Serra Morena
* Por
Evelyne Furtado
Os
de Serra Morena lá não nasceram. Nasceram, eles, em terras outras, mas lá
encontraram pouso, como se pouso tivessem as almas daqueles lá, pois todos
padecem de um atroz desassossego.
São
todos desvalidos de siso e expressam, tal falta, com urros, murros, silêncios
ou imobilidades férreas: Pastoreiam, guerreiam, assaltam, deliram e executam
tais feitos como querem ou como a loucura própria determina.
Todos
carregam cruzes. Chego a pensar, sobre aqueles lá, que as dores no espírito ou
no coração - como queiram vocês chamar o que dói a tal ponto de
desassossegar-passaram aos músculos, às carnes, à pele e aos ossos, enfim, tudo
dói por lá.
Os
de Serra Morena: Cardênio, Lucinda, Teodora, Sancho, o Cura, o Barbeiro, o da Triste
Figura, os poetas, os bardos, os romancistas, os amantes de hoje e de ontem e
mais todos que se identificam com eles daqui ou de lá, não começaram suas sinas
na dor; antes passaram todos pela sina do amor ou algo que o valha.
Sem
nenhuma exceção aquelas loucuras juntas tinham em comum, além de uma inegável e
suprema graça, a desilusão.
É
preciso que se diga, contudo, que para se chegar ao desencanto há que se
começar pelo encanto. E haja encantamento: Uns tiveram a ventura de amar e
serem amados ou pelo menos acreditaram nessa espécie de condão. Outros eram
crentes em capas, espadas, cavalarias, romances e salvação.
Todos
perderam da realidade a noção, mas já descem a Serra por obra e graça da fé nas
notícias de que ao seu pé há uma estalagem, ou venda; ou café ou castelo, onde
suas histórias se cruzarão e que, nesse canto, por obra do maior visionário de
todos os tempos, a vida seguirá com o fim dos desencontros, o término da
loucura e a vitória da boa vontade aliada a um bocadinho de razão.
Texto
inspirado em Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.
*
Poetisa e cronista de Natal/RN
Houve um tempo em que ir para Serra Morena não tinha passagem de volta. A indústria Farmacêutica quer lucro, abusa, mas resgata pessoas do outro lado da cortina e as traz de volta ao mundo da consciência, da independência e da produtividade. A loucura não é romântica, como a tuberculose já foi um dia. Boa maneira de chegar no limiar desse mundo de tanto sofrimento e discriminação. E com doçura, Evelyne.
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