segunda-feira, 4 de maio de 2009




Passeio de bicicleta


* Por Mara Narciso

Não tenho motivo para me queixar desse belo sol da manhã, que me leva pela avenida, lava-me o rosto numa quentura morna, aquece-me a pele bronzeada e me nutre com um bem-estar intenso. Estou muito feliz e acho a vida maravilhosa. A minha bicicleta prateada integra-me à natureza em volta, ao parque ao lado, à calçada onde pessoas fazem caminhada nesse dia já alto.

Tudo tão perfeito que não poderia haver possibilidade de melhora, então me deparo com ele, o jovem de pele escura, lembrando um indiano, pequeno, menor do que eu, magro, corpo atlético torneado e tão bem feito que me desperta a sexualidade imediatamente. Está sem camisa, leva-a na mão, e faz pequenas corridas alternadas com um andar de passos ligeiros. Os seus cabelos pretos e cacheados são a moldura finalizada de tudo quanto quero para mim.

Passo olhando para trás, encaro, ele olha-me também. Atinge-me nos meus sentidos mais primitivos. Que sensação agradável! Preciso dele já. Volto para mirá-lo, lanço um sorriso, e o recebo de volta com muitos dentes visíveis e muita intensidade. Parece que buscamos durante anos por esse momento.

Paro, desço da bicicleta, aproximo-me, e ele encoraja-me a avançar com outro sorriso maroto. Temos urgência e começamos a conversar. Vamos andando enquanto empurro a bicicleta. Somos vizinhos de bairro e moramos próximos, mas nunca tínhamos nos avistado. Temos quase a mesma idade, sendo eu, jornalista, ele administrador, eu leciono inglês, e ele trabalha num banco, improvisação é o meu lema, rotina é a vida dele, novidade é o que gosto, surpresa demais o incomoda.

Tudo tão parecido e ao mesmo tempo tão diferente, e já buscamos um cantinho para sentirmos pele na pele tudo o que a atração mútua prenunciava. Foi um dia inteiro de amor e sexo inesquecíveis. Desde então somos um para o outro, muito do que idealizamos naquela hora.

Daquele dia em que nos conhecemos, passaram-se dez anos entre namoro e noivado. Somos fiéis e apaixonados, também queremos nos casar, mas por enquanto não dá, porque somos João Victor e João Paulo.

* Médica endocrinologista há 29 anos, acadêmica do 6° Período de Jornalismo e autora do livro “Segurando a hiperatividade”

7 comentários:

  1. Talvez o problema tenha sido a falta de um "i". Se em vez de Mara, fosse MarIa, faria par perfeito para João. Assim: João e Maria. Mas quis o destino suprimir-lhe uma vogal e aí ... Vai curtindo, enquanto a lei de casamento não chega. E parabéns.

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  2. Daniel, evitei colocar alguma palavra que denotasse o gênero dos envolvidos. É caso real de dupla assumida diante de toda a família. Obrigada pelo elogio e pela leitura frequente.

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  3. Ué! Estou lendo Mara Narciso ou Celamar Maione?! (rsrsrs) Os estilos se parecem...! Gostei do texto, Mara. 05 beijos pra você!

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  4. Fábio, muito me alegra ser comparada a Celamar Maione, a escritora que desafia todas as leis dos bons e dos maus sensos. Adorei seu comentário. Obrigada!

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  5. Eu concordo com o Fábio, você está me saindo uma Celamar. Não só pelo tom erótico deste texto especificamente, mas também pelo pelo final desconcertante. Parabéns, Mara.

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  6. Marcelo, desconcertante é o seu comentário cheio de entusiasmo. Sabendo do seu talento, ler isso soa como música inesquecível para os meus nervos óticos.

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  7. Oi Mara.

    Navegando, por ai, li varios textos, comentarios, percebo, uma aceitação, uma simpatia, um respeito incrivel pelos textos publicados.

    Me sinto feliz, em ler todas as formas de manifestações, repleta de carinho.Parabéns.

    Abraço. Janete

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