segunda-feira, 7 de dezembro de 2009




Faço de conta que não está acontecendo nada

* Por Mara Narciso

E
m dois anos faço três décadas. Fico chateada em ter rosto e cabelo bonitos. Todos falam isso, e repetem tantas vezes, que começo a acreditar. Quando elogiam meu rosto, estão omitindo uma crítica ao meu corpo. Entreguei os pontos há quatro anos, e desse modo estabilizei meu estado físico em quase três dígitos enclausurados em pouco mais de um metro e meio. Sou uma pessoa meiga e tranqüila, do tipo que não gasta tempo algum pensando em medidas corporais.

Gosto de vestidos estampados bem amplos e uma vez, olhando um deles sobre a minha cama, fiquei pensando em o que faria, caso a largura do pano não me permitisse fazer uma roupa sem emendas. A minha circunferência tinha atingido limites perigosos.

Não trabalho fora de casa, e por estar sempre por aqui, acabo me ocupando dos afazeres domésticos. Cuido da casa, faço a comida, e em matéria de capricho, passo da média. Divido as tarefas com minha mãe. Moramos as duas e meu irmão. A nossa convivência é pacífica, mas eu não tinha reparado o quanto a minha mãe é importante para mim. Como estava ali mesmo, eu nem pensava na presença dela. Até quando veio a doença, e imaginei a possibilidade de perdê-la para sempre.

Sou tímida e me expor é impossível, mesmo estando habituada a falar em público nas atividades religiosas que exerço. Estou há tanto tempo auxiliando nos encontros de jovens que faço parte da chefia, por assim dizer. A cada começo de ano, iniciamos o planejamento de um grande encontro católico para o fim do período. Temos de pensar em tudo, toda a estrutura, pois as pessoas irão assistir às palestras e participar de outras atividades, fazer as refeições e dormir no local. Trabalho com um grupo, mas as principais decisões acabam sendo minhas.

O tratamento de minha mãe a fez perder os cabelos, conforme era esperado. Fiquei agarrada nela e fiz tudo que pude para que usasse uma peruca, ou um lenço na cabeça. Não quis. No final concordou em usar um chapeuzinho. A doença nos ajuntou ainda mais. A ameaça de não conseguir uma cura me levou a cuidar de mim também, coisa que não fazia há tempos. Era hora de inventariar a minha vida. Reparei que não tinha nenhum plano pessoal.

Decidi e fiz exames de hormônios. Estavam normais. Precisei ter os ovários retirados, dez anos antes, devido a um problema genético, que poderia levar a formação de tumores. Senti-me uma mulher incompleta depois dessa perda e o caminho que encontrei foi a reclusão, o sedentarismo, a falta de vaidade e a entrega ao comer compulsivo em momentos de tédio.

Sou feminina, mansa e delicada, com voz suave e rosto de querubim, dizem, mas foi preciso alguém me afirmar que eu era uma mulher inteira, que não tivesse dúvidas disso, para que eu, sem tomar decisão nenhuma e quase sem querer, principiasse uma mudança.

Não quis remédios e nem tracei nenhuma meta. Pareceu um acontecimento ao acaso. Reparei que alguma coisa estava de fato acontecendo quando na igreja as minhas amigas passaram a perder a voz quando me viam. Faziam aquela cara de surpresa estupefata, de quem estava enxergando alma em pleno dia. Isso me incomodava tanto que tinha vontade de sair correndo. Sou avessa a chamar a atenção, porém era tudo que eu fazia: brilhava uma placa luminosa na minha testa.

Minha discrição me impede de falar de mim. As primeiras bocas escancaradas à minha frente me levaram a esboçar um discurso básico, uma justificativa para o modo como eu me apresentava agora. Mas decidi dar de ombros e não explicar nada. Bem, se me achavam esquisita por falar pouco e estar daquele jeito anteriormente, agora sim, é que tinham motivos imensos para me estranharem ainda mais.

Joguei fora todas as roupas. Com cada um dos meus vestidos posso fazer duas roupas e meia. Nem que eu tivesse passado no arco-íris teria sofrido tamanha transformação. Acredito que aqueles programas do antes e depois foram inspirados na minha mudança. Mas não dou assunto. Faço de conta que tudo está como sempre foi.

Trinta quilos desapareceram em seis meses. E sabe o que eu fiz? Hoje dei um depoimento no encontro de jovens. Mesmo com todos vendo a minha modificação gritante, mal mencionei isso. Falei alegremente na cura da minha mãe, que terminou o tratamento. Isso sim, é uma coisa que preciso comemorar. O meu aspecto interno também. Estou mais feliz e melhor. Consigo amar a minha mãe muito mais do que antes.

Estar bonita aconteceu. Mas não falo nada. O que você lê, não está escrito. São pensamentos meus que você me rouba. Não deixo transparecer nada de íntimo. Afinal, a discrição é o meu ponto forte. E eu a prezo demais.

* Médica endocrinologista, acadêmica do sétimo período de Jornalismo e autora do livro Segurando a Hiperatividade

6 comentários:

  1. Oi, Mara. Percebi em seu texto um viés temático semelhante ao que o Daniel explorou no texto dele: a falta absoluta de autoestima, o low-profile levado ao extremo. Parabéns por mais este!

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  2. Que belo depoimento.
    Amar o outro é muito bom, mas
    amar a si mesma é melhor ainda.
    beijos Mara

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  3. Desejo a vc uma radiante manhã de sol, com batom e um vestido laranja. Rodopie bastante na praça e deixem que percebam quanto vc se parece com uma fruta madura. Aí...bem...dê de comer a quem tem fome.

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  4. Essa minha paciente esteve no meu consultório sexta-feira última, então a pedi para eu contar a história do emagrecimento dela. Passou de 94 para 64 quilos. Acho que consegui ser bem fiel ao que ela me contou no período.

    Amigos,obrigada pelos comentários. São muito estimulantes.

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  5. A doença da mãe despertou sua paciente para a beleza e a simplicidade da vida. E ela resolveu, enfim, viver....
    Que seja feliz sem os 30 quilos a menos !
    Na torcida.
    Beijão.

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  6. Sim, Celamar, e ainda dá tempo de fazer tudo que ainda não fez.
    Obrigada pelo comentário.

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