

O reencontro (Final)
* Por Risomar Fasanaro
Todas ficaram em silêncio. Um silêncio daqueles que incomodam, em que as palavras todas parecem voar pelas portas e janelas. Tentamos segurar alguma, mas elas fogem a toda velocidade, recuam quando quase conseguimos agarrá-las. Naqueles segundos intermináveis, tudo na sala pareceu muito barulhento: o encontro das xícaras com os pires, as colherinhas mexendo o chá, e até o bule pareceu adquirir vida.
Já não eram mais as adolescentes de uniformes falando de veleidades. Eram quatro mulheres se reencontrando após trinta anos de separação. Cada uma com sua história, suas dores. As outras ali, paradas, caladas. Como se alguém fosse fotografá-las para imortalizar aquela cena.
Julia não conseguia levantar a cabeça. Envergonhada, sentiu o chão fugir, como se o prédio estivesse implodindo. Por que brincara com algo tão sério, o que tinha na cabeça? Alegria, pura alegria, a felicidade que sentia com aquele reencontro. Jamais quisera magoar a amiga. Como poderia adivinhar que aquela adolescente certinha, estudiosa, que nunca faltara às aulas havia se tornado alcoólatra?
Sem que ninguém pedisse, Constancia desfiou seu rosário:
-Por causa do álcool quase perdi meu marido, meus filhos... Minha casa era um horror: roupas sujas pra todo lado, louças empilhadas por lavar, e eu jogada em um sofá, ou batendo em meus filhos. Não fazia almoço, as crianças iam à escola quando queriam, viviam sujas, na rua. Eram discriminados na escola por causa da mãe bêbada.
-E seu marido?
-Fez de tudo. Deixou de comprar bebidas, não me dava um tostão, ameaçou se separar e levar os filhos, mas não adiantava nada. Eu abria uma lata de leite condensado e misturava em um litro de álcool e bebia. Escondia a garrafa dentro do guarda-roupa, no meio dos vestidos. Virei um farrapo humano. Os vizinhos chegaram a chamar a polícia por causa das surras que eu dava nos meus filhos...
-Mas seu marido não procurou tratamento?
-Procurou. Fui a um médico que prometia curas miraculosas, mas não deu resultado. Eu fingia que seguia, mas em casa bebia escondido. E a cada dia piorava mais.
-E agora? Você continua bebendo?
- Não. Um dia tomei consciência de que havia extrapolado todos os limites, e resolvi eu mesma me internar em uma clínica de recuperação de dependentes químicos. Quando meu marido chegou, não me encontrou. Só depois de uns três dias, ele e meus filhos me localizaram. Ali vivi horrores semelhantes aos do inferno de Dante. Vocês não imaginam o que é uma pessoa viciada em crise de abstinência... Eu tinha visões, me via perseguida por monstros, sentia vontade de morrer, tão grande era o sofrimento. Cheguei ao fundo do poço, como a gente dizia na época do colégio. E descobri que só quando cheguei ao fundo do fundo do poço, meus pés tocaram o chão e, num impulso pude voltar, pude emergir. Descobri que muitos dos que ali estavam, passando pela mesma dor, também tinham dentro de si mesmos esse poço cheio d’água e esse chão. E era essa base que precisavam atingir, que só quando nossos pés tocam o chão conseguimos retornar à vida.
E Constância continuou:
-Eu sou doente, mas agora faço tratamento na Associação de Alcoólicos Anônimos. Ontem mesmo fui a uma reunião aqui na cidade de vocês.
O silêncio pairava na sala. As outras ora puxavam a barra da saia, como se o comprimento delas incomodasse, ora passavam as mãos pelos cabelos, e era como se em todas sobrassem braços e mãos.
Nos rostos, os risos viraram rictos e os olhos que na entrada tinham um brilho especial, de repente se tornaram opacos. Todas se levantavam apressadas, pegavam as bolsas e, desajeitadas, se despediam. Um bolo de abacaxi que tinham elogiado quando chegaram, restara intacto sobre a mesa, assim como as xícaras com chocolate pela metade.
Não esperaram o elevador. Apressadas e em silêncio desceram as escadas.
* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.
* Por Risomar Fasanaro
Todas ficaram em silêncio. Um silêncio daqueles que incomodam, em que as palavras todas parecem voar pelas portas e janelas. Tentamos segurar alguma, mas elas fogem a toda velocidade, recuam quando quase conseguimos agarrá-las. Naqueles segundos intermináveis, tudo na sala pareceu muito barulhento: o encontro das xícaras com os pires, as colherinhas mexendo o chá, e até o bule pareceu adquirir vida.
Já não eram mais as adolescentes de uniformes falando de veleidades. Eram quatro mulheres se reencontrando após trinta anos de separação. Cada uma com sua história, suas dores. As outras ali, paradas, caladas. Como se alguém fosse fotografá-las para imortalizar aquela cena.
Julia não conseguia levantar a cabeça. Envergonhada, sentiu o chão fugir, como se o prédio estivesse implodindo. Por que brincara com algo tão sério, o que tinha na cabeça? Alegria, pura alegria, a felicidade que sentia com aquele reencontro. Jamais quisera magoar a amiga. Como poderia adivinhar que aquela adolescente certinha, estudiosa, que nunca faltara às aulas havia se tornado alcoólatra?
Sem que ninguém pedisse, Constancia desfiou seu rosário:
-Por causa do álcool quase perdi meu marido, meus filhos... Minha casa era um horror: roupas sujas pra todo lado, louças empilhadas por lavar, e eu jogada em um sofá, ou batendo em meus filhos. Não fazia almoço, as crianças iam à escola quando queriam, viviam sujas, na rua. Eram discriminados na escola por causa da mãe bêbada.
-E seu marido?
-Fez de tudo. Deixou de comprar bebidas, não me dava um tostão, ameaçou se separar e levar os filhos, mas não adiantava nada. Eu abria uma lata de leite condensado e misturava em um litro de álcool e bebia. Escondia a garrafa dentro do guarda-roupa, no meio dos vestidos. Virei um farrapo humano. Os vizinhos chegaram a chamar a polícia por causa das surras que eu dava nos meus filhos...
-Mas seu marido não procurou tratamento?
-Procurou. Fui a um médico que prometia curas miraculosas, mas não deu resultado. Eu fingia que seguia, mas em casa bebia escondido. E a cada dia piorava mais.
-E agora? Você continua bebendo?
- Não. Um dia tomei consciência de que havia extrapolado todos os limites, e resolvi eu mesma me internar em uma clínica de recuperação de dependentes químicos. Quando meu marido chegou, não me encontrou. Só depois de uns três dias, ele e meus filhos me localizaram. Ali vivi horrores semelhantes aos do inferno de Dante. Vocês não imaginam o que é uma pessoa viciada em crise de abstinência... Eu tinha visões, me via perseguida por monstros, sentia vontade de morrer, tão grande era o sofrimento. Cheguei ao fundo do poço, como a gente dizia na época do colégio. E descobri que só quando cheguei ao fundo do fundo do poço, meus pés tocaram o chão e, num impulso pude voltar, pude emergir. Descobri que muitos dos que ali estavam, passando pela mesma dor, também tinham dentro de si mesmos esse poço cheio d’água e esse chão. E era essa base que precisavam atingir, que só quando nossos pés tocam o chão conseguimos retornar à vida.
E Constância continuou:
-Eu sou doente, mas agora faço tratamento na Associação de Alcoólicos Anônimos. Ontem mesmo fui a uma reunião aqui na cidade de vocês.
O silêncio pairava na sala. As outras ora puxavam a barra da saia, como se o comprimento delas incomodasse, ora passavam as mãos pelos cabelos, e era como se em todas sobrassem braços e mãos.
Nos rostos, os risos viraram rictos e os olhos que na entrada tinham um brilho especial, de repente se tornaram opacos. Todas se levantavam apressadas, pegavam as bolsas e, desajeitadas, se despediam. Um bolo de abacaxi que tinham elogiado quando chegaram, restara intacto sobre a mesa, assim como as xícaras com chocolate pela metade.
Não esperaram o elevador. Apressadas e em silêncio desceram as escadas.
* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

Risomar, escondemos fragilidades humanas por baixo de uma aparente segurança. Quando alguém tem coragem de se expor, ameaça a pseudo-confiança reinante. Muito bom seu texto! Parabéns e beijos.
ResponderExcluirRisomar, seu texto passou e passa verdade, com a delicadeza de um olhar que é insusbtituível. Salve.
ResponderExcluirQuanta dor, quanto abandono! Pensei, a princípio, que vc fosse relaxar, mas vc foi até o fim, numa demonstração de fôlego literário que a consagra como corajosa escritora, dessas que desprezam facilidades e pagam para ver. Parabéns.
ResponderExcluirEvelyne, Urariano, Daniel
ResponderExcluirObrigada pela atenção, pelas palavras de estímulo, sempre bem-vindas!
Abraços e carinho
Risomar
Amigos, "insusbtituível" é dose. Nem a derrota do Sport para o Porco me faz suportar essa. Insubstituível, por favor. Abraço.
ResponderExcluirÉ sempre mais fácil fugir de nossos problemas. Pelo menos, é mais cômodo. No entanto, quanto mais fugimos é que mais nos aproximamos dos próprios problemas. Uns se voltam para as drogas. Outros se voltam para a religião. Uns, mais radicais, resolvem acabar com a própria vida. O ser humano é muito estranho...! 06 beijos e parabéns pelo texto, Risomar.
ResponderExcluir