

Ao mestre Cunha, com carinho
* Por Eduardo Murta
Tantas foram as histórias de como o Mestre Cunha se despediu desse plano, que nelas enxergo pouco além de singelas miragens. De todas desconfio e reafirmo em convicção: Mestre Cunha anda mais vivo do que nunca. Soa até candura ouvir do que descreviam no café da esquina: que tudo se deu quando lia Mário Quintana, cruzando a faixa de pedestres, e nada viu a não ser o clarão o colhendo súbito. Imitando passeata de anjos...
Ah, puro delírio. Desdenho. Descreio também dos que o descrevem submerso em banheira de quarto de hotel. Os dedos ainda atados ao Neruda de “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, aberto à página 40. Tampouco me fiarei nos que sugerem atmosfera de realismo fantástico, em minúcias, sobre o momento em que, salão da biblioteca pública, flutuou.
Levitava e, lendo “A Procura da Poesia”, num Drummond robusto, foi se desintegrando, até que brotassem letras em bolhas de sabão por sua pele, numa metalinguagem que academia alguma tivesse como explicar. Mais: espocando, as bolinhas vinham derivando versos. Ficaram tão somente seu terno, o sapato marrom e um triste silêncio ao centro. Disso igualmente descreio. E reafirmo: vivo ele está.
Que perdoem os incrédulos, mas sou capaz de vislumbrá-lo logo ali. A voz grave embargada, contando do dia em que fundou pelos grotões dos bairros soando ainda coloniais e se pôs diante de uma plateia peculiar: a dos iletrados. Era doce provocação do destino, a de colocar frente a frente alguém que levava uma biblioteca no coração e os que tiveram as portas fechadas a cada instante em que tentavam decifrar o abecedário.
Instigante encontro. Começou num janeiro, transitando para um simplório “Vovô viu a uva”. E, véspera de Natal, mirem o presépio vivo na pracinha do lugar. Fizera trabalho de caprichoso relojoeiro com aquela gente, porque estavam ali, mágica, lendo Machado de Assis, Gregório de Mattos e, creiam, um Brecht escolhido a dedo.
Vejam Gumercinda, 78 anos, lavadeira, declamando “Para ler de Manhã e à Noite”. As rugas lhe repuxam, emocionado tom. Engasga nas sílabas, patina no ritmo, mas por inteiro se entrega: “Aquele que amo disse que precisa de mim/Por isso, cuido de mim, olho meu caminho/ E receio ser morta por uma só gota de chuva”. Se sente ao final como tivesse desatado as amarras de um piano desafinado que carregara vida afora feito fosse um fardo. Com Mestre Cunha quer partilhar desse contentamento, mas não o vê entre a multidão.
Só manhã seguinte lhe revelam o por quê. Eis Gumercinda, pernas cansadas e trêmulas, subindo a colina com um ramo de flores. Leva junto um bloco de folhas amassadas, das lições em que aprendera da perninha do Ó ao ch da chuva. Não fora lá para derramar lágrimas. Mas simplesmente revê-lo. Conversar. Rir de suas histórias. Dos nomes dados aos três filhos: Agá, Jota e Eme. E do jeito comezinho de dizer que era forma devotada de imortalizar o alfabeto.
Imortalizara mais que isso. Coisa de não se crer: a passarinhada fazendo ninho em torno ao túmulo. Jacarandá mimoso e ipê brotando assim ao léu. Bem-te-vi, sabiá, rolinha, beija-flor, papa-capim... Gumercinda pediu licença. Queria se aproximar, ler-lhe um poema. Antes, visitou-lhe a recordação. A historieta – da qual sempre duvidara – de que Mestre Cunha, raiando o dia, fazia pose de espantalho à Mata das Borboletas para os pássaros virem comer-lhe à mão. Agora punha fé. E como acreditava na inocente versão da sopa de letrinhas acendendo aquela fina comunhão. Esta imagem, não mais que esta, é que dele guardarei. Por todo o sempre.
(Para Alécio Cunha, amigo, poeta e jornalista do Hoje em Dia que migrou para o andar de cima neste final de novembro)
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras
* Por Eduardo Murta
Tantas foram as histórias de como o Mestre Cunha se despediu desse plano, que nelas enxergo pouco além de singelas miragens. De todas desconfio e reafirmo em convicção: Mestre Cunha anda mais vivo do que nunca. Soa até candura ouvir do que descreviam no café da esquina: que tudo se deu quando lia Mário Quintana, cruzando a faixa de pedestres, e nada viu a não ser o clarão o colhendo súbito. Imitando passeata de anjos...
Ah, puro delírio. Desdenho. Descreio também dos que o descrevem submerso em banheira de quarto de hotel. Os dedos ainda atados ao Neruda de “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, aberto à página 40. Tampouco me fiarei nos que sugerem atmosfera de realismo fantástico, em minúcias, sobre o momento em que, salão da biblioteca pública, flutuou.
Levitava e, lendo “A Procura da Poesia”, num Drummond robusto, foi se desintegrando, até que brotassem letras em bolhas de sabão por sua pele, numa metalinguagem que academia alguma tivesse como explicar. Mais: espocando, as bolinhas vinham derivando versos. Ficaram tão somente seu terno, o sapato marrom e um triste silêncio ao centro. Disso igualmente descreio. E reafirmo: vivo ele está.
Que perdoem os incrédulos, mas sou capaz de vislumbrá-lo logo ali. A voz grave embargada, contando do dia em que fundou pelos grotões dos bairros soando ainda coloniais e se pôs diante de uma plateia peculiar: a dos iletrados. Era doce provocação do destino, a de colocar frente a frente alguém que levava uma biblioteca no coração e os que tiveram as portas fechadas a cada instante em que tentavam decifrar o abecedário.
Instigante encontro. Começou num janeiro, transitando para um simplório “Vovô viu a uva”. E, véspera de Natal, mirem o presépio vivo na pracinha do lugar. Fizera trabalho de caprichoso relojoeiro com aquela gente, porque estavam ali, mágica, lendo Machado de Assis, Gregório de Mattos e, creiam, um Brecht escolhido a dedo.
Vejam Gumercinda, 78 anos, lavadeira, declamando “Para ler de Manhã e à Noite”. As rugas lhe repuxam, emocionado tom. Engasga nas sílabas, patina no ritmo, mas por inteiro se entrega: “Aquele que amo disse que precisa de mim/Por isso, cuido de mim, olho meu caminho/ E receio ser morta por uma só gota de chuva”. Se sente ao final como tivesse desatado as amarras de um piano desafinado que carregara vida afora feito fosse um fardo. Com Mestre Cunha quer partilhar desse contentamento, mas não o vê entre a multidão.
Só manhã seguinte lhe revelam o por quê. Eis Gumercinda, pernas cansadas e trêmulas, subindo a colina com um ramo de flores. Leva junto um bloco de folhas amassadas, das lições em que aprendera da perninha do Ó ao ch da chuva. Não fora lá para derramar lágrimas. Mas simplesmente revê-lo. Conversar. Rir de suas histórias. Dos nomes dados aos três filhos: Agá, Jota e Eme. E do jeito comezinho de dizer que era forma devotada de imortalizar o alfabeto.
Imortalizara mais que isso. Coisa de não se crer: a passarinhada fazendo ninho em torno ao túmulo. Jacarandá mimoso e ipê brotando assim ao léu. Bem-te-vi, sabiá, rolinha, beija-flor, papa-capim... Gumercinda pediu licença. Queria se aproximar, ler-lhe um poema. Antes, visitou-lhe a recordação. A historieta – da qual sempre duvidara – de que Mestre Cunha, raiando o dia, fazia pose de espantalho à Mata das Borboletas para os pássaros virem comer-lhe à mão. Agora punha fé. E como acreditava na inocente versão da sopa de letrinhas acendendo aquela fina comunhão. Esta imagem, não mais que esta, é que dele guardarei. Por todo o sempre.
(Para Alécio Cunha, amigo, poeta e jornalista do Hoje em Dia que migrou para o andar de cima neste final de novembro)
* Jornalista, autor de "Tantas Histórias. Pessoas Tantas", livro lançado em maio de 2006, que reúne 50 crônicas selecionadas publicadas na imprensa. É secretário de Redação do jornal Hoje em Dia, diário de Belo Horizonte. Já teve passagens também pelos jornais Diário de Minas e Estado de Minas, além de Folha de S.Paulo e revista Veja. É um dos colunistas do Hoje em Dia (www.hojeemdia.com.br), onde publica às quartas-feiras

Belo réquiem a alguém admirável e que, na contramão das perversões deste mundo terminal,fez o que pode para engrandecer a espécie.
ResponderExcluirGostei muito de conhecer um pouco mais sobre Alécio. A morte prematura sempre é assustadora.
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