* Por Daniel Santos
Na hora do recreio, quando Nicinha perguntava o que eu trouxera para o lanche, me divertia secretamente com a cobiça de seus olhos e, de fato, se lhe oferecia um pedaço do bolo ou do sanduíche, ela não recusava.
Por isso, era gorda – diziam. Havia lógica na frase, se bem faltasse compreensão, porque minha amiguinha não comia por mal, e sim por bem: aceitava ofertas dos outros, mas nunca se negou a dividir o próprio lanche.
Abria mão de porções generosas e gostava que elogiassem seus regalos, o que – fui percebendo aos poucos – era a característica mais evidente dela: Nicinha doava-se naturalmente, sem segundas intenções.
Nunca pretendeu ser mais simpática do que era, nunca mendigou amizades. Não mesmo. Embora cordata e doce, tinha personalidade firme, e comia demais justo por isso: seu mundo era bem maior que o nosso.
Ou assim ela entendia. Porque seus gestos eram mais largos; seus abraços, mais quentes; suas palavras, mais compreensivas; sua amizade, mais incondicional; sua caligrafia... ah, que letras bonitas, as de Nicinha!
A professora sempre elogiava e alguns invejosos tentavam imitar, mas impossível escrever daquela maneira tão elegante, à antiga, numa suave inclinação à direita – um estilo comum à época de nossos avós.
E ninguém lhe ensinou a caligrafar tão bem. Tudo mérito dela. Porque a amiga era talentosa, e não só para o afeto. Seus cadernos cheios de decalques, desenhos e papéis de seda nos causavam grande admiração.
Além disso, exalava bem-estar, especialmente depois de comer um pedaço de chocolate. Por mais de uma vez, durante as aulas, observei Nicinha discretamente e constatei: ela estava bem, porque estava em paz.
Por isso, talvez, fosse tão generosa, surpreendentemente generosa, como certa vez em que adoeci e ela me visitou com uma tirrina de sopa de legumes. “Come pra ficar bom”, prescreveu-me. E fiquei bom mesmo!
A moça gorda lá da escola é, hoje, casada, três filhos, bom emprego e, não bastasse, trabalha como voluntária - me disse. Eu não me dedicaria tanto, mas ela... Tudo nela é grande. Nicinha é uma pessoa enorme!
* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.
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