segunda-feira, 4 de maio de 2009




Destino de Gulliver

* Por Daniel Santos

Alto, louro, olhos azuis: gringo, visivelmente. Vinha de torso nu pelo calçadão da praia para mostrar, talvez, o maciço musculoso que erigira, na certa, em alguma academia e à custa de refeições balanceadas.

Quadril estreito, ombros largos, pernas arqueadas de caubói, o desfile da sua imponência colocava os nativos em desvantagem, ou assim sentiam-se, embora nada dissessem, mordidos de inconfessável despeito.

Mas aí aconteceu. Movediços como a duna de onde desceram armados de ripas, garotos de rua cercaram o latagão que, apesar da ferocidade dos bíceps, se fragilizou. Sorriso amarelo, estacou intimidado.

Surpresos com o incompreensível receio, os miúdos gargalhavam como criaturinhas de Lilliput em torno ao gigante que, para se safar, ofereceu relógio, tênis ... Mas o pivete pediu “tio, paga um guaraná?”

Sem entender, o gringo apavorou-se, mas não reagiu e, vexado da própria covardia, enrubesceu. Quanto mais vermelho, mais os magrelas se riam dele. Só mais tarde, humilhado de autocrítica, voltou ao hotel.

* Jornalista carioca. Trabalhou como repórter e redator nas sucursais de "O Estado de São Paulo" e da "Folha de São Paulo", no Rio de Janeiro, além de "O Globo". Publicou "A filha imperfeita" (poesia, 1995, Editora Arte de Ler) e "Pássaros da mesma gaiola" (contos, 2002, Editora Bruxedo). Com o romance "Ma negresse", ganhou da Biblioteca Nacional uma bolsa para obras em fase de conclusão, em 2001.

8 comentários:

  1. O gigante caíu por sua própria arrogância ante a inocência das criaturinhas de Liliputh. Parabés, Daniel! Abraços.

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  2. O contraste às vezes é uma rasteira sorrateira - ou ligeira - no que soa ser real.

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  3. E eu que pensava que a última derrota dos gringos havia sido no Vietnã. Pensava, porque agora... Muito bom, Daniel.

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  4. Terra dos contrastes em que todos andam
    armados contra todos.
    Eu diria : Conto interessante....

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  5. O obstáculo de linguagem desconcerta o maior gigante, por mais belo que seja. Importante, imponente e cheio de respeitabilidade, perdeu-se no próprio rubor. Os meninos, perto dele, não passavam de anões.

    Gostei de " o maciço musculoso que erigira". Para os jovens é a glória em vida.

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  6. É incrível como seus textos são lúdicos, Daniel. E incrível também como eles são reais. Sem querer filosofar, Daniel, mas por qual motivo queremos ser tão fortes (ricos) nesse mundo se isso só nos faz termos medo, muito medo, dos fracos (pobres)...?! Um abraço, meu amigo.

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  7. Mais um texto riquíssimo de imagens, de sentidos figurados e interpretações múltiplas. Mais um nó nas idéias e uma caída de ficha patrocinada pelo talento singular do Daniel.

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  8. Eve, Murta, Urariano, Cel, Mara, Fábio e Marcelo, obrigado pela generosidade crítica e pela distinção de palavras que, talvez, não ouviria nem de um irmão.

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