

Quantos Ascensos podem existir?
* Por Urariano Mota
Existem várias maneiras de saber o que não é Ascenso Ferreira. Do conjunto dessas maneiras, pela negação, é possível chegar-se à afirmação de um caráter talvez único do que um dia aprendemos a chamar de poesia, arte ou beleza. Mas também, pela afirmação, é possível descobrir uma série de Ascensos. Por exemplo:
Existe um Ascenso anedótico, que no passar dos anos virou uma gordura fria, de placas amarelas e crostas de sebo pelas bordas, que é um desconforto até a lembrança. Esse Ascenso grandalhão, glutão, um selvagem de largura escudado à civilização, que emerge das águas com mal disfarçada coroa de algas e limo, metido em terno frouxo e olhos grados, pidões, é um muro e parede levantados contra o gosto de sua pura e feliz poesia. Nós, os que lhe somos gratos, e que por sorte não caímos na tentação e névoas do seu anedotário, temos de esquecer o riso fácil dos seus causos, de suas piadas à feição e casca-grossa dos pernambucanos, ainda que tais imagens e causos estejam entranhados até nos versos que lhe fizeram uma distorcida fama.
Porque a poesia de Ascenso é vítima da sua fama. Quero dizer, a poesia que se lembra de Ascenso é mãe, pai e filha dos possíveis e imagináveis feitos da caricatura de sua pessoa. O Ascenso lembrado de
“Hora de comer - comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?
Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”
é o Ascenso lembrado comendo , de sobremesa, melancia inteira, ao fim de lauta refeição no langor de uma tarde no restaurante Leite. O Ascenso lembrado enfiando os dedos na goela para vomitar um almoço, porque não poderia ficar sem um banquete na casa de Olegário Mariano, é o Ascenso do mesmo ritmo de
“ – Seu Vigário!
Está aqui esta galinha gorda
que eu trouxe pro mártir São Sebastião!
- Está falando com ele!
- Está falando com ele!” .
Existe um Ascenso alevantado, dignificado, que recebe da crítica generosa um cantinho de reserva na plêiade. Subido ao Parnaso, mas sem direito à canonização do Panteon, esse Ascenso recebe uma dignificação exterior, adjetiva. Uma dignificação que troca a beleza pela ênfase na métrica e ritmo dos versos. Tocando a beleza trocando-a . Certo, hão de dizer, a sua métrica e o seu ritmo são atributos da beleza dos seus versos. Mas o movimento para a ênfase desses atributos já é quase uma dissecação de anatomia, concedam. Ninguém gosta de Leonardo da Vinci por seus conhecimentos de anatomia animal. O que nos interessa, como seres carentes de arte, é o efeito, o produto final.
Existe um Ascenso pernambucano, se nos permitem a rematada redundância. Quem já esteve longe de Pernambuco sabe o que a poesia de Ascenso significa, um abraçar e beijar a terra como num feitiço, saboreando os seus versos encantatórios. Mastigando-os, “ como um fruto passado”. Ruminando-os:
“Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscuz,
‘o home dos caranguejo e dos siri!’
Folha verde – Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...”
(E uma voz irrefreável nos diz, nos interrompe no discurso retilíneo: “repita:
‘babá-do-arroz-doce, sá-biu-dos cuscuz’, isso é dialeto, repita, ‘babá-do-arroz-doce-sá-biu-dos-cuscuz’, isso é um dialeto íntimo, da infância, tem o mesmo cheiro e gosto do café forte na cozinha, isso é um carinho profundo.)
Ler/ouvir
“A vaca Turina,
o cavalo Cachito,
o burro Manhoso,
o cachorro Vulcão”
era retomar nomes que não eram substantivos, eram idéias e visões claras de um paladar, de um gosto, da falta que faz esse gosto. Daí o sabor da fruta além de madura, “passada”. Que diabo a gente veio fazer tão longe? “Eu quero virá arcanfô”, gritava-nos Ascenso. E mais cruel, enquanto a gente olhava da janela do apartamento o mundo da grande cidade:
“Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister de sebo quente em Pierrô!”
Existe um Ascenso a que sempre voltamos, quando já estamos cheios, saturados do outro, o anedótico. É quando também pensamos que estamos apurados, evoluídos – vã pretensão! – de verdades mais altas. Bobos que somos. Ao simples, que é uma expulsão de Demóstenes, voltamos. “Eu começo, atenienses, invocando a proteção dos deuses do Olimpo para os destinos da Grécia”, está certo, isto é do grande Demóstenes, mas para quê tanto? Porque poesia é isto: é um bem permanente. É um bem a que sempre voltamos, como se fosse a primeira vez. A gente lê, vira a página, mas não vira o poema: guarda-o, embora disso não tenha o propósito nem a consciência. Como se estivesse esquecido, o poema resistirá ao tempo, daí o frescor, a primeira vez:
“Ai! que saudade dos bêbados de fim de feira
dos interessantes bêbados de fim de feira
que o imposto de consumo afugentou!”
O poema não está esquecido. Essa aparência de jogado de lado é uma forma da estética do silêncio. Como uma reflexão que cresce calada, na retina do esquecido aparente.
Mas isto já vai ficando cabalístico. Com mais um pouco a gente se enreda a falar em aura, espírito, aragem dos sete anjos. Melhor falar, à maneira de Ascenso, em vento no porto, de madrugada, e assombrações. Melhor concluir, e dizer bem claro, para não fazer com o leitor um comércio de engano, que as linhas escritas até aqui possuíam a intenção de fazer uma moldura para a poesia do poema Noturno. Risquei cadernos, tini xícaras, través de páginas. Para quê? Pra nada.
“NOTURNO”
Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:
— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?
O rio soturno
tremendo de frio,
com os dentes batendo
nas pedras do cais,
tomado de susto
sem poder falar...
o rio tem coisas
para me contar:
— Corre, senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!
olho Das casas fechadas
e mal-assombradas
com as caras tisnadas
que o incêndio queimou
pelas janelas esburacadas
eu sinto, tremendo,
que um de fogo
medonho me olhou:
— Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!
Dos brutos guindastes
de vultos enormes
ainda maiores
nessa escuridão...
os braços de ferro,
pesados e longos,
parece quererem
suster-me do chão!
— Ai! Eu tenho medo dos guindastes
por causa daquele bicão!
Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:
— Larga de ser vagabundo, Ascenso!”
* Jornalista e escritor
* Por Urariano Mota
Existem várias maneiras de saber o que não é Ascenso Ferreira. Do conjunto dessas maneiras, pela negação, é possível chegar-se à afirmação de um caráter talvez único do que um dia aprendemos a chamar de poesia, arte ou beleza. Mas também, pela afirmação, é possível descobrir uma série de Ascensos. Por exemplo:
Existe um Ascenso anedótico, que no passar dos anos virou uma gordura fria, de placas amarelas e crostas de sebo pelas bordas, que é um desconforto até a lembrança. Esse Ascenso grandalhão, glutão, um selvagem de largura escudado à civilização, que emerge das águas com mal disfarçada coroa de algas e limo, metido em terno frouxo e olhos grados, pidões, é um muro e parede levantados contra o gosto de sua pura e feliz poesia. Nós, os que lhe somos gratos, e que por sorte não caímos na tentação e névoas do seu anedotário, temos de esquecer o riso fácil dos seus causos, de suas piadas à feição e casca-grossa dos pernambucanos, ainda que tais imagens e causos estejam entranhados até nos versos que lhe fizeram uma distorcida fama.
Porque a poesia de Ascenso é vítima da sua fama. Quero dizer, a poesia que se lembra de Ascenso é mãe, pai e filha dos possíveis e imagináveis feitos da caricatura de sua pessoa. O Ascenso lembrado de
“Hora de comer - comer!
Hora de dormir – dormir!
Hora de vadiar – vadiar!
Hora de trabalhar?
Pernas pro ar que ninguém é de ferro!”
é o Ascenso lembrado comendo , de sobremesa, melancia inteira, ao fim de lauta refeição no langor de uma tarde no restaurante Leite. O Ascenso lembrado enfiando os dedos na goela para vomitar um almoço, porque não poderia ficar sem um banquete na casa de Olegário Mariano, é o Ascenso do mesmo ritmo de
“ – Seu Vigário!
Está aqui esta galinha gorda
que eu trouxe pro mártir São Sebastião!
- Está falando com ele!
- Está falando com ele!” .
Existe um Ascenso alevantado, dignificado, que recebe da crítica generosa um cantinho de reserva na plêiade. Subido ao Parnaso, mas sem direito à canonização do Panteon, esse Ascenso recebe uma dignificação exterior, adjetiva. Uma dignificação que troca a beleza pela ênfase na métrica e ritmo dos versos. Tocando a beleza trocando-a . Certo, hão de dizer, a sua métrica e o seu ritmo são atributos da beleza dos seus versos. Mas o movimento para a ênfase desses atributos já é quase uma dissecação de anatomia, concedam. Ninguém gosta de Leonardo da Vinci por seus conhecimentos de anatomia animal. O que nos interessa, como seres carentes de arte, é o efeito, o produto final.
Existe um Ascenso pernambucano, se nos permitem a rematada redundância. Quem já esteve longe de Pernambuco sabe o que a poesia de Ascenso significa, um abraçar e beijar a terra como num feitiço, saboreando os seus versos encantatórios. Mastigando-os, “ como um fruto passado”. Ruminando-os:
“Babá-do-Arroz-Doce, Sá-Biu-dos-Cuscuz,
‘o home dos caranguejo e dos siri!’
Folha verde – Deliciosa meninice das gentes de minha terra,
que eu tanto amei e senti...”
(E uma voz irrefreável nos diz, nos interrompe no discurso retilíneo: “repita:
‘babá-do-arroz-doce, sá-biu-dos cuscuz’, isso é dialeto, repita, ‘babá-do-arroz-doce-sá-biu-dos-cuscuz’, isso é um dialeto íntimo, da infância, tem o mesmo cheiro e gosto do café forte na cozinha, isso é um carinho profundo.)
Ler/ouvir
“A vaca Turina,
o cavalo Cachito,
o burro Manhoso,
o cachorro Vulcão”
era retomar nomes que não eram substantivos, eram idéias e visões claras de um paladar, de um gosto, da falta que faz esse gosto. Daí o sabor da fruta além de madura, “passada”. Que diabo a gente veio fazer tão longe? “Eu quero virá arcanfô”, gritava-nos Ascenso. E mais cruel, enquanto a gente olhava da janela do apartamento o mundo da grande cidade:
“Meteram uma peixeira no bucho de Colombina
que a pobre, coitada, a canela esticou!
Deram um rabo-de-arraia em Arlequim,
um clister de sebo quente em Pierrô!”
Existe um Ascenso a que sempre voltamos, quando já estamos cheios, saturados do outro, o anedótico. É quando também pensamos que estamos apurados, evoluídos – vã pretensão! – de verdades mais altas. Bobos que somos. Ao simples, que é uma expulsão de Demóstenes, voltamos. “Eu começo, atenienses, invocando a proteção dos deuses do Olimpo para os destinos da Grécia”, está certo, isto é do grande Demóstenes, mas para quê tanto? Porque poesia é isto: é um bem permanente. É um bem a que sempre voltamos, como se fosse a primeira vez. A gente lê, vira a página, mas não vira o poema: guarda-o, embora disso não tenha o propósito nem a consciência. Como se estivesse esquecido, o poema resistirá ao tempo, daí o frescor, a primeira vez:
“Ai! que saudade dos bêbados de fim de feira
dos interessantes bêbados de fim de feira
que o imposto de consumo afugentou!”
O poema não está esquecido. Essa aparência de jogado de lado é uma forma da estética do silêncio. Como uma reflexão que cresce calada, na retina do esquecido aparente.
Mas isto já vai ficando cabalístico. Com mais um pouco a gente se enreda a falar em aura, espírito, aragem dos sete anjos. Melhor falar, à maneira de Ascenso, em vento no porto, de madrugada, e assombrações. Melhor concluir, e dizer bem claro, para não fazer com o leitor um comércio de engano, que as linhas escritas até aqui possuíam a intenção de fazer uma moldura para a poesia do poema Noturno. Risquei cadernos, tini xícaras, través de páginas. Para quê? Pra nada.
“NOTURNO”
Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:
— Que diabo tu vieste fazer aqui, Ascenso?
O rio soturno
tremendo de frio,
com os dentes batendo
nas pedras do cais,
tomado de susto
sem poder falar...
o rio tem coisas
para me contar:
— Corre, senão o Pai-do-Poço te pega, condenado!
olho Das casas fechadas
e mal-assombradas
com as caras tisnadas
que o incêndio queimou
pelas janelas esburacadas
eu sinto, tremendo,
que um de fogo
medonho me olhou:
— Olha que o Papa-Figo te agarra, desgraçado!
Dos brutos guindastes
de vultos enormes
ainda maiores
nessa escuridão...
os braços de ferro,
pesados e longos,
parece quererem
suster-me do chão!
— Ai! Eu tenho medo dos guindastes
por causa daquele bicão!
Sozinho, de noite,
nas ruas desertas
do velho Recife
que atrás do arruado
moderno ficou...
criança de novo
eu sinto que sou:
— Larga de ser vagabundo, Ascenso!”
* Jornalista e escritor

Não importa quantos Ascensos fluam
ResponderExcluirna literatura. Seja em prosa ou verso.
O universo que retrata salta aos olhos.
Abraços
A sua maneira de ver e descrever personalidades pernanbucanas ou não é tão peculiar Urariano. Você é generoso e pródigo em valorizar caracteríticas, e assim alça a pessoa num olimpo que pode ser que ele não esteja preparado para tanto. Como os conheço apenas pela sua voz, fico a admirá-los, mas muito mais a você por trazê-los tão cheios de qualidades. Obrigada por mais essa apresentação.
ResponderExcluirerrata: em lugar de ele leia ela.
ResponderExcluirUrariao
ResponderExcluirVocê tem o raro dom de encontrar nas pessoas o que elas têm de melhor.E em Ascenso Ferreira a poesia é melhor que o anedótico. Ele pra mim é um dos cinco maiores poetas brasileiros.Fiquei anos buscando um livro desse Poeta e nem no Recife o encontrei. Só há poucos anos consegui adquirir. E é a ele que sempre volto quando a saudade do Recife se torna insuportável.
Adorei seu texto.
Obrigada!
Corrigindo, com mil desculpas: Urariano
ResponderExcluirNúbia, Mara e Risomar: Ascenso, em alguns poemas, fala uma língua tão pernambucana que parece dialeto. Em outros é bruto, brutal, mas com uma originalidade que espantou Mário de Andrade. Ele, quando declamava, fazia um outro, um imenso poema, desentranhado com sua voz de trovão. Recomendo uma apresentação de Manuel Bandeira sobre Ascenso.
ResponderExcluirE da sua voz a declamar, quem melhorme definiu foi o nosso poeta e amigo Talis: Ascenso tinha "a voz de Deus".
Abração.