terça-feira, 8 de dezembro de 2009




Um ano sem JB

* Por Risomar Fasanaro


Há um ano o professor João Batista de Andrade, o JB, nos deixava para sempre. E para marcar o aniversario de sua morte, seus amigos de Niterói irão homenageá-lo com algumas atividades no dia 14, às 18h30, bem dentro do espírito do JB: a lavagem das escadarias do Cine Icaraí que é alvo de um movimento para ser tombado, e passar a ser não apenas um cine como também um Centro Popular de Cultura, como aconteceu com o Cine Odeon, na Cinelândia. Essa foi uma das lutas iniciadas pelo JB.

Alguns artistas se apresentarão no evento. Entre eles Ademir, o saxofonista popular do Largo da Carioca, o grupo Espinha de Peixe de Niterói, e o poeta e compositor itinerante Escaramuça, entre outros.

Lendo este título no meu texto, o leitor poderá pensar que se trata de alguém com quem convivi a vida inteira. Um irmão, talvez? Um amigo de longa data? E diria que o leitor se enganou. Só vi JB uma vez. Uma única vez. E não precisou mais para me apaixonar por aquela figura. Mas não pense o leitor que foi paixão de uma mulher por um homem, com desejos. Não, não foi nada disso. Foi um sentimento de amor, daquele amor incondicional que um ser humano sente pelo outro, sem saber por quê. Só vim a saber que ele era muito mais digno daquele sentimento, quando já era tarde demais.

Aquele sentimento que tão bem Ernest Hemingwey falou em Por quem os sinos dobram”, quando ele diz:: não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

Aquele homem não veio pra cá, com sua bicicleta cor-de-rosa por acaso. Com seu jeito anárquico de ser veio nos ensinar que além do corpo o que tem maior valor é o outro. Por isso aquele santo ateu nunca trancou as portas da casa onde morava. E isso, em uma cidade considerada insegura como é Niterói.

JB era professor do segundo grau, de grande tradição em Niterói. Formou milhares de alunos, que certamente se lembram daquele professor meio porra louca e irreverente que tiveram, e sempre com a idéia correta de como se deu a história de nosso Brasil e do mundo. Sempre ao lado dos trabalhadores e dos pobres, mostrando que a miséria é obra dos homens.

Foi professor público de uma cidade que tem um dos maiores índices brasileiros de escolaridade (média) entre os jovens, mas que 75% da rede escolar é particular, havendo um enorme abismo entre o que é oferecido aos 25% mais ricos que as frequentam, e a iniquidade que é oferecida para os 75% restantes (os pobres), aglomerados nos 25% de bancos escolares, com alta evasão e baixa qualidade do ensino e remuneração baixa para os educadores (aliás tal e qual acontece no ensino particular).

JB lutava por uma Niterói humanizada, onde os habitantes e não os negócios fossem as coisas mais importantes. Lutou como ninguém contra a corrupção e nítidos favorecimentos aos empresários que acampam na prefeitura há décadas.

E, o mais importante, que ficou muito claro no seu velório, no Plenário da Câmara Municipal, onde deveria ter estado como parlamentar, e não como morto a ser velado, é que foi o maior formador de consciências políticas em todos os segmentos e setores populares, fato contado por quase todas as cerca de trinta pessoas que se manifestaram junto ao seu corpo.

Esteve em TODAS as lutas dignas dos niteroienses, dos últimos 50 anos.. Foi o precursor da Luta pelo Passe Livre, quando em nenhum lugar do Brasil se falava disso. Foi um dos maiores lutadores por ciclovias viáveis e úteis na cidade, e andava preferencialmente na sua bicicleta cor- de- rosa. Morreu em cima dela, atropelado por motorista infrator e criminoso.

Morreu Atrapalhando o Tráfego!

P.S. - O CEPO JB (Centro Popular João Batista de Andrade) solicita que eu divulgue a agenda dos eventos que encerram o Tributo ao JB - Um Ano Sem o João

Dia 10-Dez - de 7:30 às 9h - Manifestação no Largo do João (Pça. João Batista de Andrade - esquina da Paulo César com Roberto Silveira), com distribuição de panfleto com a programação dos eventos alusivos à data.

Dia 14 de Dez (se chover, vai para o dia 21) - Nas escadarias do Cine Icaraí -Manifestação Pró- Centro Popular de Cultura Prof. João Batista de Andrade (CEPOC JB), e "in memorian" ao JB.

18:30 - Lavagem das Escadas do Cine Icaraí

19:00 - Apresentação de artistas gráficos e capoeira

20h - Show Musical com talentos de Niterói, com a presença do Ademir do Sax, Artista Popular do Largo da Carioca, entre outros convidados.

No final será lançado o Projeto prof. JB, que consiste na sistematização do acervo existente sobre JB e a confecção de um livro sobre o genial morador da cidade, inclusive com Os Casos do João, onde estarão relatos e passagens da sua vida. Quem sabe assim, ano que vem poderemos proporcionar uma renda para os filhos do João, em vez de lembranças (bem-vindas, mas insuficientes) de uma "caixinha natalina" para seus filhos, como foi feito também neste ano.

Dia 21 - 20h - Nas escadarias do Cine Icaraí - Projeção do filme O Petróleo Tem de Ser Nosso, do SINDIPETRO (em fase de consulta com a diretoria).

Dia 24 - NATAL COM FOME

Reunião para Jejum Solidário, a começar ao meio- dia de 24-12 até meio- dia de 25-12, com recolhimento de alimentos para a Ceia dos Pobres, que terá lugar no local à meia- noite, e recolha de alimentos não-perecíveis para distribuição aos Pobres.

CEPO JB (maiores informações no cepojb@gmail.com

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

3 comentários:

  1. Uma pena Risomar...com certeza
    deixou uma lacuna que, dificilmente será preenchida.
    Tanta gente inútil nessa Terra...
    Beijos

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  2. Bela defesa do professor já lendário que, além de conhecimentos, legou aos alunos um modelo de homem, de pessoa grande, graúda. E viva o JB!

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  3. Obrigada Daniel e Nubia, JB realmente é uma pessoa inesquecível.
    Beijos nos dois,
    Ris

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