí tivemos um papagaio: Ravel era
meu. Dei a ele o nome de um dos meus compositores preferidos. Minha mãe
ensinou-o a cantar e eu a falar várias frases. Ele imitava minha risada de
forma perfeita, e quando meu pai fazia o café, ele sentia o cheiro e ficava
repetindo: “louro quer café, louro quer café”.
Com medo que ele fugisse, uma
prima colocou uma corrente no pé dele. Uma manhã senti sua falta. Cadê o louro
pedindo café? Procuramos por toda parte, e desolados o descobrimos afogado
dentro da privada do banheiro de empregadas que tinha ficado destampado, do
lado de fora da casa. Ele deve ter caído, e com o peso da corrente, não
conseguiu sair de lá de dentro. Impossível dizer o sofrimento de toda a
família. Ravel era como uma pessoa.
Há pouco mais de três anos, eu
morava em um apartamento térreo e um dia um cachorro vira-lata me adotou.
Entrou no prédio e virou meu segurança de livre e espontânea vontade. Ninguém
podia se aproximar de mim que ele avançava. À noite ficava passeando pelo muro
do prédio, como guarda de presídio. Era lindo. Todo branco, pêlo liso, com uma
mancha preta no olho esquerdo, igual aos piratas das histórias e dos filmes de
aventuras. Batizei-o de Fidel, em homenagem ao Castro.
Um dia Fidel sumiu. Todo o
pessoal da rua se movimentou para encontrá-lo, mas ninguém conseguiu trazê-lo
de volta. Nunca soube o que aconteceu com ele, mas provavelmente foi roubado.
Da condição de abandonado passou a ter o
status de um cão raro, querido, amado por toda a vizinhança que pra meu
desgosto o chamava de Felipão, em homenagem ao técnico de futebol.
Ouço sempre pessoas reclamando de
animais: “fui à casa de fulano, tinha cheiro de xixi de cachorro, o gato de
sicrano me arranhou... “ Nossos animais nunca ficaram dentro de casa, por isso
nunca tivemos problemas dessa natureza. Depois de Fidel,
nunca mais quis ter nenhum outro animal. Meu coração não agüenta mais sentir
saudade.
Agora, que moro no 12° andar,
tenho um relógio que marca o tempo com o canto de aves brasileiras, gravadas
por Dalgas Frisch. Cada hora um canto diferente. Quanto mais luz, mais alto
fica o canto. É lindo. Então sei que às 17h o Jaó canta. Vocês conhecem o canto
do Jaó? É triste em demasia. Por isso,
quando se aproxima a hora de ele cantar, deixo a sala na penumbra para que o
canto fique bem baixo, e eu quase não o escute, pois me dá saudade do café que meu pai fazia, pra tomar com o cuscus de
milho feito por minha mãe, justinho nessa hora.
Mas ainda tenho animais
domésticos sim. Por enquanto são só três: Eles não fazem nada que
provoque reclamação. Não gritam, não fazem xixi nos sofás, não arranham as
visitas. Trabalho? Nenhum... Só troco a água com açúcar todos os dias, para que
não fiquem com feridinhas na garganta. Mas em compensação, quanta beleza,
quanto encantamento, quanta poesia eles trazem à minha
vida. Quando aparecem ninguém fica indiferente. Todos param de falar
para vê-los. E todos se encantam com meus três beija-flores: Beethoven,
Stravisnky e Otávio.
*
Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora
de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de
Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e
José Louzeiro.
Os animais nos tornam mais humanos.
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