Fidel Castro nos seus 89 anos
* Por
Urariano Mota
Nesta quinta-feira 13
de agosto, Fidel Alejandro Castro Ruz completa 89 anos.
Pesquisando rápido na
mídia, podemos ver:
Apesar das
controvérsias, foi durante o governo de Castro que Cuba alcançou altos índices
de desenvolvimento humano e social e deu diversos exemplos de solidariedade
humanitária, como a menor taxa de mortalidade infantil das Américas,
erradicação do analfabetismo e da desnutrição infantil, tratamento gratuito de
mais de 124 mil vítimas do acidente nuclear de Chernobil, participação direta
na luta pelo fim do Apartheid na África do Sul, treinamento de médicos do Timor
Leste , entre outros.
Isso na melhor mídia.
Mas as notícias não dizem que Fidel Castro é
uma pessoa mítica, um homem que se tornou lenda e símbolo. Sobre ele escreveu o gênio universal das
Américas, de nome Gabriel García Márquez:
“Raras vezes Fidel
cita frases alheias, nem em conversas nem na tribuna, a não ser as frases de
José Martí, que é seu autor de cabeceira. Conhece a fundo os vinte e oito
volumes da sua obra.. …
Seu auxiliar supremo é
a memória, e a usa até o abuso para apoiar discursos ou palestras íntimas com
raciocínios invisíveis e operações aritméticas de uma rapidez incrível. Sua
tarefa de acumulação informativa começa desde que acorda. Toma o café da manhã com não menos de
duzentas páginas de noticias do mundo inteiro. .
Um homem de costumes
austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal às antigas, de palavras
cuidadosas e modos sutis, incapaz de conceber nenhuma ideia que não seja
descomunal. Sonha que seus cientistas encontrem o remédio definitivo contra o
câncer, e criou uma política exterior de potência mundial em uma ilha sem água
doce, oitenta e quatro vezes menor que o seu inimigo principal. É tal o pudor
com que protege sua intimidade que sua vida privada terminou por ser o enigma
mais hermético da sua lenda….
Eu tenho escutado
Fidel em suas escassas horas de saudades quando ele recorda as manhãs do campo
de sua infância rural, a namorada da juventude que se foi, as coisas que
poderia ter feito de outra maneira para ganhar mais tempo para a vida”.
Em belo artigo
publicado no Granma http://www.granma.cu/reflexiones-fidel/2015-08-13/la-realidad-y-los-suenos,
para os seus 89 anos, ele próprio, Fidel Castro, nos fala:
“Escrever é uma forma
de ser útil, se consideramos que nossa sofrida humanidade deve ser mais e
melhor educada ante a incrível ignorância que nos envolve a todos, com exceção
dos pesquisadores que buscam nas ciências uma resposta satisfatória….
Os Estados Unidos
devem a Cuba indenizações equivalentes a
danos, que ascendem a muitos e valiosos milhões de dólares como denunciou nosso
país com argumentos e dados irrebatíveis ao longo de suas intervenções nas
Nacões Unidas.
Como foi expresso com
toda clareza pelo Partido e o Governo de Cuba, em prova de boa vontade e da paz
entre todos os países deste hemisfério e do conjunto de povos que integram a
família humana, e assim contribuir para garantir a sobrevivência de nossa
espécie no modesto espaço que nos corresponde no universo, não deixaremos nunca
de lutar pela paz e o bem-estar de todos os seres humanos, independentemente da
cor da pele e do país de origem de cada habitante do planeta, assim como pelo
direito pleno de todos a possuir ou não una crença religiosa.
A igualdade de todos
os cidadãos à saúde, educação, trabalho,
alimentação, segurança, cultura,
ciência, e bem-estar, quero dizer, os
mesmos direitos que proclamamos quando iniciamos nossa luta, mais os que venham de nossos sonhos de
justiça e igualdade para os habitantes de nosso mundo, é o que desejo a todos.
Aos que comungam em tudo ou em parte com as mesmas ideias, ou muito superiores,
mas na mesma direção, lhes dou meus agradecimentos, queridos compatriotas”.
Eu penso que Fidel
Castro é imortal. Mas o que é mesmo essa tal de imortalidade? Tentei esclarecer
o fenômeno em página que escrevi ontem para o livro “Em busca do terrorista”, o
meu próximo romance:
A vida é o que
resiste. Que contradição mais estranha, eu descubro e me digo: a vida, tão
breve, é tudo que resiste. Mas que paradoxo: se ela está no tempo que se dirige
para o fim, se ela é naquilo que deixará de ser, como sobreviverá à
Irresistível, que é mais conhecida pelo nome de morte? A resposta é que existe
uma resistência na duração do instante, que ocorre na intensidade, luz, flor ou
cintilação. É como o brilho da luz de uma estrela distante, que recebemos
agora, “agora”, se fosse possível um agora simultâneo, mas que num paradoxo já
não existe. O que vemos agora já não mais existe, tamanha foi a distância que a
luz percorreu no espaço escuro até ferir a nossa percepção. Mas isso é no
terreno físico, mecânico, do reino da velocidade da luz de 300.000 quilômetros
por segundo. O que desejo dizer é mais fino. A resistência, que é vida, se
processa na brevidade pelas ações e trabalhos dos que partiram e partem. Mas
nós, os que ficamos, não estamos na estação à espera do nosso trem. Nós somos
os agentes dessa duração, esse trem não chegará com um aviso no alto-falante,
“atenção, senhor passageiro, chegou a sua hora, entre”. Até porque talvez
chegue sem aviso, e não é bem um transporte. O trem é sempre de quem fica. E
porque somos agentes da duração, a nossa vida é a resistência do fugaz. Nós só
vivemos enquanto resistimos. Nós alcançamos a imortalidade, isto é, o que
transcende a sobrevivência ao breve, porque a imortalidade não é a permanência
de matusaléns decrépitos, nós só alcançamos a imortalidade pelo que foi mortal,
mortal, mortal, e sempre mortal não morreu. Aquilo que num poema Goethe gravou
em pedra:
“Deve-se mover, obrar
criando
Tomar sua forma, ir-se
alterando
Momento imóvel é
aparência.
Na eternidade em
disparada
Que tudo arruína e
leva ao nada
Somente o ser tem
permanência”
Penso que é nessa
forma, a da permanência do ser, a da vida que é resistência, que podemos ver a
imortalidade de Fidel Castro. Ele se tornou imortal não só agora, nos seus 89
anos. Ele se tornou antes, desde a derrubada de Fulgencio Batista e da
revolução na ilha que virou um continente. Fidel passa por este presente e resistirá com sua vida no tempo.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Uma bela biografia, mas há controvérsias, de acordo com o lado que se veja.
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