Plataforma zero
* Por
Marcelo Sguassábia
Embarca logo, corre,
ou chegaremos tarde ao tempo que perde a hora.
O casamento campestre,
lá no alto da colina as noivas várias e loiras feitas de açúcar cristal. Véus
de caramelos velhos, já roxos de tão vencidos, deixam sua calda melosa pelos
caminhos de lírios. Sim, há noivas novas e gastas, há belas e remediadas,
contrastando seus vestidos com os negros trajes do padre.
Na gaveta de uma
cômoda de Roma, as passagens sabe Deus dizer pra onde. Lua de mel de
laranjeira, abelha rainha reina sobrevoando sobre o voal. Pronta pra ir,
querida? O navio está apitando o apito de Noel Rosa na fábrica de tecidos. Não
fira mais seus ouvidos. Escuta, antes que me esqueça, o imenso rol de palavrões
que farão você corar da nuca até os tornozelos, num enlevo de novelo de lã boa
de alisar.
Desejos vão fumegando
na cabine super luxo. Fogo alto, gente acesa. Olha a angústia que fermenta em
meio ao limbo dos possessos, uma piscina até a borda de leite de ninfas lindas
e faunos não-correspondidos com pulsos semi-cortados.
O próximo cipó para o
Japão sai daqui a meia hora. Se agarre em vão nesse embalo e aproveite as
escalas na Normandia e em Oklahoma. Mande um beijo pra sua tia no programa de
calouros da TV da Groenlândia. Quem sabe telespectando, deslize pelas funções
do descontrole remoto.
Estranhou? Pois se
acostume. Nem começou o delírio que a olhos vistos é colírio dos que se amam
além-mar, cercados de serafins tocando cuíca e ganzá. Há coisas que eu não te
disse que é bom que fiquem bem claras. Dentre elas, um segredo: tem nariz
verde, de vidro, o verme subnutrido no quintal da Dona Nina. Mil cavalos de
potência a todo galope levam à terra do nunca chega, que é a mesma desde sempre
e propriedade de ninguém. Antílopes desgarradas, por que se aninham quietas nos
bojos dos alaúdes? Ninguém mata essa charada, tente adivinhar e diga, ganha um
doce quem souber.
Só sei que agora o
abandono me abanou o rabo, me deixou sem dono e desse jeito assim, no estado em
que me encontro, uma mão na frente e outra em outrora. É um tiquinho de voz o
que restou na goela da gravura do Van Gogh, aquela que tenho em casa e que você
tanto gosta.
Sobrevoamos nesse
instante a seara dos poemas inconclusos, ao mesmo tempo em que se decifra o
enigma dos enigmas. Não é possível que ninguém perceba esse barulho estranho na
turbina esquerda do tapete mágico. Dá um look around no Colosso de Rhodes em
sua cadeira de rodas. Ora quem diria, do alto desse ultraleve se vê
perfeitamente Rhodes sobre rodas fazendo arte abstrata nos Jardins da
Babilônia. Reclinam suas poltronas os doze desdentados duendes de Detroit,
conferem seus bilhetes, seus vauchers e reservas no Resort Hostil.
Quarteirões de queijo
com casas caiadas, uma tulha às moscas e uma ponte pênsil que não leva a nada,
mas que ainda assim é natureza morta do pintor mirim. O trem nessa lenga-lenga,
faz que vai mas não vai, e segue esse trilho mesmo, o mesmo trilho de ontem que
continua amanhã.
Chegamos, sem termos
ido. A van que nos translade do poço dos pesares ao pico dos prazeres, em
rasgos paquidérmicos de riso.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
E vamos passo a passo, rindo e tentando entender tudo. Até que a vida os una. Porque "até que a morte os una" já foi dito por Chico Buarque.
ResponderExcluir