Futebol
na infância
* Por Rodrigo
Ramazzini
Foi-se esse tempo...
Recordo-me bem daquela semana de junho.
Ansiosamente aguardávamos pelo sábado. Era quando estava marcado o confronto
mais esperado do nosso jovem time. Jogaríamos com nada mais, nada menos, do que
com o time do Moscão, digo, o time dos guris da vila São Marcos, considerados
os melhores da cidade.
Durante a semana na escola, trocamos
provocações com alguns atletas da equipe adversária, e depois da aula, todo o
time religiosamente se reunia para treinar, e discutir qual a melhor tática a
ser usada no jogo mais importante das nossas vidas. Como tínhamos onze
jogadores, ou melhor, doze, computando o gordo (por consideração ao grande
amigo que ele era, o incluímos nesta “conta”, porque se dependesse do
futebol...), pois bem, escalar a equipe não fora difícil para o Mateus, que
além de centroavante, era o técnico, por ser o mais velho.
Despertei cedo naquele sábado cinzento.
Apelei para todos os santos, a fim de ajudarem-me, evitando que caísse a chuva
que se “prenunciava” no céu. E deu certo. Pela manhã, e como o campo ficava em
frente à minha casa, fui preparar o palco do grande espetáculo. Rodeei o
gramado tirando alguns cacos de vidros, latas de azeite e alguns galhos de
árvore no costado da linha de fundo. Repregamos (a essa “altura”, já tinham
chegado o Gil, o José Luiz e o Alan) as madeiras das antigas goleiras; cavamos
pequenos buracos para marcar as linhas das grandes e pequenas áreas. Nas linhas
de fundos e laterais, ganhamos um pouco de cal do Seu Dada, um dos meus
vizinhos, e delineamos o campo.
A partida estava agendada para as
17h00min, mas o nosso time já estava todo reunido desde as 15h00min. Estrearia
a bola que ganhara de aniversário atrasado da minha avó. Contratamos o Beto de
juiz. Que sorteou os lados do campo (trinta minutos de jogo para cada lado, com
cinco de intervalo), e já definiu que jogaríamos, por ter perdido no par ou
ímpar, sem camisa.
A disputa começou equilibrada, com
faltas duras, sendo a pior delas, quando o José Luiz pisou de Kichute no pé do
Amarildo, do time da São Marcos, que estava descalço, de “pé-no-chão”. A tática
de jogo que elaboramos cuidadosamente durante a semana, foi destruída ao apitar
do árbitro. Corremos atrás daquela bola como se fosse o últimos jogo de nossas
vidas. E assim, apesar de levar uma bola na trave, seguramos o empate na
primeira etapa.
No intervalo, o Gordo esperava-nos com
várias garrafas de vidro de Pepsi 1 litro com água. Decidimos colocar o Alan de
centroavante, e recuar o Mateus, para dar mais velocidade no meio, e ter uma
referência no ataque. Assim iniciamos o segundo tempo.
A nossa estratégia dera certo, ganhamos
rapidez nos contra-ataques e presença na grande área. E foi assim, em uma
roubada de bola no meio de campo, que saímos para um contra-golpe mortal. Com a
posse de bola recuperada, o Mateus lança-me na ponta direita de ataque, e com a
bola dominada, cruzo-a para a área. No meio do trajeto, onde o destino seria a
cabeça do Alan, é interceptada com a mão pelo zagueiro adversário. É
pênalti! Apesar das reclamações com o
árbitro, a penalidade está assinalada. Preparo-me para a cobrança. Bola na
marca da cal. Tensão dentre todos. Olho para o goleiro. Estou entre a
consagração e a tragédia. Então, ouço aos gritos, aquela voz familiar:
- Rodrigo! Passa para dentro. Vem tomar
o teu banho de uma vez, já está tarde, eu não vou falar de novo. Se tiver, vou
aí te buscar...
*
Jornalista e contista gaúcho
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