* Por Rubem Costa
Após a publicação de Fernão Capelo Gaivota, Richard Bach escreveu Longe é um Lugar que não Existe, livro que como os demais não tem grande valia, mas no título sugere um exercício de meditação. Reflexão sobre o homem mergulhado nas distâncias infinitas do universo que dele faz um ponto perdido no imensurável; uma ponderação sobre o ser que por ter vida e se movimentar, obviamente necessita de espaço e tempo para agir numa fronteira sem limites que lhe permita sonhar. Uma muralha movediça que lhe propicie, em sua vaidade, sentir-se centro do mundo. Condição precária que lhe dá, entretanto, a veleidade de medir tudo que existe a seu redor a partir de si mesmo. Para tanto, conceitua o espaço — onde o longe é a distância que vai de seu umbigo ao ponto extremo que seu passo cansado almeja alcançar, enquanto perto é o lado da ponte a que de um salto pode chegar. É uma mensuração que tem por força geradora a magia dos efeitos que permeiam os caminhos indefiníveis do sonho. É isso, desde o momento que veio ao mundo o homem, diante do inexplicável, inventa uma causa para justificar o resultado. Sente o efeito: o trovão que estronda, a chuva que cai, o raio que fere, o vento que sopra, o mar que roreja, o fogo que queima, o sol que ilumina e a lua que traz suavidade à noite, mas ignora as origens.
Quando a brisa perpassa, percebe o seu ciciar, porém igualmente não sabe de onde vem e se espanta com o mistério. Daí, o espírito, curioso diante do enigma, fica com medo, cria fantasmas. Erige-se a mitologia. Surgem os deuses como existências concretas. Jogo dos contrários.
A mente leva o perto para o longe que no vácuo reflui e se instala no íntimo do homem, onde ambos passam a coexistir na geografia do espírito e na cronologia das idades. Para amparar as angústias criam-se os santos escondidos nos páramos sem fim. Compõe-se a ideia do longe que gera o seu antônimo, o perto. Distante ou próximo é o espaço intemporal em que as coisas se agitam. Os poetas sabem disso.
“Perto estou de ti tão longe embora”, já dizia Goethe há dois séculos, traduzindo a ternura do coração ardente enquanto procurava acomodar na mente a imagem cambiante da amada distante. Anseio de visualizar no espaço indefinido — o longe — a figura eternizada dentro do perto definido — a casa vazia. Colóquio com a ausente abrigada na memória. Rasgo psíquico que acomoda no vértice da emoção o tempo e o espaço. Poema antigo que atravessando os anos, derrubou o calendário, mudou de continente e aportou na música popular brasileira, embarafustando-se no samba canção que acalentou dolente a juventude de minha geração: “Que saudade nesta solidão, ela tão longe, distante dos olhos, mas perto do meu coração!”
Era assim que cantava o aedo Francisco Alves, sem perceber que estava a recompor no interior do ser o exílio do homem só. Abandono que redesenha na mente abismada o paradoxo, a geografia do tempo e a cronologia do espaço. Confusão que pela anástrofe das emoções o ser se surpreende muitas vezes a proclamar pelo avesso a negação da presença: “Longe estou de ti tão perto embora!”
Deste contrário, não há exemplo mais trágico que o drama da Crucificação. Aconteceu em Jerusalém, numa noite de luar quando, à sombra das oliveiras do Getsêmani, Iscariotes se aproxima de Jesus, lhe dá o ósculo da traição e o aperta num abraço ao peito, abrindo para o Mestre a estrada do Calvário. Nunca um homem tão perto da salvação se colocou tão longe de Deus.
Ao reverso, logo depois, outro ser, o bom ladrão, até então escória da sociedade, marcado de crimes, carregado de condenações, no alto do madeiro onde está acrisolado, olha para companheiro ao lado que sangra em outra cruz pregado; intui a injustiça e diante da turbamulta delirante proclama a divindade do Inocente. Nunca um homem, até ali tão longe de Deus, chegou tão perto do céu.
Inobstante, na dicotomia do perto e longe, entra também a face escura do sentimento que explica a história milenar do adultério. Crônica que, vindo do começo do mundo, se insere no Velho Testamento, onde Samuel conta o romance de Bath-Sheba, filha de Eliam e mulher de Uriá, o hetita, a qual (enquanto o marido estava tão longe, combatendo pela pátria) deitou-se com David, o rei, no leito da delícia que estava tão perto. Tudo porque, de sua janela, o monarca a vira tomando banho. “Ela acabava de se purificar de sua impureza” diz a Bíblia textualmente, e “depois do coito voltou para sua casa”.
De outro lado, haveis por certo de não ignorar a Ilíada de Homero que canta a guerra de Troia que irrompeu por razão de Helena, mulher de Menelau, o grego, (quando o esposo estava ausente) ter-se apaixonado por Páris, o troiano, que estava tão próximo, eventualmente junto dela – no palácio. Igualmente, sem dúvida, não tereis esquecido o célebre romance que eletrizou a França no século 19 — “la Dame aux camélias” — escrito por Dumas (filho), nem tão pouco tereis olvidado a Luiza que Eça de Queiroz consagrou no Primo Basílio, sempre no mesmo jogo do claro e escuro. O conflito da presença com a ausência. O ser desprezando o distante por causa do próximo.
Todavia, nem o grego, nem o francês, nem o português, ninguém soube interpretar com mais perícia e argúcia o embate do claro e escuro como Machado de Assis. Na sua astúcia, sublimou o sentimento e sutilmente edificou a dúvida. Vede a descrição que traça de Capitu que casada com Bentinho, o Dom Casmurro, tivera um filho, Ezequiel, circunstancialmente em nada parecido com o presumido pai. Fala o “bruxo”: — “No dia da morte de Escobar (morrera no mar afogado) amigo íntimo da casa, a confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas pouco caladas. Momentos houve em que os olhos fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisessem tragar também o nadador da manhã.".
Por último, para um recado ao autor do livro que abriu a trilha, volto a cuidar da saudade, essa coisa mágica que sussurra à consciência e recorda momentos que se perderam num mundo sem retorno. Saudade, Richard Bach, é refluxo do bem que ficou atrás, o longe que guardado na memória rebenta repentino na emoção, reacendendo na alma fremente a vontade de voltar. Instante virtual que despertando o sonho fala à poesia.
* Rubem Costa é escritor e membro da Academia Campinense de Letras.
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