A comunicação que permanece
A
comunicação correta, competente e, por isso eficaz, é um desafio para todas as
pessoas, não importa qual seja sua condição e, notadamente, para os que fazem
dela uma profissão. De uma forma ou de outra, todos nos comunicamos. Ora
fazemos isso oralmente (a forma mais comum), ora por escrito, ora, dependendo
das circunstâncias, através de gestos, de sinais, de mímica. Pretendo, oportunamente,
tratar com maiores detalhes do tema. Para introduzi-lo, todavia, peço licença
ao leitor para reproduzir, a título de editorial, a crônica abaixo, que já
divulguei neste espaço, mas que torno a fazê-lo a pedido de alguns leitores.
“O ato de comunicar um pensamento, um
sentimento, uma idéia ou uma informação implica em maiores dificuldades que um
leigo pode imaginar. A deficiência de comunicação tende a provocar enormes
contratempos, que não raro descambam para conflitos, entre as pessoas, gerando
antagonismos e brigas, na maioria das vezes evitáveis.
Isto é válido desde as relações pessoais
do dia-a-dia (no lar, no trabalho, no lazer e na convivência social), até o
relacionamento entre povos. Por exemplo, muito marido indispõe-se com a esposa
por não saber lhe comunicar corretamente uma emoção. Ou por não se fazer
entendido ao lhe prestar determinada informação sobre os seus atos.
O mesmo acontece com pais, com filhos,
com patrões, com empregados, com amigos etc. Por outro lado, pelo mesmo motivo,
muita guerra tem sido deflagrada através da História. A palavra é poderosa,
quando manejada com perícia. Contudo, pode tornar-se uma faca de dois gumes se
utilizada de maneira, digamos, desastrada.
A tarefa da comunicação se complica um
pouco mais se é feita através da escrita. Esta implica, a priori, no
conhecimento da grafia das palavras, das regras gramaticais, do significado
exato de cada termo e, para quem faz desse exercício uma profissão, do estilo.
A principal virtude de um bom redator é
a clareza, seguida da concisão. É indispensável que se faça entendido. Além
disso, o que escreve precisa ser interessante, tem que atrair o leitor, e
prender a sua atenção. Para tanto, deve deixar a erudição para textos voltados
a um público específico, e mesmo assim tomando as devidas cautelas para não
resvalar para o pedantismo.
Além desses cuidados técnicos, o
comunicador precisa atentar para o essencial: o que vai comunicar e para quem.
O que tem a dizer vai esclarecer os leitores, ajudar a formar uma opinião,
servir de acréscimo ao seu acervo cultural, ou se trata, somente, de um
conjunto de lugares-comuns, de um rosário de críticas inconseqüentes, ou de
lamúrias neuróticas, ou de obviedades dignas daquele personagem do romance “O
Primo Basílio” de Eça de Queiroz, o Conselheiro Acácio?
Boa parte do que lemos nos jornais,
revistas, sites, blogs e até em livros bastante divulgados não passa disso!
Melhor seria, nesse caso, em especial da mídia impressa, que se preservasse a
árvore que foi abatida para fornecer a matéria-prima do papel onde o acervo de
bobagens será estampado.
O comunicador, antes de tudo, é o que
poderíamos chamar, figurativamente, de “fazedor de cabeças”. O texto, em geral,
adquire maior credibilidade do que a palavra oral. Além de tudo, permanece, ao
contrário daquilo que dizemos, que entra por um ouvido, sai por outro, e em
geral, acaba esquecido minutos depois. Ou, quando é algo de fato relevante,
deixa uma ou outra informação gravada na memória, de forma truncada, já que
muitos detalhes (alguns essenciais) se perdem.
Para que possamos “fazer cabeças”, diz a
lógica, é preciso que, antes, tenhamos a nossa cabeça feita. O papel em branco
numa máquina de escrever (ou tela vazia do monitor do microcomputador, hoje em
dia o instrumento por excelência do redator) é um desafio aos que fazem desse
ato de inteligência e comunicação uma espécie de estilo de vida.
Para alguns, o texto flui naturalmente,
claro, cristalino, vigoroso, às vezes contundente, outras confortador, mas
sempre útil. Outros, no entanto, embaralham-se ora com a grafia de determinadas
palavras, ora com a construção das frases, períodos, parágrafos, capítulos
etc.; ora com a ausência de recursos vocabulares, ora com regras da crase e de
concordância verbal, ou de grau, gênero e número.
Uns, têm idéias boas, fartas, vigorosas
e sabem como comunicá-las. Outros, querem, somente, comunicar sua revolta, suas
frustrações, seus temores e sua perplexidade face à vida. Estes últimos, quando
conseguem se expressar, muitas vezes elaboram textos que vão ter uma influência
perniciosa sobre os que se sentem confusos, revoltados, frustrados e temerosos,
como eles. Na maioria das vezes, porém, suas “mensagens” são fúteis.
Estas considerações vêm a propósito de
uma enxurrada de má literatura (e de mau jornalismo) que circula por aí. Tenho
recebido inúmeros trabalhos de candidatos a escritor, que me pedem para
prefaciar essas obras ou para emitir a nossa opinião. Muitos desses textos são
de inegável valor, exigindo, somente, um ou outro retoque para que possam ser
classificados de excelentes. Alguns chegam a beirar a perfeição.
Alguns, todavia, se esquecem que a
compreensão é o objetivo principal, se não único, da comunicação. Raciocinam de
maneira confusa, daí se expressarem, também, sem clareza e sem precisão. Na
ânsia de mostrar erudição, que muitas vezes sequer possuem, se tornam,
literalmente, ininteligíveis.
Há os que confundem erotismo com
pornografia e resvalam para o absoluto mau gosto, mostrando que, na verdade,
não tinham nada a comunicar. Quanto a alguns textos jornalísticos, que me foram
encaminhados para apreciação (e outros tantos que li na chamada “grande
imprensa” nacional e internacional), é difícil deixar de dar razão ao dramaturgo
irlandês George Bernard Shaw (conhecido por suas tiradas mordazes), quando
constatou que ‘os jornais, ao que parece, são incapazes de distinguir um
acidente de bicicleta do colapso da civilização’”.
Boa
leitura.
O
Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Um resumão bastante útil para atentarmos a seguir as regras e tentar escrever melhor.
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