

Serviço público de qualidade
* Por Rodrigo Ramazzini
O João tinha uma árvore. Era uma árvore alta, com uma copa bastante densa e certa época do ano até dava fruto. Aquela árvore era motivo de orgulho para João, afinal, ele a havia plantado desde criança. Sempre repetia o chavão, batendo na árvore: “Se nesta vida temos que deixar um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, tenho que começar a me dedicar à literatura, porque nos outros dois, modéstia a parte, eu caprichei!” Esse era o João e os seus orgulhos: as três filhas e uma árvore plantada na calçada em frente à sua casa.
O que era motivo de orgulho para João, nos últimos oito meses, tornou-se uma dor de cabeça. Ao assistir uma reportagem na TV sobre os danos que grandes árvores poderiam causar caso caíssem em eventuais temporais lhe causou espanto. Utilizando a razão, concluiu que, era a hora de podar a velha árvore. Apesar da beleza, ele não poderia colocar em risco a vida das pessoas e o patrimônio que tinha construído ao longo dos anos. Comentou a decisão para a esposa e saiu para obter informações sobre como deveria proceder para a realização do serviço.
Deixou a sua casa para dirigir-se até a prefeitura municipal, entretanto, no percurso que fazia caminhando e pensando quem deveria procurar na busca pela informação correta, encontrou com o secretário de obras do município, um velho amigo de infância. Após abraços e breves lembranças, João explicou-lhe o seu drama. Para a sua surpresa, foi prontamente atendido pelo secretário “Deixa pra mim! Semana que vem o meu pessoal estará lá para podar a árvore”. Contente, João girou nos calcanhares e retornou para casa.
Passadas duas semanas, o pessoal da prefeitura ainda não havia aparecido para realizar o serviço. Chegou a pensar em ir até a prefeitura cobrar o serviço, mas resolveu esperar mais um pouco, afinal, a demanda de trabalho de um órgão público é grande. Um mês após o primeiro encontro com o secretário, por acaso, João o reencontra em um aniversário e tem a promessa reforçada “Não me esqueci de ti! È que a correria está grande... Semana que vem estamos lá!”
Dois meses depois do aniversário, e ainda sem a árvore receber a poda, João resolve ir até a prefeitura cobrar uma explicação. Chegando lá, novamente encontra o secretário, que lhe esclarece que não realizou o serviço porque era necessário o velho amigo formalizar a solicitação do serviço. Dentro da prefeitura mesmo, João dirige-se então ao local destinado a oficializar a sua solicitação de serviço. Após descrever para a atendente o que desejava ocorre uma surpresa. João é informado que deve pagar uma taxa de R$ 18,00 pelo serviço de poda, e, como a árvore é considerada de espécie nativa, ele é obrigado a remeter 40 mudas de árvores para a secretaria de Meio Ambiente. Dois dias depois a taxa já estava paga e o número de mudas entregue na secretaria informada. Agora, era só esperar.
A espera durou mais um mês e quinze dias. Foi o tempo que pacientemente João esperou até novamente deslocar-se a prefeitura para saber os motivos que estavam atrapalhando a realização do serviço. Depois de passar por três setores da prefeitura e falar com seis funcionários, João é informado que a poda da sua árvore está programada para o dia 15 do próximo mês. Ele deixa o local contente, afinal, agora já tem uma data, mesmo que tenha que esperar mais um mês e cinco dias para que a poda na árvore seja realmente efetuada.
Decorrido o prazo, eis que chega o grande dia. O sol brilha belíssimo no céu. João acorda cedo, pois mesmo com o sentimento de tristeza, quer acompanhar todos os passos do trabalho. Com o seu chimarrão em punho, ele senta-se à sombra da árvore (talvez a última vez que desfrutasse daquela sombra) para esperar os funcionários da prefeitura. A espera durou o dia inteiro. Ninguém apareceu. Com esperança, ainda comentou com a esposa antes de dormir “Quem sabe amanhã. Quem sabe amanhã!”
Passados quarenta e cinco dias da data marcada para a realização do serviço de poda em sua árvore, João retorna à prefeitura municipal, e, após passar por quatro setores e pedir explicação a oito funcionários, ele descobre que está no meio de um grande debate: qual é a secretaria responsável pela realização do serviço de poda de árvores no município? A secretaria de Obras diz que esse serviço não é competência da pasta. Assim como a de Meio Ambiente. A secretaria de Serviços Urbanos argumenta que esse tipo de atividade era de responsabilidade da pasta de Meio Ambiente na gestão anterior. A Pasta de Meio Ambiente replica que a responsabilidade do serviço era realmente dela, porém era a secretaria de Obras que efetivamente realizava o serviço. Entretanto, a secretaria de Obras contesta a informação e diz que, mesmo de forma precária, quem fazia o serviço era a secretaria de Serviços Urbanos. Estava criado o impasse. Uma reunião de emergência para resolver o assunto foi convocada para dali a trinta dias.
Foi então que aconteceu. Entre esse período de espera da reunião. A meteorologia previu pela manhã e o pior ocorreu no final da tarde: um temporal castigou a cidade. Casas, escolas, estabelecimentos comerciais foram destruídos com a força dos ventos e a chuva. Além de muitos postes de energia elétrica e árvores que foram derrubados pela fúria da natureza. Na casa do João, por força divina, segundo ele, nada foi perdido. O único dano registrado foi na árvore em frente a sua casa. Com a força dos ventos, ela acabou inclinando-se um pouco em direção ao telhado da sua residência. Em virtude do risco que apresentava aquela situação, João tomou uma decisão: iria ele mesmo podar a árvore. Foi até a casa do cunhado e pegou-lhe emprestada a motosserra.
Com a ajuda de um vizinho, ele começou a preparação do serviço. Limpou os arredores da árvore, amarrou cordas para direcionar e sustentar a queda dos galhos e etc. Todas as medidas de segurança para efetuar a atividade foram tomadas pelo João. Pronto, ele finalmente sobe na árvore para começar a poda. Lá do alto, ele avista um carro parado no final da sua rua. Estranhou o veículo estar parado naquele local, porém como não o reconheceu, seguiu o trabalho. Ligou a motosserra e quando finalizou o corte do primeiro galho, o tal carro moveu-se e parou em frente à sua casa. Já com um bloco em punho, dois homens desembarcaram e anunciaram “Fiscalização ambiental! O senhor está multado por corte irregular de árvore nativa!”
Esta é uma obra fictícia e em nada condiz com a nossa realidade.
* Jornalista
* Por Rodrigo Ramazzini
O João tinha uma árvore. Era uma árvore alta, com uma copa bastante densa e certa época do ano até dava fruto. Aquela árvore era motivo de orgulho para João, afinal, ele a havia plantado desde criança. Sempre repetia o chavão, batendo na árvore: “Se nesta vida temos que deixar um filho, plantar uma árvore e escrever um livro, tenho que começar a me dedicar à literatura, porque nos outros dois, modéstia a parte, eu caprichei!” Esse era o João e os seus orgulhos: as três filhas e uma árvore plantada na calçada em frente à sua casa.
O que era motivo de orgulho para João, nos últimos oito meses, tornou-se uma dor de cabeça. Ao assistir uma reportagem na TV sobre os danos que grandes árvores poderiam causar caso caíssem em eventuais temporais lhe causou espanto. Utilizando a razão, concluiu que, era a hora de podar a velha árvore. Apesar da beleza, ele não poderia colocar em risco a vida das pessoas e o patrimônio que tinha construído ao longo dos anos. Comentou a decisão para a esposa e saiu para obter informações sobre como deveria proceder para a realização do serviço.
Deixou a sua casa para dirigir-se até a prefeitura municipal, entretanto, no percurso que fazia caminhando e pensando quem deveria procurar na busca pela informação correta, encontrou com o secretário de obras do município, um velho amigo de infância. Após abraços e breves lembranças, João explicou-lhe o seu drama. Para a sua surpresa, foi prontamente atendido pelo secretário “Deixa pra mim! Semana que vem o meu pessoal estará lá para podar a árvore”. Contente, João girou nos calcanhares e retornou para casa.
Passadas duas semanas, o pessoal da prefeitura ainda não havia aparecido para realizar o serviço. Chegou a pensar em ir até a prefeitura cobrar o serviço, mas resolveu esperar mais um pouco, afinal, a demanda de trabalho de um órgão público é grande. Um mês após o primeiro encontro com o secretário, por acaso, João o reencontra em um aniversário e tem a promessa reforçada “Não me esqueci de ti! È que a correria está grande... Semana que vem estamos lá!”
Dois meses depois do aniversário, e ainda sem a árvore receber a poda, João resolve ir até a prefeitura cobrar uma explicação. Chegando lá, novamente encontra o secretário, que lhe esclarece que não realizou o serviço porque era necessário o velho amigo formalizar a solicitação do serviço. Dentro da prefeitura mesmo, João dirige-se então ao local destinado a oficializar a sua solicitação de serviço. Após descrever para a atendente o que desejava ocorre uma surpresa. João é informado que deve pagar uma taxa de R$ 18,00 pelo serviço de poda, e, como a árvore é considerada de espécie nativa, ele é obrigado a remeter 40 mudas de árvores para a secretaria de Meio Ambiente. Dois dias depois a taxa já estava paga e o número de mudas entregue na secretaria informada. Agora, era só esperar.
A espera durou mais um mês e quinze dias. Foi o tempo que pacientemente João esperou até novamente deslocar-se a prefeitura para saber os motivos que estavam atrapalhando a realização do serviço. Depois de passar por três setores da prefeitura e falar com seis funcionários, João é informado que a poda da sua árvore está programada para o dia 15 do próximo mês. Ele deixa o local contente, afinal, agora já tem uma data, mesmo que tenha que esperar mais um mês e cinco dias para que a poda na árvore seja realmente efetuada.
Decorrido o prazo, eis que chega o grande dia. O sol brilha belíssimo no céu. João acorda cedo, pois mesmo com o sentimento de tristeza, quer acompanhar todos os passos do trabalho. Com o seu chimarrão em punho, ele senta-se à sombra da árvore (talvez a última vez que desfrutasse daquela sombra) para esperar os funcionários da prefeitura. A espera durou o dia inteiro. Ninguém apareceu. Com esperança, ainda comentou com a esposa antes de dormir “Quem sabe amanhã. Quem sabe amanhã!”
Passados quarenta e cinco dias da data marcada para a realização do serviço de poda em sua árvore, João retorna à prefeitura municipal, e, após passar por quatro setores e pedir explicação a oito funcionários, ele descobre que está no meio de um grande debate: qual é a secretaria responsável pela realização do serviço de poda de árvores no município? A secretaria de Obras diz que esse serviço não é competência da pasta. Assim como a de Meio Ambiente. A secretaria de Serviços Urbanos argumenta que esse tipo de atividade era de responsabilidade da pasta de Meio Ambiente na gestão anterior. A Pasta de Meio Ambiente replica que a responsabilidade do serviço era realmente dela, porém era a secretaria de Obras que efetivamente realizava o serviço. Entretanto, a secretaria de Obras contesta a informação e diz que, mesmo de forma precária, quem fazia o serviço era a secretaria de Serviços Urbanos. Estava criado o impasse. Uma reunião de emergência para resolver o assunto foi convocada para dali a trinta dias.
Foi então que aconteceu. Entre esse período de espera da reunião. A meteorologia previu pela manhã e o pior ocorreu no final da tarde: um temporal castigou a cidade. Casas, escolas, estabelecimentos comerciais foram destruídos com a força dos ventos e a chuva. Além de muitos postes de energia elétrica e árvores que foram derrubados pela fúria da natureza. Na casa do João, por força divina, segundo ele, nada foi perdido. O único dano registrado foi na árvore em frente a sua casa. Com a força dos ventos, ela acabou inclinando-se um pouco em direção ao telhado da sua residência. Em virtude do risco que apresentava aquela situação, João tomou uma decisão: iria ele mesmo podar a árvore. Foi até a casa do cunhado e pegou-lhe emprestada a motosserra.
Com a ajuda de um vizinho, ele começou a preparação do serviço. Limpou os arredores da árvore, amarrou cordas para direcionar e sustentar a queda dos galhos e etc. Todas as medidas de segurança para efetuar a atividade foram tomadas pelo João. Pronto, ele finalmente sobe na árvore para começar a poda. Lá do alto, ele avista um carro parado no final da sua rua. Estranhou o veículo estar parado naquele local, porém como não o reconheceu, seguiu o trabalho. Ligou a motosserra e quando finalizou o corte do primeiro galho, o tal carro moveu-se e parou em frente à sua casa. Já com um bloco em punho, dois homens desembarcaram e anunciaram “Fiscalização ambiental! O senhor está multado por corte irregular de árvore nativa!”
Esta é uma obra fictícia e em nada condiz com a nossa realidade.
* Jornalista

Meu cunhado mora em Miguel Pereira na serra...nos
ResponderExcluirfundos do seu quintal tem uma figueira centenária
imensa...ele solicitou sua poda. Não pode, por ser centenária foi "tombada" pertence ao município.
Um pastor cismou de fazer uma igreja na rua
dele, e depois de alguns ajustes e acordos com os órgãos competentes, mais de dez figueiras foram derrubadas...
Vai ver as figueiras eram adolescentes ainda...
beijos
Só não foi mais complicado do que solicitar um serviço da "OI". Lá nessa empresa de telefonia é muito pior. A burocracia vai se emaranhando de tal forma que resolver uma problema aparentemente simples se torna "irresolvível". E para quê? Para obrigar a pessoa a pagar uma propina para tornar as coisas novamente fáceis. Esse é o Brasil.
ResponderExcluirBom rever em tantos detalhes esse nosso eterno problema.
Reparo: " ele a havia plantado desde criança." Não seria melhor " quando era criança"?