terça-feira, 2 de junho de 2009




Mitos, sofismas e disparates em obesidade: caso real

* Mara Narciso


O velho ônibus levava-me todos os dias para lecionar na cidade vizinha, e, desconfortável na poltrona, questionava-me sobre o fato de a cada dia encontrar menos espaço na condução. A resposta estava na insatisfação em deixar uma filha em casa, e um marido que via apenas na hora de dormir. Passei a comer a merenda escolar, sabidamente calórica, onde mingaus, canjica, sopas, feijão tropeiro, e carne de jabá são os pratos de resistência. Em pouco tempo, essa mudança fez-me engordar visivelmente.

As minhas medidas continuavam ampliando-se, assim achei melhor levar a marmita e evitar as tão mal-faladas comidas da cantina. Não reclamava do trabalho, mas questionava a validade do sacrifício de ficar pouco com a minha filha. A menina, carente de atenção, chegava a dormir sentada, perto de mim, tamanha era a necessidade de estar comigo. E eu, mesmo nessa vida desconfortável, mantinha o ganho de peso. Era como um marcador dos andares do elevador que apenas subia, subia, e mais ainda subia.

Quem ficasse alguns dias sem me ver não conseguia esconder o susto e a agressiva desaprovação quando me enxergava pela frente. Diziam que não me reconheciam, e culpavam ora o casamento, ora a pílula anticoncepcional, ora as viagens de trabalho, ora a merenda escolar. Todos tinham uma explicação para o meu mal, criticando-me por eu ter tudo na vida e não ter vaidade. Diziam que o meu problema só podia ser “falta de força de vontade”, e poderia ficar também sem o marido.

Larguei o trabalho e passei a dar mais atenção à minha filha que adorou a novidade. Parei de me cobrar, acalmei-me, consegui ter mais tempo para mim e tudo melhorou, mas o peso continuou a crescer. Comecei a fazer o trabalho caseiro e também musculação, para gastar mais calorias, mas não vi diferença alguma.

A minha mãe e sogra resolveram fazer pressão sistemática para que eu tomasse jeito e comesse menos. O negócio, diziam elas, era o jantar. Caso eu parasse com ele, tudo melhoraria. Parei de fazer comida à noite e atacava o lanche. Mas não era um lanche assim tão pequeno não, pois a minha fome era grande. Comia um pão, porém “sem o miolo”, ou dois ou três deles, bolachas só as de sal, e biscoitos só os bem sequinhos, e o peso subindo. Acompanhava tudo que comia com litros de suco, mas do natural. Nada de refrigerante. E só ia dormir duas horas após comer, já que comer e dormir logo depois engorda.

Melhor persistir no adoçante e caminhar. Mas andar me dá uma fome! Eu chego da caminhada tão desesperada, que é urgente comer o dobro do que comeria caso tivesse ficado em casa. Então sugeriram a natação. Era divertido no começo. Mas além do problema do cabelo molhado, sentia-me constrangida de usar roupa de banho com o corpo tão grande. Com o exercício na água veio uma fome descomunal. Na verdade, todas as sugestões de leigos e de médicos – e eu já tinha visitado um punhado –, não resolviam nada. Eu começava, não completava uma semana e já desistia. Preciso de resultados bem rápidos para me animar.

Tomei vários remédios moderadores de apetite, entre os de marca, e os manipulados, e até cheguei a me viciar em algumas fórmulas tomando doses altíssimas. Deu um trabalhão para me livrar da dependência física e psíquica. Fiz tratamento psiquiátrico com substituição medicamentosa para livrar-me do vicio. Caso não tivesse feito isso, não desconsidero a possibilidade de uma overdose. Disso melhorei, e não pretendo entrar nessa novamente.

Fui andar de bicicleta ergométrica porque o pé está doendo muito. Deve ser “esporão”. As costas doem também, e o ortopedista mandou-me emagrecer. Disse ser a coluna. Já são dez anos de obesidade e tratamentos frustrados deixados pela metade. Mas do jeito que me ensinaram eu faço: como de três em três horas, e só coisas leves, bastante fruta, muito suco, e um monte de verduras e legumes no almoço. É um sacrifício e tanto. Quando são quatro horas da tarde já não me aguento e preciso comer alguma coisa quente, pelo menos um sanduíche, um bolo ou biscoitos.

Fazer dieta é massacrante. É preciso comer tantas coisas que não gosto. A minha vontade é largar tudo pra lá, e aceitar ser definitivamente gorda. Quem consegue ficar a vida toda de regime? Algumas vezes, quando estou angustiada, consigo beber dois litros de Coca-Cola. O gás enche-me de conforto, e o peso interior acalma-me. Mas não sou feliz assim corpulenta.

Todos me condenam. Exigem que é preciso tomar uma providência. Muitos me ameaçam de que eu vou ficar com diabetes, vou ter um infarto ou derrame. Passei a morrer de raiva desses palpites, pois todo mundo acha-se no direito de opinar e me ofender. Tem hora em que eu penso em responder mal ao indivíduo, ou até mesmo estrangular os mais folgados.

Descobri que o meu marido tinha (?) outra. As provas estavam lá. Não havia o que negar. Confissão dele formulada foi a vez das longas e insuportáveis conversas que levam a combinação mais freqüente: a mulher perdoa e o homem promete regenerar-se. E ainda inventamos um discurso edificante: “decidimos dar mais uma chance ao nosso amor!” Esse fato veio encher mais ainda o meu prato, o meu estômago e a enlarguecer notadamente as minhas já avantajadas medidas. Há muito não estava mais ligando se o cabelo estava arrumado, ou se a roupa estava assim ou assado. Precisava ver era se o assado já estava pronto, e ir logo pegar a minha parte, ou seja, a melhor e maior parte. Isso de limpar a casa e de cozinhar me dá muita fome.

Do casamento para cá, eu acrescentei cinquenta quilos ao meu peso original, mesmo com todas as dietas e ginásticas que fiz. Imagine se não tivesse feito nada? Mas entendo que o meu regime ia de fato da parte da manhã até ao meio dia. Dessa hora em diante, eu não consigo me controlar muito não. Ás vezes me dá uma raiva ver tanta gente magra comendo de tudo e sem se preocupar com engordar. Na verdade poucas vezes eu consegui parar antes de estar absolutamente estufada. Mesmo assim ainda empurrava mais alguma coisinha para dentro.

Fiz trinta e cinco anos agora. Não me venham vocês com lições de moral e dedos acusatórios, que não vou permitir nenhuma crítica. Eu preciso estar cheia para me sentir confortável e segura. O vazio no estômago me enfraquece as pernas e a voz. Preciso acalmar-me com alimento para enfrentar as durezas do dia.

Ainda não comentei com ninguém o caso da traição, pois sou eu mesma quem devo resolver todos os meus problemas, mas entendo que a infidelidade do meu marido jogou água fria no meu ardente fogo de solteira, e molhou a minha cama com muita falta de amor. Aceito as obrigações, mas nua, fico apenas durante o banho. Travei.

O prazer que tenho é à mesa. Os gozos do sexo ficaram lá atrás. E com os meus cento e dez quilos, após lamber a colher de pau com o último restinho de brigadeiro, penso: se não posso ter um bom orgasmo agora, pelo menos posso comer todo o chocolate desse mundo!

* Médica endocrinologista há 29 anos, acadêmica do 6° Período de Jornalismo e autora do livro “Segurando a hiperatividade”

5 comentários:

  1. Oi, Mara. Muito curioso seu texto, ainda mais tratando do assunto "peso" e escrito por uma endocrinologista. Evidentemente que não é autobriográfico... Gostei muito.

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  2. Também eu gostei demais desse tom confessional e reclamatório, dessa revolta contra o autoritarismo de certas dietas e de certos tratamentos. Cordura ... gordura. É preciso aprender a rosnar, é preciso proceder à arquelogia de si para ir se desfazendo, aos poucos, das camadas, dos acúmulos que nos asfixiam. Parabéns, Mara!

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  3. Marcelo, acertou. Não é autobiográfico. Peso 50 kg desde os 16 anos, e eles oscilam pouco, no entanto posso encorporar vários personagens que mudam de peso, já que acompanho esses dramas há quase 30 anos. No caso misturei muitos deles em um só, e deu nisso dai, mas muito próximo do real. Obrigada pelo comentário.
    Daniel, a sociedade por si mesma já é autoritária. A pessoa pode, se quiser, contestar a ordem de emagrecer, só que, enquanto engorda, faz de conta que emagrece. Aí está o estranho paradoxo desse caso, que bem poderia ser real. Agradeço a atenção da leitura. E vamos trocando ideias.

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  4. Mara, uma abordagem sobre a obesidade por quem entende bem sobre o tema e o drama vem a calhar.
    A pressão só aumenta a ansiedade. Muito bom seu texto! Bjs e parabéns!

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  5. Evelyne, a pessoa em fase de engorda costuma estar em sofrimento. Ontem falei com uma moça que vai fazer redução de estômago aos 20 anos, pois já não suporta mais conviver com a sua obesidade de 119 kg em 1m58cm. Não sei o que é mais monstruoso: ficar sem estômago e nunca mais poder comer normalmente, ou ser uma obesa mórbida presa no quarto chorando e comendo, quando tudo deveria ser descoberta, paixões e amores. É muito triste! Obrigada pela leitura e comentário!

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