segunda-feira, 1 de março de 2010




A bola conspira por meu coração

* Por Eduardo Murta

Bobagem aquele conceito de que o mundo era redondo e achatado nos pólos. A terra, aos olhos de Luana, era literalmente uma bola. E, quatro em quatro anos, um terreno em ebulição. Tempos de Copa do Mundo. Daí se travestir em guerreira. O rosto partido num verde-e-amarelo tropicalizado. E os cabelos, que só confiava a salões de grife, borrava em tinta de camelô para cair na festa. Até concessões ao cardápio fazia. Saíam o champanhe, a mussarela de búfala regada a tomates secos e rúcula e entravam feijão tropeiro e chope. Com colarinho marcante, por favor.

Não era casual, portanto, que Nando se desse férias exatamente naquele período. Afinal, fizera pacto de convivência com outra mulher. Com a Luana dedicada à magia de dar vida a orquídeas até nas paredes do apartamento. A que, mãos de seda, construía carinhos ora de adormecer, ora de despertar sensual. A dos dedos que passeavam doces pelos enclaves do piano. Os sons imitando passarinhos – fosse dia de turbulência – ou evocando tremores – fosse dia de sobriedade sonolenta.

Mas bastava o primeiro sinal de febre cívica a que tudo desandasse. À mesa do café, abandonava as seções de agenda cultural para devorar, linha a linha, o que tivesse cheiro de grama: as bolhas nos calcanhares do craque, o desatino dos fãs, o desenho torneado das coxas dos atletas. E se entregava por inteiro à magia do futebol, um campo em que a conspiração dos deuses, e não a dos tratados científicos, dava as cartas definitivas. Como ela adorava aquilo.

Em casa, porém, pareciam fazer papéis trocados. Ele, o homem, disposto a esforço zero para compreender a lei do impedimento, ou por que, em lugar dos pés, não recorriam às mãos para levar a bola ao gol. Sequer o espetáculo de devoção das torcidas o comovia. Bestial por demais. E resumia, com acidez cortante: esse tipo de esporte deveria ser plano secundário para quem soubesse juntar mais de duas letras. A mulheres, então, qualquer engajamento soa condenável.

Se esqueceu foi de avisar a Luana e ao acaso, que por capricho o levaria até ela em dia de fila de ingressos. O povaréu abraçando o quarteirão, ele mergulhado no mosaico da banca de jornal. Compenetrado, flutuando no noticiário. Até aquela voz aveludada tocar-lhe os ouvidos, serena. Cantava o hino do clube. Fixou-se nas contrações delicadas dos lábios entoando o bordão. Cílios longos, aciganados. E o queixo em curvas que convidavam. Gamou. Puxou conversa, adoçou conquista. Tudo começou ali.

Nando só não imaginava que a paixão – não dela por ele, mas pelas quatro linhas – ganhasse aquelas proporções, ditando agenda para lá de religiosa. Os programas esportivos ao começo e ao final da manhã, ao início da noite, na virada da madrugada... Ele prendendo amarras em outros portos. Literatura, filmes de arte. Haviam feito pacto de respeito mútuo às predileções individuais, mas os hiatos se dilatavam além da conta. Veio lance capital. Aniversário de namoro, mesa reservada em bar romântico. Ela ausente. Refém da bola.

Ele mergulhou nos livros, tentando esquecer traços de mágoa, mas achando que o inevitável estava batendo à porta. E chegou naquele junho. Computador na internet: Copa. Televisão ligada: Copa. Jornais pela casa: Copa. Diálogos sem nexo: Copa. Viu os livros se assombrando, voando pela sala, no gol do adversário. E Luana, escrava da imagem reprisada, nem o percebeu lacônico: “Vou-me embora”.

Deu falta na manhã seguinte, a mesa do café por ser posta, um dos primeiros carinhos dele. Notou depois a ausência da escova. A prateleira da biblioteca esvaziada. E da foto de férias em Bariloche, marco do amor, só a moldura. Sentiu que excedera. Ligou, o localizou. E ouviu secamente: data e momento do encontro ele marcaria. Nando agendou para dois domingos à frente, mesmo horário da final da Copa do Mundo! Luana não retrucou. Iria.

Sábado anterior, semifinais, cruzou os dedos quando o Brasil entrou em campo. Que a perdoassem. O confronto em 0 a 0, torceu desesperadamente para que o jogador argentino, minutos finais, cara a cara com o goleiro, não errasse. Gol. É ela à janela do apartamento. Grita à morte verde-e-amarela. Se despenteia. Pranteia. É um espantalho em soluços. Afogada em sentimentos partidos. Um sopro solitário na engenhosa conspiração dos deuses.

* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas.






6 comentários:

  1. Acho que pior do que copa do mundo, pois nesse caso, até eu torço. São os "peladeiros" de
    fim de semana que engolem bola no sábado e
    domingo e quando fazem confraternizações fazem
    questão da "Dona Encrenca" no evento.
    Muito bom Eduardo.
    Beijos

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  2. Você captou direitinho essa paixão que o futebol desperta na maioria das pessoas. Parabéns, Murta!
    Beijos

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  3. Dispensa maiores comentários, excelente! Parabéns!

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  4. Eu já fui exatamente assim, mas não encontrei um homem que não gostasse de futebol. Original inverter os papéis tradicionalmente outros. Gostei muito, especialmente da descrição da moça: "Cílios longos, aciganados." Será que esse amor tem jeito? O oposto é simplesmente rotina.

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  5. Há quem ame os furacões, querida Mara. A propósito, a plateia hoje foi majoritariamente feminina, o que sempre honra nossa sensibilidade.

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  6. O esporte é uma excelente válvula de escape. Principalmente o futebol. Já tive minha fase.
    Não sou muito amante de Copa do Mundo. Seria um pecado ?

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