Elogio do mal
* Por Paulo Henriques Britto
1
A uma certa distância
todas as formas são boas.
Em cada coisa, um desvão;
em cada desvão não há
nada.
À mão direita, a
explicação
perfeita das coisas. À
esquerda,
a certeza do inútil de
tudo.
Ter duas mãos é muito
pouco.
Por isso, por isso os
nomes,
os nomes que embebem o
mundo,
e os verbos se fazem
carne,
e os adjetivos bárbaros.
2
O mundo se gasta aos
poucos.
A coisa se basta a si
mesma,
mas não basta ao que
pensa
um mundo atulhado de
coisas
que se apagam sem pudor,
que se deixam dissipar
como quem não quer nada.
Existir é muito pouco.
Por isso, por isso os
nomes,
os nomes que se engastam
nas coisas
e sugam o sangue de tudo
e sobrevivem ao bagaço
e negam a tudo o direito
de só durar o que é duro,
e roubam do mundo a paz
de não querer dizer nada.
3
Bendita a boca,
essa ferida funda e má.
* Poeta, lingüista, professor e tradutor, autor dos
livros “Liturgia da matéria”, “Mínima lírica”, “trovar claro” e “Macau”.
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