Criadora inesquecível de personagens
inesquecíveis
A escritora gaúcha Leticia Wierzchowski está com novo livro
na praça. Trata-se do romance “Navegue a
lágrima”. Se não errei na contagem, é sua
18ª obra literária, incluindo os quatro volumes destinados ao público
infanto-juvenil. Suas publicações são todas de ficção, o que mostra o quanto é
criativa e talentosa. Os que já escreveram algum romance sabem o quanto de
trabalho, de autodisciplina, de planejamento, imaginação e determinação uma
empreitada dessas exige. Eu, por exemplo, estou trabalhando no meu primeiro há
mais de dez anos e ainda não consegui concluí-lo. Imaginem escrever (e pior,
publicar) catorze, como é o caso de Letícia. É uma façanha! É o caso de nunca
esquecer não apenas personagens femininas que sejam de fato inesquecíveis, mas
também das (ainda raras) mulheres que as criam.
Mas não é de “Navegue a lágrima” que irei tratar hoje. Meu
foco é o livro “Os Getka”, publicado pela Editora Record em 2010. E por que este
e não outros da sua vasta bibliografia? Porque é o que acabo de ler. O título sugere, logo de cara, a relação da
autora com sua origem. Trata-se de uma história de amor, cujo principal
personagem, Andrzej, escritor de descendência polonesa, exerce duplo papel:
além de protagonista, é, também, o narrador da trama. E é quem mergulha, como
que numa piscina, nas lembranças da mulher que foi sua grande paixão de infância,
Lylla, intermeando essas passagens com seu próprio presente. Os capítulos
alternam épocas da vida do personagem-narrador. Entre essas lembranças, estão
memórias dos verões que passou na casa azul, onde a presença de Lylla era
marcante, passagens do seu casamento com Isabela e outras tantas recordações,
que são como que sutil convite ao leitor para que rememore, também, os melhores
momentos de sua própria infância. .
Óbvio que não vou, sequer, resumir o romance para não
estragar o prazer de quem o adquirir (o que recomendo sem pestanejar). Confesso
que, desde que li “A casa das sete mulheres”, o que já vai um certo tempo, mais
de uma década pelo menos, fiquei fascinado por essa conterrânea. Aliás,
fascinado é pouco. Fiquei “vidrado” por ela!!! Nos últimos dez anos (ou mais)
ensaiei, “n” vezes, escrever sobre ela, mas sempre ocorria alguma coisa que me
obrigava a adiar esse desejo “sine die”. Até que apareceu o atual pretexto: o
de trazer à baila um punhado de personagens femininas inesquecíveis da
literatura mundial. E as sete parentas do herói farroupilha, Bento Gonçalves,
não poderiam ficar de fora, concordam? Seria uma heresia não tratar delas nesse
contexto.
Há tanta coisa que planejei escrever sobre Leticia
Wierzchowski que o mais provável é que acabe omitindo justamente o que é mais
relevante. Isso acontece com assuntos tão ricos e variados, como este, que
tendem a confundir nossa cabeça. Não escondo, porém, a admiração que me causa o
fato de uma mulher tão jovem (acaba de completar 43 anos de idade), conte com
produção literária tão vasta e tão rica. E isso, sem abrir mão de sua vida
pessoal em Porto Alegre, onde reside: a de esposa e de mãe de dois filhos, com
todas as obrigações que esses papeis lhe impõem. Para mim, sua carreira literária pode ser
contada antes e depois de “A casa das sete mulheres”. Até o sucesso desse
romance, Letícia era uma escritora apenas regional (não que isso diminuísse sua
importância, longe disso). Depois desse êxito, todavia (para o qual a
minissérie da Globo muito contribuiu), passou a ser nome nacional. Pelo menos é
a visão que tenho da sua carreira.
Sua vasta bibliografia (na maior parte produzida nos últimos
treze anos) é a seguinte, caso eu não tenha omitido nenhum livro: Romances: “O anjo
e o resto de nós” (1998), “Prata do Tempo” (1999), “eu@teamo.com.br”, com
Marcelo Pires (1999), “A casa das sete mulheres” (2002), “O pintor que escrevia”
(2003), “Cristal polonês” (2003), “Um farol no Pampa” (2004), “Uma ponte para
Terebin” (2005), “De um grande amor e uma perdição maior ainda” (2007), “Os aparados”
(2009), “Os Getka” (2010), “Neptuno” (2012), “Sal” (2013) e “Navegue a lágrima”
(2015). Livros infantis: “O dragão de
Wawel e outras lendas polonesas” (2005), “Todas as coisas querem ser outras coisas”
(2006), “O menino paciente” (2007) e “Era uma vez um gato xadrez” (2008).
Notável é a regularidade com que Letícia escreve e publica
seus livros. É, praticamente, na razão de um por ano. Caso mantenha essa média
(espero que sim), quando chegar à minha idade terá publicado (caso se continue
a escrever somente romances) quarenta e sete obras de ficção! É verdade que
Letícia nem sempre teve essa facilidade de acesso às editoras. Em uma excelente
entrevista que concedeu há algum tempo ao site “SaraivaConterudo”, da Editora
Saraiva, ela revelou:
“Eu fui muito recusada! Fui tão recusada... Eu escrevia
tanto... Demiti-me do trabalho do meu pai porque queria ser escritora.
Publiquei primeiro por uma editora aqui do Sul. Mandei [originais] para grandes
editoras do Brasil várias vezes. A ponto de, um dia, alguém da editora Objetiva
me ligar: ‘Por favor, Leticia, não mande mais seus originais porque eu já tenho
vergonha de negar. Porque a gente não vai publicar o livro de uma escritora
jovem, sem indicação. Não mande mais!’ Pensei: ‘Bom, esse caminho não vai dar
certo’”. E como Letícia rompeu essa muralha de “nãos” (que nos é tão familiar),
até conquistar seu espaço? É ela quem narra, na referida entrevista:
“Em Porto Alegre tem um edital da Prefeitura que se chama
Fundo Pró-Arte. Eles dedicam uma verba para obras artísticas de moradores da
cidade. Publicar um livro é barato. Eu sabia que se quisesse publicar era
fácil. Mas nunca incorri nesse erro porque não temos como fazer distribuição.
E, depois, chega num veículo sem nenhuma recomendação e ninguém lê. Fui
selecionada e ganhei o custo da edição. Então, uma editora, que já tinha me
negado, resolveu me publicar”. Deu no que deu.
Sua persistência é outra, das tantas razões, para admirar Leticia
Wierzchowski como admiro. Meu leitor é testemunha do quanto tenho insistido na
importância dessa “teimosia”, caso tenhamos convicção de que aquilo que estamos
fazendo é de qualidade e que merece o espaço, o lugar ao sol que tanto ansiamos
(mas que nem sempre buscamos, esgotando todas as possibilidades). Admiro as
pessoas talentosas, com personalidade, que sabem o que querem e que nunca
desistem de seus sonhos. E Letícia, como se vê, nunca desistiu.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O talento é indiscutível, mas o acontecimento do milagre continua inexplicável.
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