Um desesperado amor interracial
A escritora norte-americana Pearl S. Buck – criada na China,
onde passou cerca da metade da vida – tinha, como tema recorrente dos seus
romances, o amor interracial, que na primeira metade do século XX era tabu. Havia
forte preconceito a respeito o que, a bem da verdade, ainda persiste, posto que
de forma dissimulada, camuflada, revestida de eufemismos e que não é, portanto,
tão ostensiva como então. A resistência a essas uniões entre pessoas de etnias
diferentes, todavia, permanece viva entre as famílias dos envolvidos, entre seus
amigos, conhecido e vai por aí afora. Claro que, como toda forma de preconceito,
esta também é absurda e inconcebível. Mas existe (ainda).
A propósito de Pearl Buck citei, como personagem feminina “mais”
inesquecível (o que pressupõe que ela não criou uma única e solitária, com tal
característica, mas várias) a chinesa Kwei-Lan, protagonista do livro “Vento
Leste vento Oeste”. Um leitor questionou-me. Perguntou-me o que eu achava da
japonesa Josui, que se apaixonou pelo soldado norte-americano Allen, do romance
“A flor oculta”. Confesso que já havia
me esquecido desse livro. Pudera, li-o em 1961 e depois dele, minha quantidade
de leitura foi absurdamente elevada. Haja memória! Por coincidência, tenho essa
obra em minha volumosíssima (porém caótica) biblioteca. Reli-o, pois, neste
final de semana e não posso deixar de dar razão ao leitor que me questionou.
Josui é, mesmo, personagem feminina inesquecível, sem tirar e nem por (desde
que se tenha o romance na memória).
Não é que o livro seja desses que a gente esquece meses (ou
mesmo dias) após concluída a leitura. Não se trata disso. Ocorre que já se
passaram 54 anos (uma vida) desde que o li. Por isso é que desenvolvi o hábito
da releitura. Para não cometer injustiça com grandes romances e seus autores. “A
flor oculta” (cujo título original é “The didden flower”), foi lançado em 1960,
pela Editora Globo, com tradução de Stela Altenbernd e Gilberto Miranda. Tratava-se
do volume 19 da Coleção Catavento. Foi relançado em 1977 pela Edibolso.
O enredo lembra, de alguma forma, “Madame Buterfly”, do
drama teatral de David Belasco que, por sua vez, se baseou numa história
escrita pelo advogado norte-americano John Luther Long. A peça inspirou o
compositor Giácomo Puccini a compor sua famosa ópera com esse nome, com libreto
da dupla italiana Luigi Illica e Guseppe Giacosa que estreou em 17 de fevereiro
de 1904 no famoso Teatro Scala, de Milão. A maioria das pessoas do meu círculo
íntimo de amizades conhece essa história por haver assistido à apresentação
dessa célebre peça musical e não por assistirem o drama no teatro ou por lerem
o livro que a inspirou. Mas... isso não vem ao caso.
No romance de Pearl Buck, Josui é uma japonesa que havia vivido
na Califórnia e que um dia regressou ao Japão. Ali, conheceu Allen, soldado
norte-americano, em missão na terra do sol nascente. A despeito de suas
diferenças culturais e realidades pessoais e familiares muito diversas, ambos
se encontraram, se apaixonaram e... esbarraram no obstáculo quase que
irremovível do preconceito racial. Nem a família de Josui aceitava Allen e nem
a dele aprovava seu relacionamento com a bela japonesa. Óbvio que ambos sofreram
horrores e se separaram. Mas desse romance resultou algo de concreto e bom: o
nascimento de Lennie, fruto desse desesperado amor proibido, que conquistou
simpatias gerais, e que é, ao fim e ao cabo, a tal “flor oculta” do título do
livro. Se puderem, leiam essa memorável obra e se emocionem com o drama, com a
emoção, com a tristeza e posterior saudade de Josui, personagem feminina de fato
inesquecível. Eu me emocionei.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Preciso parar de trabalhar para poder ler os livros que tenho vontade. Leio muitos, mas nem perto do número que desejo. Relê-los então, está fora de cogitação.
ResponderExcluirCaro Pedro, estou praticamente no mesmo processo da doutoramiga Mara!!! Abração!
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